Prates: a importância do espectro para a sociedade


Ainda há muita controvérsia sobre a real demanda por espectro dos serviços de telefonia celular, para a IMT. O crescimento da demanda de aplicações móveis não está em dúvida; a questão reside na real necessidade de tal aumento de espectro para essa aplicação, assim como as implicações que tem em outros serviços indispensáveis para a sociedade.

 

Presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Telecomunicações por Satélite- SindiSat . (foto: divulgação).
Presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Telecomunicações por Satélite- SindiSat . (foto: divulgação).

Por Luiz Otávio Prates

O espectro é um bem escasso e sua importância e gestão eficiente e responsável são indispensáveis para o desenvolvimento sustentável da sociedade da informação. Em novembro deste ano, será realizada em Genebra, Suíça, a Conferência Mundial de Radiocomunicação da UIT (União Internacional de Telecomunicações), ocasião em que, dentre os temas a serem debatidos, encontra-se, sem dúvida, o de mais espectro para a banda larga móvel, bandeira atual do setor de serviços móveis. O que mais se ouve, no momento, por parte da indústria móvel, é a necessidade de espectro adicional, com valores que se situam atualmente no entorno de 1,3 a 2,0 GHz (em grandes números) para o ano 2020.

Nesse contexto de identificação de novas faixas de frequência para o IMT (International Mobile Telecommunications), representantes desse setor  voltam suas investidas junto às Administrações de todo o mundo, pleiteando muitas vezes faixas de frequências já em uso por outras tecnologias. Caso as discussões se revestissem de aspectos verdadeiramente factuais, queremos crer que os resultados seriam, com certeza, mais claros e imediatos. Mas razões e justificativas apresentadas pelas partes interessadas muitas vezes menosprezam tanto os aspectos técnicos quanto os estratégicos envolvidos. Esses aspectos dizem respeito não só à incompatibilidade do IMT com serviços existentes e indispensáveis para a sociedade, muitas vezes com danos explícitos, mas também com a real demanda por mais espectro, tema de enorme controvérsia no mundo das telecomunicações. Cabe dizer que o crescimento da demanda de aplicações móveis não está em dúvida; a questão reside na real necessidade de tal aumento de espectro para essa aplicação, assim como as implicações que tem em outros serviços indispensáveis para a sociedade.

Este é definitivamente o caso das investidas do IMT sobre faixas estratégicas da tecnologia satélite. Neste contexto, cabe reiterar algo que ainda é tema de muita controvérsia nos meios internacionais: a real demanda por mais espectro para o IMT, serviço ao qual já foram atribuídas novas faixas de frequências que ainda não foram plenamente utilizadas. O SINDISAT, sindicato patronal das empresas de telecomunicações por satélite, teve a oportunidade de trazer ao conhecimento das autoridades brasileiras teses de especialistas internacionais que estudam o tema de forma independente e que mostraram o quão exageradas estão essas demandas. E a questão não está nos modelos desenvolvidos pela UIT, mas nas densidades de tráfego (que geram os requisitos de demanda) que foram dramaticamente superestimados, da ordem de mais de 200 vezes.

Como ilustra a figura a seguir, as previsões são de tal ordem exageradas que até as previsões de tráfego rural excedem os valores de tráfego em áreas urbanas (notar a escala logarítmica), resultando em valores superestimados e em projeções de demandas por espectro adicional que não podem ser usados.

Monthly data traffic per square km measured
Tráfego de dados por km² (em Petabytes) Fonte: LS Telcom

Outra questão é o uso indiscriminado dessas projeções para qualquer região e/ou país, desprezando as características regionais, quando é evidente que esta demanda poder variar muito entre países ou regiões e outros aspectos. No caso do Brasil, tal situação fica ainda mais explícita na figura a seguir, onde se procura mostrar as grandes diferenças entre a densidade de população rural e urbana no Brasil e a utilizada para os requisitos de demanda.

Comparação entre projeções de dados de UMTS Forum, Cisco e ITU IMT
Comparação entre projeções de dados de UMTS Forum, Cisco e ITU IMT (Fonte: LS Telecom)

Definitivamente, acreditamos ficar clara a conclusão de que os dados de entrada para os modelos de projeção devem receber uma análise crítica antes de servirem de subsídio para as decisões que serão tomadas durante a Conferência Mundial da UIT.

Quando analisamos a utilização da tecnologia satélite na Região 2 (região das Américas) e, em particular no Brasil, essas tentativas de uso de espectro atualmente atribuídas e utilizadas por essa tecnologia, dentre elas, as afirmações de que existe forte expectativa de identificação da faixa de 3400-3800 MHz para uso pelo IMT, todo esse cenário de discussões se mostra irreal e pode influenciar decisões das quais poderemos nos arrepender pelo prejuízo potencial a outros serviços indispensáveis.

No lado técnico, a incompatibilidade entre o serviço fixo por satélite e o IMT na mesma faixa de frequências já foi demostrada na UIT, primeiro na CMR-07 e agora com os estudos realizados na UIT para a próxima CMR, onde as distâncias necessárias para proteger as estações terrenas da interferência dos terminais de IMT são de dezenas e centenas de quilômetros. Além disso, a compatibilidade na faixa adjacente tampouco está garantida.

Neste sentido, o setor das telecomunicações por satélites também vem demonstrando, há tempos, através de estudos teóricos e em campo, o enorme potencial de interferência que atinge a faixa de banda C por serviços IMT em faixas adjacentes, como a de 3,5 GHz. Estes estudos comprovam um resultado devastador para o serviço satélite, sendo a principal razão para isso a enorme diferença (de mais de 100 dB!, 10 mil milhões de vezes mais) dos níveis de recepção de satélite em relação aos níveis de transmissão de uma Estação Rádio Base do serviço móvel.

No lado comercial-estratégico, cabe lembrar a importância da tecnologia satélite para a região das Américas, em particular para o Brasil. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), existiam cerca de 65 milhões de domicílios no Brasil em 2013, e segundo o relatório de 2015 da Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República), 23% dos domicílios brasileiros possuem recepção de TV por antena parabólica, resultando valores da ordem de mais de 15 milhões de parabólicas, atendendo a cerca de 60 milhões de brasileiros (4 indivíduos por família), sendo essa forma de recepção muitas vezes a única forma de integração ao resto do país, fato que por si só expressa a relevante participação da banda C no contexto social brasileiro. Outras estimativas ainda maiores existem, segundo outras fontes não menos confiáveis, mas preferimos utilizar os mais modestos.

A banda C, vale dizer, é também a mais usada para a contribuição de canais de vídeo para as operações de cabo e para a interiorização dos canais das afiliadas das principais emissoras de televisão no Brasil. São milhões de lares que recebem TV paga por cabo, mas cujos head-ends recebem o sinal através de antenas de banda C. E não é só isso. A esses dados, juntam-se a inúmeras redes VSATs em banda C que, por sua imunidade à precipitação de chuva, é a banda muitas vezes exigida para fins de confiabilidade de redes corporativas, aplicações para backhaul para as próprias redes móveis também com aspectos críticos de disponibilidade, redes de controle e muitos outros exemplos, como bem ilustra a figura abaixo.

c-band

Cabe reiterar, por oportuno, que a indústria de satélites continua investindo em satélites em banda C, com investimentos de bilhões de reais (recentemente a Anatel licitou posições orbitais em banda C no País, com direitos de uso por pelo menos 15 anos, renováveis por mais 15) e vários destes satélites já estão em construção.

O setor tem, assim, inteira confiança que as autoridades brasileiras estão cientes destes aspectos e dos potenciais conflitos e prejuízos que uma mudança pode ocasionar no mercado e para os consumidores. Isso já se manifesta, de forma inequívoca, quando se leva em consideração decisões em debate pela Administração Brasileira (algumas já tomadas) no sentido de destinar a faixa de 3,4 a 3,6 GHz ao IMT, preservando intocável a faixa de 3,6 a 4,2 GHz à tecnologia satélite, enquanto busca formas de harmonizar a prestação de serviços nessas duas faixas adjacentes pela determinação de requisitos de potência na banda de uso terrestre. Por outro lado, cabe enfatizar a preocupação do setor quanto ao potencial de interferência já referido e a solicitação de um maior comprometimento das autoridades brasileiras a esse tema.

Luiz Otávio Prates é presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Comunicação por Satélite 

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