Na TIM, 5G é resultado de iniciativas de inovação aberta


Mergulho da companhia no mercado do agronegócio, lançamento de produtos financeiros, inclusão de aplicativos em planos móveis, redução de custos. A a inovação aberta não para de render frutos para a TIM, conta o responsável pela área, Janilson Bezerra, ao Tele.Síntese.

Janilson Bezerra Junior, head de inovação da TIM (foto: divulgação)

Há quatro anos adepta do conceito de inovação aberta, a TIM vem colhendo cada vez mais resultados desse modo de encarar os negócios. A operadora criou uma área em 2016 dedicada a fazer o contato com empresas inovadoras nascentes, as startups. O projeto começou pequeno, com a entrada da tele no Cubo, espaço de São Paulo que reúne 300 empresas.

Hoje, a companhia se relacionada com sete espaços de inovação, entre hubs de startups e núcleos acadêmicos de P&D, articulando um ecossistema com algumas centenas de empresas e pesquisadores. Esse ecossistema foi responsável, por exemplo, pelos testes da 5G feitos pela companhia ao longo de 2019 – e cujo resultado será o lançamento comercial em setembro. Pelo mergulho da companhia no mercado do agrobusiness, com meta de cobrir a zona rural com tecnologia móvel. E pela parceria com a fintech C6 Bank, para oferta de produtos bancários.

A inovação aberta (conceito surgido nos Estados Unidos, e que por isso é muito chamada por aqui pela expressão em inglês open innovation) foi responsável também por redução de gastos, novos produtos adicionados aos planos dos clientes móveis, e transformações em processos.

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A implantação do modelo, no entanto, exigiu – e ainda exige – esforço. Já de cara a empresa percebeu que se quisesse negociar com startups, teria de rever regras internas de contratação de empresas. “Tínhamos um modelo de compra que exigia balanço dos três anos anteriores, regras de crivo que acabavam sendo proibitivas. Então a gente percebeu que era necessário modernizar nossas políticas”, lembra Janilson Bezerra Junior (foto), responsável pela área de inovação e desenvolvimento de negócios da companhia.

Além de mexer nos processos, é necessário mudar o comportamento dos funcionários para estejam sempre dispostos a sair da zona de conforto. Os executivos da tele passam, periodicamente, por imersões no Cubo a fim de transformar seu “mindset” (modo de pensar), facilitando a transformação cultural que precisa acontecer em uma empresa como a TIM, de alcance nacional e com 9.588 funcionários. Veja, abaixo, a entrevista que fizemos por telefone com Bezerra sobre o assunto.

Tele.Síntese – Quantos anos tem a iniciativa de Inovação Aberta da TIM?
Janilson Bezerra Junior, head de novos negócios e inovação da TIM – Tem quatro anos.

Quais as principais conquistas no período, principalmente no último ano?
Bezerra – A gente começou a parceria com o Cubo em São Paulo. Nesse tempo aprendemos que o Brasil tem um ecossistema de startups extremamente rico. São empresas que tem promovido inovações de diversas formas, tecnológicas e de modelo de negócio. A gente aprendeu que essas interações poderiam ser muito úteis no dia a dia da nossa organização, e também na nossa estratégia de negócio.

Mas a gente começou a encontrar no começou alguns obstáculos. Por exemplo, uma empresa como a nossa não estava preparada para se relacionar com startups. Tínhamos um modelo de compra que exigia balanço da empresa nos três anos anteriores, regras de crivo que acabavam sendo proibitivas. Então a gente percebeu que era necessário modernizar nossas políticas para melhorar essa relação.

E assim a gente foi fazendo. Fomos modernizando políticas a fim de permitir, ano após ano, contato mais intenso com as startups.

A gente percebeu também que o ecossistema no Brasil é mais rico quando a gente fala de inovação. É mais rico do que só a startup. Tem um polo de empreendedorismo que toca muito a Academia em geral. E que também poderia ser muito bem explorado por uma empresa como a nossa, principalmente no que diz respeito a novas tecnologias.

Então, nos últimos quatro anos, começamos o contato com startups, e há três começamos a abrir para empresas de tecnologia e inovação de forma mais ampla. Nos aproximamos da Embrapa, por exemplo. Na Academia, começamos a selecionar uma série de parceiros espalhados pelo Brasil com foco em empreendedorismo, mas também muitos bem estruturados e com tecnologia de ponta. E nisso nasceu parcerias com a PUC-RJ, com o Inatel em Minas Gerais, com a Fundação Certi em Florianópolis, com o Instituto Virtus em Campina Grande. E isso vem evoluindo.

No período fizemos várias provas de conceito com startups. Abrimos novas fronteiras de negócio para a TIM. Por exemplo, com a Embrapa: essa relação acabou funcionando como embrião da iniciativa TIM 4G no Campo, que é como uma empresa como a TIM poderia promover a conectividade no campo e ajudar assim a fomentar novas empresas. Dessa relação, começamos a criar o modelo que foi estruturado dentro de um programa de cooperação para o desenvolvimento da cobertura móvel no Brasil, que envolve, entre outras coisas, empresas de tecnologia de ponta e startups.

Começamos a falar de ecossistemas de negócio que não eram tão próximos de telecomunicações. Um deles é o de saúde.Janilson Bezerra, head de inovação da TIM Brasil

Em resumo, o programa de Inovação Aberta modificou a política de compras e abriu novas frentes de atuação?
Bezerra – É. Na verdade, a gente usa o programa para três grandes objetivos. Um, para promover a inovação para a eficiência da TIM, com a TIM absorvendo novos processos e soluções, o que envolve renovação do parque de fornecedores. Dois, o programa também funciona para que de forma estruturada a gente promova inovações de negócio, a gente começa a identificar empresas e soluções que podem fazer parte do portfólio de produtos para oferecermos serviços diferenciados para o cliente. E três, é a inovação para novos mercados, ou pelo menos mercados que para a TIM são novos. É o caso do agronegócio, em que acabou se abrindo uma nova fronteira para a organização. Outro exemplo dessa frente são os serviços financeiros, parceria com o banco digital C6, abrindo também novas fronteiras em negócio para a TIM Brasil.

Se vocês não tivessem começado a olhar a Inovação Aberta quatro anos atrás, não teriam essas novas frentes de negócio hoje? A capacidade de enxergar novos negócios seria prejudicada?
Bezerra – Essa é uma pergunta difícil de responder, pois é um cenário hipotético. O que posso dizer é o que agregou. E essa relação nos ajudou a preparar a empresa para a cultura digital. Fazemos imersões recorrentes no Cubo que ajudam nossos executivos, gestores, colaboradores diretos a entender de fato o que é a transformação digital no dia a dia. Perceber como essa inovação pode influenciar um processo de uma área de staff dentro da empresa. Como um processo de RH pode ser mais ágil, um processo jurídico pode ser mais dinâmico, um processo de compliance pode ter novas ferramentas de gestão. São exemplos de como a aproximação com esse mundo nos ajudou a repensar nossa cultura e mindset de empresa.

Tudo ficou mais rápido? A empresa ficou mais eficiente?
Bezerra – A inovação acaba sendo um drive de velocidade, de tempo de resposta.

E no último ano, em especial de janeiro para cá. Tem aí a pandemia. A Inovação Aberta teve impacto? Ajudou acelerar a digitalização?
Bezerra – O ano de 2019 foi muito ímpar para o Open Innovation aqui. Até porque deixamos de ser um espaço de prospecção de oportunidades, para ser também um espaço de fomento de uma nova onda tecnológica no Brasil. A gente usou esses parceiros tecnológicos para construir uma visão potencial do que o 5G pode trazer. A gente fez uma série de imersões junto à Fundação Certi, à Universidade Federal de Santa Catarina, para mostrar o potencial da tecnologia, entender como a 5G poderia influenciar a dinâmica das cidades inteligentes. A gente fez em Santa Rita do Sapucaí uma casa conceito combinando mais de 20 parceiros para mostrar o poder da telemedicina, antecipando de certa forma o momento atual, demonstramos o poder que a 5G poderia proporcionar para ensino a distância, para segurança pública, para robótica, permitir o convívio de robôs e pessoas numa mesma linha de produção.

Então acabou sendo um ano ímpar para mostrar o potencial de combinação de uma empresa que vende tecnologia como a nossa, que acaba sendo driver dessas revoluções digitais, como o 4G acelerou o mobile, o 5G vai mudar nossa realidade por combinar tecnologias imersivas à IoT. Então acabou sendo muito útil para mostrar esse potencial, como a nova tecnologia pode abrir espaços, novos modelos de negócios.

Ficou mais complexo fazer a gestão dos fornecedores em “ecossistema”?
Bezerra – Tem uma característica importante do processo que é a forma como se produz a inovação. No modelo tradicional, o produto era desenvolvido, pensado, tanto do ponto de vista de marketing como de P&D, por uma única organização. Hoje a gente percebe que não dá para ser mais assim. Tem até espaço para alguma coisa de inovação fechada em áreas específicas. Mas quando se fala em mundo digital, a inovação tem que ser mais colaborativa. Então não é uma empresa que vai emplacar uma solução. É a interação, a troca com diferentes atores para a construção de um ecossistema.

A gente fala muito mais, neste ambiente, de ecossistema, do que de produtos e soluções apenas. Quando a gente fala da 5G, não é apenas conectividade. É uma plataforma para desenvolver diferentes soluções em diferentes verticais de negócio, com diferentes propósitos, que vão desde um carro autônomo até um robô realizando cirurgia dentro de um centro cirúrgico. A relação deixa de ser um pra um, de uma empresa comprando, e outra fornecendo.  Tem que engajar um ecossistema, com empresas de tecnologia com diferentes modelos de negócio e diferentes formas de fazer e induzir a inovação.

E qual o papel da TIM nesse ecossistema?
Bezerra – A TIM se coloca, sem dúvida, como uma grande habilitadora, como uma grande plataforma de negócios para esses novos ecossistemas.

E de janeiro até agora, qual o impacto da Covid-19 na iniciativa?
Bezerra – A gente evoluiu em parcerias. Com o banco C6, por um exemplo. Começamos a habilitar e entender novas formas de gerar valor para o cliente. Começamos a falar de ecossistemas de negócio que não eram tão próximos de telecomunicações. Um deles é o de saúde. Hoje a TIM tem entre seus parceiros de inovação a Rede D’OR [rede hospitalar do Rio de Janeiro], com foco na promoção de tecnologias móveis para dar respostas à saúde. E isso vinha de dois anos, antes da pandemia. Fazia parte do conceito de que a 5G vai ter soluções para a saúde.

A Inovação Aberta resultou em quais produtos que foram incorporados às ofertas da TIM?
Bezerra – Olha, tivemos um monte. Por exemplo, quando falamos do agronegócio, temos uma grande agritech participando do modelo, a Solinftec. Teve a FS que participou do projeto de granja. Isso ajudou a promover novo ecossistema de negócio. Hoje, por exemplo, temos parceria forte com a AgTech, em Piracicaba (SP). Tivemos um exemplo de uma startup de vídeo que entrou para o portfólio, que é a Looke. O C6 é outro exemplo de agora, de como a gente consegue transformar ideias em produtos.

Essas iniciativas já estão gerando receita para a TIM?
Bezerra –
Sim. Lembro das três dimensões: eficiência, que através da parceria obtemos soluções que reduzem nosso custo; as inovações de negócio, que ajudam a vender mais soluções; e a abertura de novos mercados. Então tanto a Looke quanto a Solinftec nos ajudam na venda de produtos e soluções. A Solinftec nos ajuda a vender o TIM 4G no Campo. A Looke nos ajuda a vender nossos planos e serviços, por exemplo. Para eficiência, a gente teve parcerias relevantes. Teve uma do nosso jurídico com uma empresa do Cubo, chamada MOL – Mediação Online, que nos ajuda em nossos processos. Tem a parceria com a Pipefy, que nos ajuda em nossos processos internos. A gente não costuma falar dessas startups para não deixar ninguém de fora. São muitas. Acaba sendo injusto.

Em breve, haverá novidades sobre parcerias da empresa para se aproximar de forma mais estruturada do mundo de inteligência artificial. A gente vai querer estar mais próximo de centros de competência com esse foco.Janilson Bezerra Junior

Qual é o tamanho hoje do programa de Open Innovation?
Bezerra – A gente costuma medir o programa pelos espaços de inovação. Estamos presentes em São Paulo, através do Cubo. Em Piracicaba, através da parceria com a AgTech. No Rio de Janeiro, em parceria com o Open D’OR no OpenLab, com foco em saúde. Temos parceria com foco em 5G no Inatel, em Santa Rita do Sapucaí (MG). Tem a parceria com a PUC-RJ. Tem em Campina Grande, com o Virtus, para promoção do 5G e de solução de mobile edge computing. Tem a parceria com a Fundação Certi em Florianópolis (SC). Cada um desses espaços tem empresas e startups. O Cubo tem mais de 300 startups sediadas ali dentro. Se você vai para a AgTech, são mais de 100 startups voltadas para o agronegócio. Vai para o OpenLab do OpenD’Or, tem cerca de 15 startups. Cada espaço tem uma quantidade de empresas que acabam gerando algum tipo de troca com a TIM.

Como isso é articulado com a TIM?
Bezerra – A gente trabalha muito perto das áreas de negócio. O nosso papel dentro da TIM é de criar ferramentas de inovação de negócio para a organização. Uma vez que as ferramentas são habilitadas, todas as áreas passam a ter acesso a essas ferramentas e conseguem desenvolver os seus produtos ou resolver as suas dores. Então os problemas do Jurídico não são definidos pelo time de inovação. Quem entende os problemas é a área do Jurídico. A mesma coisa vale para o RH, para o Marketing, outras áreas dentro da empresa. O que fazemos como área de Inovação, principalmente relacionado à eficiência, é promover a aproximação para que nossas dores possam encontrar empresas que venham a solucioná-las. Mas quem conduz um processo de seleção de empresa para o Jurídico é o Jurídico, para o RH é o próprio RH. Com isso quero dizer que nosso processo não é apartado, mas é dentro da organização. O nosso grande desafio é trazer essas ferramentas.

Qual o tamanho da redução do custo que a adoção de ferramentas trouxe em P&D, por exemplo?
Bezerra – Isso a gente não abre. Mas é o propósito principal, facilitar o processo de desenvolvimento. Imagina a casa lá de Santa Rita do Sapucaí, que teve diversas tecnologias. Imagina a TIM desenvolvendo soluções de saúde. A TIM não tem nenhum funcionário de pesquisa em saúde, e tem pouco contato com o mercado de medicina brasileiro. Uma solução como daquela proposta, de ultrassom remoto, envolve a coordenação de diferentes conhecimentos e diferentes empresas, e dificilmente faríamos sozinhos. Imagina o custo para a TIM de investir em profissionais especializados e depois em um processo de scouting para chegar em fornecedores e, ao final de uma longa jornada, em um protótipo de ultrassom remoto para telemedicina. Seria quase inviável. Então, quando a gente promove uma lógica de inovação aberta, onde a gente traz diferentes atores para interagir sobre um mesmo propósito, mostrando qual o diferencial a tecnologia que a gente advoga pode ter, aí está a beleza da inovação aberta. Todos pensando de forma articulada para encontrar soluções.

Qual será o próximo passo da Open Innovation dentro da TIM?
Bezerra – Nesse processo a gente veio construindo diferentes visões. Identificamos oportunidade no agronegócio. A gente tem parcerias muito bem estruturadas no modelo de multibusiness com o Cubo, que nos atende muito bem no que diz respeito a soluções para nossas dores dentro da empresa, soluções corporativas. A gente evoluiu em parcerias com a Open D’Or, e em breve, haverá novidades sobre parcerias da empresa para se aproximar de forma mais estruturada do mundo de inteligência artificial. A gente vai querer estar mais próximo de centros de competência com esse foco.

Há intenção em trabalhar como venture capitalist?
Bezerra – Não. A gente tem uma fortaleza nos nossos ativos: uma base de clientes  bem consolidada, uma presença nacional, uma força comercial muito forte. Isso por si só já tem um valor inestimável para o ecossistema. Não é mais dinheiro em si que vai mover esse desenvolvimento. Esses ativos aqui acabam sendo mais relevantes do que um aporte direto.

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