Mercado de cabos: presente estagnado, futuro incerto.


Quanto mais alto o salto, maior a queda. A máxima nunca foi tão verdadeira como para o mercado de fios e cabos, no segmento de telecomunicações. Depois de viver um boom descomunal (e ilusório, diga-se de passagem) no período pós-privatizações, especialmente entre 1999 e 2001, até hoje o setor tenta se reerguer do tombo. E …

Quanto mais alto o salto, maior a queda. A máxima nunca foi tão verdadeira como para o mercado de fios e cabos, no segmento de telecomunicações. Depois de viver um boom descomunal (e ilusório, diga-se de passagem) no período pós-privatizações, especialmente entre 1999 e 2001, até hoje o setor tenta se reerguer do tombo. E sem bases firmes de sustentação. “Tivemos uma época em que o Brasil era o único país onde estavam presentes todas as principais empresas do mundo neste negócio”, comenta Armando Comparato Junior, presidente da Prysmian, ex-Pirelli Cabos, um dos três principais players atualmente por aqui (os outros são Furukawa e Telcon).

O pico desse negócio foi no primeiro semestre de 2001, quando o mercado de cabos ópticos atingiu 3 milhões de quilômetros por ano. Em 2006, se muito, ficará nos 300 mil km, mais provável que seja 250 mil. No caso do cabo metálico, o auge foi de 10 milhões de km por ano, contra os atuais 3 milhões.   

“Gostaria de dizer que está melhor, mas este não é o caso”, lamenta Comparato. Na Prysmian, os cabos telecom representam aproximadamente 15% das vendas no Brasil (no mundo o número cai para 10%). Já chegou a 35%.  “Basicamente, temos demanda para manutenção e reposição”, diz Comparato.  O destaque, na empresa, fica por conta do setor de energia com mais de 80% das vendas.

Ociosidade

No boom da privatização (e as metas de universalização), a demanda foi tão grande que houve necessidade até mesmo de importação do produto. Mesmo quando esta demanda foi atendida, muitos contratos de importação tiveram que ser cumpridos até o final – o que ocasionou o abarrotamento dos estoques das operadoras – muitos deles duram até hoje. Hoje, as fábricas no país produzem, no máximo, 40% do que poderiam.  

Desta forma, as três grandes concessionárias no país praticamente não compram. A exceção é a Embratel, que necessita de rede para clientes corporativos – mesmo assim, em quantidades “modestas”.   Até a esperada expansão da banda larga não é vista com otimismo pelo setor. “ O ADSL cresce usando as redes existentes – ainda há muito espaço a ser ocupado aí”, destaca Comparato.

Prioridades
“Vivemos um momento de estabilidade, com alguns espasmos”, define Foad Shaikhzadeh, presidente da Furukawa.  Para ele, a situação tornou-se mais difícil com a “gestão concentrada” em vigor atualmente nas grande telcos. Com isso os investimentos são cada vez mais sazonais e as redes são, na visão do executivo, “a última das prioridades”. O que salvou a Furukawa foi o negócio de cabeamento estruturado (cabling – redes internas) – hoje responsável por mais de 50% das vendas da companhia japonesa no Brasil.  

Além disso, as concessionárias vivem momento de restrições, tanto orçamentárias quanto regulatórias. “Se pudessem fazer TV por assinatura, seria um bom impulso”, diz o presidente da Furukawa – comentando os últimos movimentos neste sentido – como a compra da Way Brasil pela Telemar, o anúncio do DTH pela Telefônica e do IPTV da BrT. Segundo ele, só a movimentação das empresas puras do setor (agora convergentes, como NET e TVA)  não é o suficiente para a indústria de fios e cabos sair do atoleiro. “A TV aberta no Brasil é muito boa, ainda não há uma cultura de pagar por programação televisiva no Brasil.”

Um pouco de otimismo
Apesar da visão desanimadora atual (sem previsão de crescimento nos próximos dois, três anos), há esperanças no front. É o que anseia Shaikhzadeh – que prevê um boom para a fibra óptica (se bem que menor do que o das privatizações) a se iniciar por volta de 2009, com a intensificação do uso do Fiber To The Home (FTTH) no Brasil. De acordo com o executivo, a convergência, para ser completa, precisa do FTTH.
 
Em artigo publicado recentemente no Tele.Síntese, Shaikhzadeh destacou que,  em setembro de 2005, o Japão tinha 2.777 mil residências conectadas com FTTH, a Europa 892 mil e a América do Norte 323 mil residências, neste último caso, mais do que se quadruplicou o número de assinantes desde o início de 2004 (78 mil residências) em apenas 20 meses. As velocidades de conexão para os usuários destas redes estão hoje na faixa de 5 Mbps a 30 Mbps – superiores ao que se conhece como banda larga no país.

“O Brasil ainda está na infância do uso massivo dos meios eletrônicos. Cito como exemplo o uso do e-gov por parte do governo, que está bem aquém do potencial”, observa o executivo.

Comparato, da Prysmian, destaca que, mesmo em período de crise, as empresas do setor não param de investir. O faturamento total deste segmento é na ordem de R$ 700 milhões por ano. Destes, até 3% são reinvestidos em novas tecnologias. Mesmo uma possível tecnologia concorrente, o WiMAX (banda larga metropolitana sem fio), é encarada pelo executivo como algo a somar. “O WiMAX preenche apenas pequenos trechos. Para nós, quanto mais gente conectada, melhor, mais necessidade de rede e cabos”, conclui o presidente da Prysmian.

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