O Brasil precisa de 40 mil programadores por ano. Forma 17 mil.


{mosimage}A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) consolida, em maio, um documento que irá apontar os problemas que precisam ser superados para impulsionar a indústria nacional de tecnologia da informação (TIC). Segundo Gilberto Lima, coordenador da estratégia nacional em TIC da ABDI, um dos problemas mais sérios é a carência de mão-de-obra, de 40 mil profissionais, para a qual será criado um programa específico. 

A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) faz a ponte entre  governo, setor produtivo e universidade para desenvolver a estratégia nacional em TICs, que envolve cinco programas. Em maio, será consolidado um relatório que irá apontar as lacunas que precisam ser eliminadas para impulsionar a indústria nacional de tecnologia da informação. E, segundo Gilberto Lima, coordenador da estratégia nacional em TIC da agência, um dos problemas mais sérios é a carência de mão-de-obra para atender a demanda, de 40 mil profissionais por ano.   

Tele.Síntese – Há diferentes instituições do governo tratando de política industrial para as TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação). Entre elas, o Ministério do Desenvolvimento Industrial, o Ministério da Ciência e Tecnologia, o BNDES e a ABDI. Qual é o papel da ABDI?
Gilberto Lima –
A ABDI faz a interface entre a estrutura pública e a produtiva. Ela não é uma formuladora de política, é uma articuladora dessa máquina. O Conselho da ABDI é presidido pelo ministro da Ciência e Tecnologia, até porque não se pode falar em política industrial sem falar em inovação tecnológica. Por outro lado, conta com o envolvimento direto do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, com o qual tem um contrato de gestão. No âmbito do Mdic, há o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), que reúne os principais ministros, representantes dos trabalhadores e o segmento produtivo da indústria. A ABDI é a secretaria-executiva desse Conselho.

Se, por um lado, é integradora das ações de conjunto, por outro, é uma interface com o setor produtivo. Temos o cacoete de conversar com os diferentes subsetores das áreas de TICs e traduzir os diferentes posicionamentos para as instâncias de governo onde a ABDI atua e integra.

Tele.Síntese – Na primeira etapa da política voltada para TICs, o governo priorizou os segmentos de semicondutores – para o mercado interno – e software para o mercado externo. Nos semicondutores, parece que a política caminha, já que a primeira fábrica acabou de anunciar a sua vinda para o país. Mas as exportações de software continuam patinando, e a meta de US$ 2 bilhões, longe de ser alcançada.
Lima –
O Brasil tem um dever de casa tão grande a fazer nesse setor, a começar pelos números. Não existem indicadores mostrando qual é o volume de exportações de software brasileiro. Análises mais pragmáticas apontam que o Brasil já exportaria por volta de US$ 400 milhões em software e serviços. Mas os números podem variar de US$ 250 milhões a até US$ 800 milhões.

Tele.Síntese – Como atingir a meta prevista?
Lima –
Os números que o mercado mundial apresenta como oportunidade em outsourcing (terceirização de serviços) e off-shore (software sob encomenda) são extremamente atraentes. O universo do mercado mundial de off-shore está em US$ 600 bilhões. A Índia atende quase 10% desse mercado e tem planos de chegar a US$ 100 bilhões. Por uma série de razões, Europa e Estados Unidos olham para o Brasil com uma certa expectativa para nos posicionarmos nesse universo.

Tele.Síntese – Qual o mercado nacional de software?
Lima –
Se considerarmos todos os universos – software produto, software serviço e até mesmo o semi-customizado, estamos falando de um mercado de R$ 18 bilhões por ano. Talvez o mercado interno seja o maior concorrente das exportações brasileiras.

Tele.Síntese – Desses R$ 18 bilhões do mercado interno, qual é a participação da indústria nacional?
Lima –
Os números também divergem. Mas há um potencial de crescimento da indústria nacional muito grande, pois cerca de 40% de nosso mercado é ocupado pelas multinacionais. As pequenas e médias empresas , principalmente, têm uma grande oportunidade de crescimento.

Tele.Síntese – Quais são as medidas concretas para essas empresas?
Lima –
A Lei Geral das Pequenas e Médias Empresas, recentemente aprovada, determina que o governo compre apenas das pequenas e médias empresas produtos e serviços de até R$ 80 mil. Esse é um instrumento importante. Há uma reivindicação legítima desse segmento e uma luta antiga, para considerar a área de software dentro do Simples, que até hoje não foi contemplada.

Tele.Síntese – O que falta ao Brasil para ser mais agressivo no off-shore?
Lima –
O maior gargalo do país, por incrível que pareça, é mão- de- obra. Os números são bastante preocupantes. Estamos falando de uma demanda de 40 mil profissionais por ano quando só estamos formando 17 mil profissionais.

Tele.Síntese – Qual é o perfil desses profissionais?
Lima –
Desenvolvedores, particularmente. Engenheiros e arquitetos de softwares muitas vezes têm que atuar como programadores pela falta desse profissional. E essa carência reflete apenas a demanda atual. Ao trabalharmos para o posicionamento internacional teremos imensa necessidade que se formem profissionais de desenvolvimento em qualquer linguagem. Temos necessidade urgente de formação de mão-de-obra.

Tenho ouvido depoimentos de algumas grandes empresas que estão sendo obrigadas a recusar contratos porque não encontram gente qualificada, com o domínio da língua inglesa. Isso gera um risco para o crescimento da indústria nacional, que não consegue reter os seus talentos. Temos que dar respostas urgentes para esse problema e a estratégia nacional que está sendo traçada prevê respostas objetivas para isso.

Tele.Síntese – Essa estratégia nacional é um programa? Será anunciada quando?
Lima –
Nos últimos oito meses, fizemos uma mobilização nos principais ministérios para entender as demandas de governo. Fizemos uma leitura sobre como as coisas são entendidas pelos formuladores de políticas. Demos um mergulho em cada um dos subsetores das TICs e conseguimos obter dos subsetores propostas de mudança. Foram oito meses de downsizing profundo, que culminou em uma proposição oficial das entidades representativas do setor privado, como Abinee, Abranet, Softex sobre as ações que o governo poderia tomar. Em dezembro passado foi realizado um encontro, com a academia, o governo e o setor privado, em São Paulo, quando foram aprovados os programas estratégicos.

Tele.Síntese – Quais são eles?
Lima –
Estamos finalizando a criação do Programa Nacional de Recursos Humanos em TICs; Programa Nacional de Inovação em TICs; Programa Nacional de Certificações e Padronizações; Programa Nacional de Exportação em TICs; Programa de Competitividade em TICs; e o Programa de Inclusão Digital.

Tele.Síntese – Quem vai executar esses programas?
Lima –
Para cada programa, haverá uma coordenação e um comitê formados pelo governo e iniciativa privada.

Tele.Síntese – Qual é o cronograma para a efetivação desses programas?
Lima –
Nos meses de março e abril faremos uma consulta a 80 representantes do governo, inciativa privada e academia que cobrirão cerca de 60 questões ligadas às TICs. Essa consulta vai permitir a compilação e análise dos dados em relação aos programas e outras idéias que surgirão para se incorporarem à estratégia nacional.

Tele.Síntese – Essa consulta é para confirmar a escolha das prioridades dos programas?
Lima –
Não, os programas estão convalidados. Na consulta, iremos apurar mais detalhes e posicionamentos sobre temas que ninguém está tocando – como, por exemplo, a questão da Zona Franca de Manaus, ou da TV digital. Após essa consulta iremos gerar um relatório de gaps (lacunas) em políticas públicas na área de TICs. A previsão é de que o relatório fique pronto em maio.

Tele.Síntese – O que esse relatório irá mostrar?
Lima –
Ele vai apontar onde estão os gargalos e o que poderá ser feito. Haverá um conjunto de propostas de ações para até o ano de 2015.

Tele.Síntese – Essa estratégia estará presente no PPA? (Plano Plurianual de Ação, documento que orienta a elaboração do orçamento da União).
Lima –
Há duas maneiras para se lidar com PPA. Uma é se antecipar a ele e assegurar recursos próprios. Outra é identificar as ações que se desdobram em vários projetos de diferentes ministérios. Vamos poder trabalhar com o que está disponível no PPA, de maneira pulverizada, integrando os programas.

Tele.Síntese – Como você acha possível integrar essas ações visto que, só no caso da inclusão digital, por exemplo, quatro ministérios têm programas próprios?
Lima –
A pulverização de ações é uma realidade do Brasil, e não apenas desse governo. Nós nunca tivemos uma definição clara para um tema tão horizontal e tão transversal como são as TICs, sobre quem é que de fato as coordena. Há duas maneiras para conviver com isso: ou ficar resistindo ou respeitar que o Brasil é uma democracia. O importante é que as instâncias trabalhem em conjunto, como estão fazendo, e, se municiadas pelo setor produtivo, é possível respeitar a pulverização e se ter mecanismos racionais de integração.

Tele.Síntese – Como você vê o segmento de telecom dentro dessa estratégia, em particular as prestadoras de serviço?
Lima –
O governo brasileiro tem a promessa de conectar 154 mil escolas públicas no país em banda larga. Alguém fez conta e chegou à conclusão que isso requer investimentos de R$ 9 bilhões. Hoje, as operadoras de telecom estão se integrando nessa questão.

Tele.Síntese – Refiro-me à política industrial. Com a privatização das teles, a tecnologia nacional foi praticamente banida do mapa. Há alguma orientação para estimular a tecnologia nacional desse segmento, que já teve um papel importante no passado?
Lima –
Há um conjunto de visões e propostas da Abinee para estimular a produção nacional.

Tele.Síntese – Não me refiro à produção local. Essa existe. As empresas de telecom são as que mais usam os benefícios da lei de informática. Me refiro, mesmo, à tecnologia nacional.
Lima –
Contamos com a posição da Abinee. E, para se ter uma indústria mais forte, a questão dos componentes volta à tona. Há alguns gargalos muito claros no Brasil, onde se desonera o computador, mas não se desonera o componente, que gera alguns hiatos inexplicáveis.

Tele.Síntese – Os programas de estímulo às TICs, entendo eu, devem significar também incentivos fiscais. Com o fim da CPMF, essas questões não estariam congeladas?
Lima –
O presidente Lula já anunciou que a segunda fase da política industrial está sendo tocada. Claro que algumas desonerações ficaram muito mais difíceis. Uma realidade que não é das TICs, mas dos vários setores da economia. Hoje não temos certeza do que será possível. Mas temos certeza que outras medidas poderão ser adotadas, como o mecanismo de compras governamentais e aumento de investimentos sobre o PIB com enfoque no setor estratégico, como as TICs.

Tele.Síntese – Há alguma intenção efetiva de resgatar o poder de compra do governo para estimular o desenvolvimento das TICs brasileiras?
Lima –
O governo está estudando meios para isso.

Tele.Síntese – Qual é lugar do software livre nessa política?
Lima –
No lugar em que sempre esteve. Essa questão está mais desmistificada. O Brasil é fantástico em software livre. É a maior comunidade do planeta. O governo tem percebido que, independente de ser livre ou proprietário, o que interessa é a camada de serviços, o que se agrega nesses sistemas. O gasto do governo com licença de software ou seu investimento com o código aberto, exige uma qualificação. O software livre tem seu o lugar ao sol, mas não é suficiente para atender todas as demandas, há mercado para tudo.

Tele.Síntese – O governo diz ter feito uma opção pelo software livre, mas os sinais são desencontrados. Não há uma ordem unida, mesmo que razoável. Há instituições de governo, por exemplo, que ainda gastam milhões com licenças de Office.
Lima –
Há questões vinculadas à padronização, certificação, manutenção. O software livre é novo. Há um legado gigantesco, uma cultura proprietária para substituir. É um processo.

Tele.Síntese – Você acha que a TV digital vai estimular a industrialização no país?
Lima –
Entendo que a ótica da TV digital, sob o foco da produção e do desenvolvimento, não pode ser isolada. Acho que a discussão a respeito do setop box, se deve ser produzido aqui ou não, reflete todo o potencial da TV digital. A discussão não deveria estar nessa caixinha. Do ponto de vista do negócio existe um universo extraordinário, que se chama “conteúdo digital”.

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