Mobilidade, banda larga e vídeo: tripé do crescimento em 2011.


 

Ao contrário de 2009, quando traçar um cenário era uma missão quase impossível, as tendências hoje são muito claras no setor de telecom, na avaliação de Rodrigo Abreu, presidente da Cisco do Brasil. Depois de um ano muito bom para o setor em 2010, quando os investimentos foram retomados, 2011 promete ser ainda melhor. “As operadoras fizeram o planejamento para 2011 com a perspectiva de crescimento do país”, diz o executivo, que aponta como tendências para este ano crescimento em três frentes: mobilidade, banda larga e vídeo. Neste último, Abreu aposta numa expansão do mercado, com a entrada de novos players, um número grande de novas licenças para TVs por assinatura e expansão geográfica, num cenário que permitirá ao setor crescer duas a três vezes.

Tele.Síntese – Quais as tendências tecnológicas que vão marcar 2011, nas diferentes áreas, tanto de infraestrutura quanto de equipamentos de acesso e aparelhos?
Rodrigo Abreu – Em 2010 houve uma retomada da aceleração, depois de um ano complicado, que foi 2009. Muita gente não sabia o que esperar de 2010, e o ano se mostrou muito positivo em todos os sentidos, desde o crescimento de infraestrutura até a adoção de novos aparelhos, crescimento da base de usuários e de aplicações. Em telecom, havia uma demanda represada por várias razões. Uma delas é que entre a segunda metade de 2009 até o início de 2010, embora a economia tenha se recuperado, as operadoras demoraram um pouco mais. Elas tinham feito um planejamento para 2009 no auge da crise de 2008, então, muitas estavam com projetos que não andaram, atenderam a demanda com o que tinham, fizeram adaptações de projetos e se prepararam para fazer projetos melhores para 2010. Por isso, para a indústria, algumas áreas como banda larga, mobilidade, dados e vídeo acabaram tendo em 2010 uma retomada muito significativa.

Tele.Síntese – Para 2011, o mercado continua nesse ritmo?
Rodrigo Abreu – Para 2011, a diferença é que já entra em um planejamento que já não foi feito sob crise, com perspectiva de crescimento do país. Em relação a tendências (infra, acesso, etc.), eu continuo com a visão de um tripé de crescimento para o setor baseado em três coisas, duas muito próximas e uma terceira com um pouco mais de identidade própria. As duas muito próximas são mobilidade e banda larga, áreas que sustentaram o setor em 2009/2010, continuam a crescer. Em banda larga, em mobilidade, vai ter crescimento maior que no ano passado, quando a gente viveu uma situação técnica nas redes, com algumas dificuldades para acompanhar a demanda, que foi acima do esperado. Hoje praticamente todas as operadoras viram a necessidade de apostar em banda larga como uma possibilidade de crescimento e o usuário passou a ter mais opções. No caso da banda larga móvel, o mercado estava restrito à conexão 3G. Agora, começam a surgir outras alternativas reais com a entrada de tablets e alguns PDAs que já conseguem ter uma utilização muito melhor da banda larga. O telefone 3G em si tem acesso a alguns recursos mas não tem um consumo comparado ao de tablets. Neste caso, o consumo de dados é muito maior que no telefone.

A terceira tendência é vídeo, tanto no segmento doméstico, pessoal quanto no corporativo; mas começa pelo consumidor, o que na Cisco chamamos de Service Provider Video. É o vídeo que vem das operadoras, sejam elas de TV por assinatura, sejam tradicionais. Hoje, o mercado de vídeo não é mais um mercado de dois ou três players – antes tinha Net, TVA, Sky e uma ou outra operadora de cabo. Esse mercado se expandiu muito, com a entrada do DTH, com a expansão das redes de cabo e a chegada da infraestrutura híbrida de fibra e coaxial das fixas.

No passado, era mais complicado ter uma estrutura para a oferta de vídeo e isso mudou com a introdução mais pesada de combos de pacotes de triple play e com os investimentos das operadoras do DTH. Do ponto de vista de configuração do setor, eram poucas as operadoras com capacidade de investimento – no começo da década passada tanto a Net quanto a TVA tiveram dificuldades de investimento, de sustentação, o que foi corrigido ao longo do tempo e essas empresas, agora, têm capacidade de investir. Outro fato importante é a macroeconomia. Nos últimos quatro, cinco anos, tivemos um boom de consumo que foi muito favorável a vídeo. Neste segmento, em entretenimento, tivemos uma França nova no país, foram quase 40 milhões de pessoas em cinco anos – que, antes não consumiam vídeo e hoje, não digo os 40 milhões, mas uma grande parcela tem potencial de consumo de TV por assinatura. Basta olhar o número de assinantes de TV paga, são cerca de 10 milhões para uma população de classe média muito maior; esta penetração, mesmo para um país que não é considerado muito desenvolvido, é muito baixa. Então, há um espaço para que esse mercado de vídeo cresça duas a três vezes. Some-se a isso a abertura no mercado de TV a cabo por meio do  PL 29 (atual PLC 116/2010) e de decisões regulatórias, que motivarão a entrada de novos players. A gente espera, para este ano, um número de licenças novas de TV por assinatura muito grande, com expansão geográfica, mercados que hoje não têm oferta.

Tele.Síntese – As operadoras já estão preparadas para esse aumento de consumo de dados que deve ocorrer tanto com a entrada dos tablets quanto do aumento do consumo de vídeo?
Rodrigo Abreu – Todas elas estão começando a se preparar de maneira séria, com investimentos na área de mobilidade, preparação de core, aumento da capacidade de dados. Um exemplo disso é que, no ano passado, pelo menos duas operadoras (Claro e Vivo) começaram a desenvolver projeto para que toda a rede de acesso tenha capacidade de conexão em IP, o que é fundamental para a banda larga, para o acesso 3G e 4G. Portanto, essa deficiência no acesso passa a ser compensada com investimentos na criação de redes IP e em redes sem-fio também. Essa tem sido, talvez, a principal limitação para o crescimento de tráfego dos usuários 3G e 4G. Tem operadoras já fazendo implementação, outras em processos de licitação do backhaul IP.

Tele.Síntese – Consultorias como Gartner e Deloitte estão prevendo que este deve ser o ano da virada, com início da queda nas vendas de computadores, que perderão lugar para dispositivos como tablets. Você acredita que essa tendência vale também para o Brasil?
Rodrigo Abreu – Eu acho que no Brasil essa mudança vai demorar um pouco mais em função do custo de introdução do tablet no país. Hoje, na comparação entre custo de tablet e de notebook, os do tablet ainda são mais altos. Esse é um gap que ainda vai ser coberto ao longo do tempo. A escala e o volume para se ter fabricação local de tablet é algo que ainda está incerto, não teremos isso no curto prazo, enquanto, no caso do micro, já existe uma massa crítica forte. O que,  talvez, possa acontecer é que o próprio advento do tablet e queda de preço do notebook vão fazer com que o netbook fique espremido no meio do caminho. Então, eu acredito que ainda teremos crescimento de notebook este ano e tablet, em uma camada específica, vai crescer bastante, mas sua popularização e preços baixos, só no próximo ano. É uma questão basicamente de preço. Hoje quem não tem tablet e notebook não vai partir para o tablet, a primeira aquisição tende a ser de notebook. Mas, para frente teremos o efeito substituição.

Tele.Síntese – Como você está vendo a conjuntura atual e o novo governo. Acha que a gestão Dilma Rousseff pode imprimir novo ritmo ao setor, uma vez que ela já declarou que a banda larga é uma prioridade e o Minicom ganhou mais peso no governo?
Rodrigo Abreu – A grande virtude do que aconteceu no governo passado é que o setor entrou na agenda – bem ou mal, de maneira mais ou menos efetiva são questões a responder – mas, efetivamente, o tema tecnologia, banda larga, entrou na agenda e isso por si só foi muito bom. É uma questão de trabalhar e ter interação entre o setor público e o privado para orientar esse crescimento, esse bom momento político e fazer com que as coisas corretas aconteçam.

Eu acredito, e o mercado todo acredita, que banda larga é fundamental para o país. Fora isso, há a vantagem de que temos uma continuidade de visão, portanto, não haverá uma ruptura, normal quando se tem uma troca de governo. E ter uma continuidade de projetos por si só, é bom. Nesse sentido a banda larga é realidade. Eu entendo que o Minicom ganhou mais peso, e o ministro Paulo Bernardo é uma pessoa que tem peso no governo, tem diálogo com a Casa Civil e com a presidente e, de alguma maneira, pode fazer com que o setor alavanque algumas coisas mais rapidamente. Inegavelmente, no final do governo passado, teve um pouco de isolamento ou fragmentação de ações, incluindo ministério, mais Casa Civil, os que cuidavam de banda larga. Eu espero que essa fragmentação diminua bastante e que haja mais consistência. Agora, isso não significa que esteja tudo resolvido e que todas as direções estejam precisas e bem definidas, tem ainda muita coisa para discutir.

Tele.Síntese – Por exemplo?
Rodrigo Abreu – Eu sempre digo que banda larga é o primeiro passo. Banda larga é uma questão de infraestrutura e de demanda e dar os instrumentos para que o país possa se desenvolver mais rapidamente, mas ainda tem muito o que fazer do lado da demanda também. A banda larga faz com que os setores privado e a população se desenvolvam bastante. Mas o próprio setor público tem que ganhar mais atenção para o uso de tecnologia que vem com a banda larga. A automação de processos do poder público, o aumento do uso de sistemas de TI nas várias áreas de governo, aumento da importância dada a TI e sistemas, tudo isso é necessário para continuarmos crescendo.

Tele.Síntese – Como você vê a entrada das MVNOs? Esse novo segmento mexe com o atual cenário no Brasil?
Rodrigo Abreu – Traz um novo cenário, mas acredito que aqui tem mais incógnita que respostas, porque MVNO está ligado a uma característica de marca muito forte, de você aproveitar canais de distribuição muito estabelecidos, massificados, para aproveitar a ociosidade de infraestrutura. Isso acontece quando olhamos para marcas como Virgin (Reino Unido) muito bem sucedida em MVNO. Aqui, temos características um pouco diferentes. Ainda há uma deficiência em infraestrutura e é preciso, de um lado, fazer mais implantação de infraestrutura real e não só virtual e, de outro, talvez, não existam características tão fortes e predominantes de branding. Obviamente que nichos sempre vão existir, mas tendo a acreditar que as MVNOs vão ter espaço, porém, mais limitado que no mercado americano ou no europeu.

Tele.Síntese – Como foi 2010 para a Cisco Brasil. Em maio do ano passado você anunciou que a unidade brasileira tinha sido, pelo segundo trimestre consecutivo, a que mais cresceu percentualmente, com um aumento, aquela época, de 80% no faturamento, na comparação com igual período de 2009.
Rodrigo Abreu – De fato, o Brasil foi o maior crescimento e eu pude comentar isso porque nas conferências de resultado corporativo da empresa o Brasil foi mencionado. Felizmente, na segunda metade do ano passado, isso continuou acontecendo, e o Brasil novamente teve um fechamento muito bom no ano de fiscal 2010 (encerrado em julho) e continuou a ter resultados muito positivos no primeiro trimestre de 2011 (em outubro). Quanto ao trimestre que estamos fechando agora em janeiro eu não posso dar muita informação, mas o ritmo até o final do ano passado, foi bom. No primeiro trimestre fiscal da Cisco em 2011, o Brasil foi novamente uma das operações que mais cresceram no mundo, com um ritmo de crescimento de mais de 70% em relação ao ano anterior.

Tele.Síntese – O que puxou esse crescimento, o segmento de operadoras ou o mercado corporativo?
Rodrigo Abreu – Foi um ano muito equilibrado entre o crescimento das operadoras – a própria aposta em vídeo, mobilidade e banda larga já começou acontecer no ano passado –; o crescimento do mercado de pequenas e médias empresas, no qual voltamos a crescer de maneira mais forte; a continuidade da aposta em setor público, neste segmento também foi um ano muito favorável e, finalmente, o mercado empresarial, que sempre foi o carro-chefe da Cisco globalmente, respondeu muito bem. Tivemos um crescimento muito significativo do país, volta do investimento estrangeiro, demanda, foi um ano muito equilibrado.

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