Medição da qualidade do tráfego: operadoras criticam Anatel


Tele.Síntese Análise 356 Definitivamente, o clima anda tenso entre as teles e a equipe do órgão regulador. Desde a cautelar que suspendeu por 11 dias a comercialização de novas linhas celulares da Claro, da Oi e da TIM, as relações ficaram abaladas. Há desconfiança de todos os lados e é nesse clima que os critérios …

Tele.Síntese Análise 356

Definitivamente, o clima anda tenso entre as teles e a equipe do órgão regulador. Desde a cautelar que suspendeu por 11 dias a comercialização de novas linhas celulares da Claro, da Oi e da TIM, as relações ficaram abaladas. Há desconfiança de todos os lados e é nesse clima que os critérios para a medição da qualidade da banda largar fixa, anunciados na semana passada, desagradaram algumas operadoras.

Em suma, as reclamações mais fortes foram sobre a falta de transparência. De acordo com as operadoras, a Anatel arbitrou o trecho da rede objeto do teste – da casa do consumidor até um Ponto de Troca de Tráfego administrado pela Comitê Gestor da Internet (CGI.br) – sem levar em conta suas considerações técnicas e ampliou, sem negociar, o número de usuários a serem avaliados. Outra crítica: as discussões indicavam que a amostra deveria ser aleatória, incluindo as redes de todas as operadoras, e o critério definido envolve apenas usuários que se candidatarem a participar da amostra.

A Anatel rebate as acusações. Segundo técnicos da agência, de fato houve uma discordância sobre o trecho da rede onde medir a qualidade. As operadoras queriam que o trecho fosse da casa do assinante até um PTT da operadora, sobre o qual elas têm controle total do que ocorre no tráfego de dados. Não aceitavam que os critérios incluíssem PTTs de terceiros, como os do CGI. Esse embate foi levado até o conselho diretor, que recusou os argumentos das operadoras. “De fato, a agência arbitrou, pois as justificativas técnicas das teles não eram consistentes. Está envolvida uma Entidade Certificadora de Qualidade (EAQ), a empresa que vai executar o trabalho está escolhida e não há nenhum risco de quebra de sigilo dos dados ou eventuais distorções, como dizem as operadoras”, afirma fonte da agência.

O que está por trás dessa disputa, avaliam técnicos da Anatel, é o embate futuro sobre gerenciamento de rede versus neutralidade da rede e o temor das teles de que o CGI passe a ter um papel importante na definição dos critérios de gerenciamento de dados aceitável na rede. “Não faz sentido as restrições que levantaram para não se usar PTT que não fosse das próprias teles”, dizem esses técnicos.

Um deles esclarece que o critério de medição será o mesmo adotado no piloto feito pelo Inmetro e CGI, no ano passado, com a participação das teles e da Anatel. “O destino final, que é o site buscado pelo internauta, está isolado, eliminando eventuais problemas que ele tenha. Então, ficamos com o trecho da rede da casa do assinante até o PTT. Na casa dele, o equipamento instalado também está preparado para não avaliar a qualidade do sinal quando outros computadores da casa estiverem usando o mesmo acesso”, explica.

Amostra
Quanto à amostra, a justificativa para a ampliação do número de usuários cobertos é de ordem metodológica. “Dobraram o número nas vésperas do anúncio, não negociaram conosco e somos nós que pagamos a conta”, relata um executivo. Outro diz que o número da amostra era de 2,4 mil, foi transformado em 6 mil, que virou 12 mil. Mas o que mais irritou algumas empresas foi a forma de seleção. Decidiram pela adesão voluntária dos internautas, por meio de um chamamento público, no lugar de os usuários serem escolhidos aleatoriamente, pela Anatel, com base na listagem de clientes das operadoras, como vinha sendo negociado. Esses clientes selecionados seriam convidados pela Anatel a participar da aferição.

A Anatel reconhece que houve mudança de critério, por razões absolutamente práticas. A experiência do piloto do Inmetro-CGI, com apenas 120 usuários em oito capitais, mostrou a enorme dificuldade de se conseguir a adesão dos internautas selecionados aleatoriamente. “Por isso, preferimos fazer o chamamento e, a seguir, montar a amostra aleatória com os interessados em participar da medição”, explica um técnico. Esse caminho, avalia um executivo de operadora, pode gerar uma amostra viciada. “Acho que não levaram em consideração a tendência de só se interessarem em participar do chamamento os usuários que enfrentam problema com sua banda larga. Isso pode gerar uma distorção”, pondera.

Independentemente de quem está com a razão, é importante que as negociações entre Anatel e operadoras se pautem por processos e critérios transparentes. E que sejam assim percebidos por ambas as partes. Sem isso, as nuvens não vão se dissipar no horizonte.

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