O culpado de tudo é o celular


{mosimage}A medida é absurda e inútil. Embora pareça óbvio para as pessoas de bom-senso, o grande vilão é a situação do sistema penitenciário e a falta de prioridade das questões de segurança pública no Brasil. Falta quase tudo nos presídios.

Nas mãos de bandido, o celular é uma arma. A frase tem sido repetida à exaustão. Logo, propõem nossos sábios – nas áreas de segurança pública e da Justiça – a solução é bloqueá-lo, ou desligar as antenas transmissoras nas proximidades dos presídios, mesmo que a medida isole e prejudique centenas de milhares de cidadãos inocentes, como ocorreu em São Paulo, durante três semanas no mês de maio e início de junho.

A medida é absurda e inútil para os objetivos propostos. E, pior, é prejudicial à população que sofre os efeitos colaterais dessa estranha estratégia. Se o celular é considerado uma arma, em breve, raciocínio idêntico deverá valer para a internet, também usada por bandidos, pedófilos e fraudadores cibernéticos. Ou para os automóveis, pois eles matam milhares de pessoas por ano no Brasil. Ou para a gasolina, porque ela pode ser usada na fabricação de coquetéis molotov. Ou, ainda, por absurdo, para as canetas, instrumentos usados para preencher cheques sem fundos.

Embora pareçam piada, essas comparações têm a mesma lógica das restrições impostas ao celular, propostas pelas autoridades de segurança e aprovadas pela Justiça, nas últimas semanas. O que mais irrita nesse episódio é a hipocrisia dessas autoridades que fingem ignorar as raízes do problema, voltando a adotar uma medida sabidamente ineficaz desde 2002.

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Com base na experiência paulista dos últimos quatro anos, sabemos que os equipamentos de bloqueio do celular são sabotados dentro dos presídios, desligados várias horas por dia, abandonados sem manutenção, ou deliberadamente quebrados. Foi isso que aconteceu na maioria dos presídios paulistas.

O verdadeiro problema

Embora pareça o óbvio para as pessoas de bom-senso, o grande vilão não é o celular, mas a situação do sistema penitenciário e a falta de prioridade das questões de segurança pública no Brasil. Falta quase tudo nos presídios brasileiros: pessoal qualificado, infra-estrutura adequada, recursos tecnológicos mínimos e fiscalização rigorosa. Bloquear a comunicação é hipocrisia, quando a Justiça sequer classifica como falta grave o uso do celular pelos presos. E, mais do que tudo, não se enfrenta seriamente a corrupção que introduz, todos os dias, tóxicos, armas e centenas de celulares nos presídios.

O desligamento das estações retransmissoras mais próximas é medida precária e vulnerável, porque qualquer delinqüente pode reorientar uma antena remota, até cinco quilômetros de distância, direcionando o sinal do celular para os presídios. Um único telefone celular GSM de alta sensibilidade dentro do presídio permitirá que os presos captem até o mais tênue sinal e repassem esse aparelho de mão em mão, usando diferentes chips (Sim Cards).

Além de pouco eficaz no combate ao crime, esse tipo de guerra contra o celular prejudicou mais de 200 mil usuários paulistas que moram, trabalham ou transitam nos bairros próximos aos presídios até alguns quilômetros de distância. Imagine a situação daqueles cujos carros quebrem ou sofram acidente nas vias Anhangüera ou Bandeirantes, nas proximidades do presídio de Franco da Rocha, ou de outros presídios junto de grandes rodovias. Seu celular funcionará muito mal ou simplesmente ficará mudo, obrigando-o a descer do carro, caminhar na chuva ou no frio em busca de telefone fixo ou de socorro.

Se o secretário da Segurança Pública e os juízes que insistem em proibir o celular quisessem ouvir especialistas, saberiam também que essa guerra contra o celular não tem futuro, pois daqui a três anos, quase todas as cidades deverão estar cobertas por sinais das redes sem fio de alta velocidade, Wi-Fi e WiMAX. Será quase impossível impedir que os novos celulares, já disponíveis no mundo, captem os sinais dessas redes. Teremos que bloquear e banir também esses avanços?

Nossos governantes – atuais e passados – jamais deram à educação, à segurança e às políticas sociais, a importância e a prioridade que elas exigem. Para eles, é muito mais fácil bloquear celular.


Ethevaldo Siqueira – Jornalista, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, e da Revista Veja, nas áreas de Economia Digital e Novas Tecnologias. É autor de oito livros.

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