Limpeza dos 700 MHz vai facilitar uso do LTE em operações críticas, diz Motorola Solutions


Paulo Cunha, o PaCu, presidente da empresa no Brasil, acredita em um ano positivo para a operação local. Segundo ele, apesar de cenário macroeconômico incerto, o B2B tende a se manter estável ou crescer, enquanto o setor público está comprometido com regras que determinam taxas de investimento em segurança. Ele ressalta, ainda, que a empresa está capitalizada para fazer aquisições no país.

Paulo Cunha, o PaCu, country manager da Motorola Solutions no Brasil.
Paulo Cunha, o PaCu, country manager da Motorola Solutions no Brasil.

O leilão de 700 MHz deu fôlego para as operadoras de telefonia móvel ampliarem a cobertura e melhorar a capacidade de suas redes de dados móveis nos próximos anos. Mas trouxe também benefícios colaterais fora da alçada das teles. Pelo menos dois são comemorados por Paulo Cunha, o PaCu, presidente da Motorola Solutions no Brasil.

Em primeiro lugar, ao organizar o leilão, a Anatel precisou determinar qual fatia da frequência poderia ser usada por agências de segurança. Isso aconteceu em 2013, e culminou com o uso de sistemas de missão crítica em transmissão de dados móveis durante a Copa do Mundo. Em segundo lugar, as vencedoras dos lotes terão que limpar e organizar o espectro para que suas operações comerciais convivam com as transmissões do setor de radiodifusão e com o uso para operações críticas por parte do Exército e agências de segurança.

A Motorola Solutions está de olho nesse filão. Desde 2012 testa a viabilidade do 4G/LTE aplicado a redes privadas de missão crítica. “É uma tecnologia altamente disponível, e o Brasil tem todas as condições, dentro das possibilidades de uso de espectro definidas pela Anatel, de fazer a entrega ao longo dos próximos anos”, explica PaCu.

Otimista com o mercado brasileiro em que atua, o executivo diz ainda que a capitalização feita com a venda da divisão de Enterprise à Zebra Technologies, ano passado, por cerca de US$ 3,45 bilhões, vai proporcionar uma série de aquisições. Já existem empresas brasileiras no radar.

Tele.Síntese – Quais as perspectivas da Motorola Solutions para 2015 no Brasil?
Paulo Cunha (PaCu), presidente Motorola Solutions – O pessoal anda muito conservador com o B2C, mas o B2B, muitas vezes, independe da situação macroeconômica. É o nosso caso. Nos mercados em que atuamos – segurança pública e defesa, logística e transporte, e recursos naturais – a agenda do país está bem posicionada. Por decreto ou por força de lei, alguns setores são obrigados a investir. Projetamos um crescimento já ponderando as oscilações de sazonalidade. A empresa olha o Brasil ainda como uma força de crescimento, de expansão para seus produtos, e de aumento de volume financeiro. Estamos otimistas.

Tele.Síntese – Hoje, o maior cliente da Motorola Solutions no Brasil é do setor público federal?
PaCu Nós temos uma carteira muito equilibrada, com um pouco mais de setor privado. No setor público, temos tido muito sucesso tanto no governo federal, quanto com governos estaduais. Seria muito complexo dizer quem é maior neste momento. A carteira no setor privado é bem diversificada. Não temos apenas grandes empresas, que costumam sofrer mais com a retenção dos mercados internacionais no ramo de exploração de recursos naturais, por exemplo. As pequenas e médias empresas continuam sendo muito importantes para nosso portfólio. Contamos com 350 revendedores espalhados pelo Brasil, e três distribuidores com muita saúde financeira, o que dá para nós um bom balanço para atravessar situações de crise. O meu otimismo é baseado no que foi desenvolvido pela empresa no Brasil, que reflete a estratégia global.

Tele.Síntese – Mas há uma particularidade para o Brasil nessa estratégia global?
PaCu -O Brasil tem uma particularidade de extensão territorial que nos obriga a ter capilaridade em canais. Tendo a capilaridade baseada em canais, conseguimos ter um equilíbrio mais interessante do que se tivéssemos vendas exclusivas. Mas a Motorola Solutions segue este modelo nos países emergentes, não algo aplicado exclusivamente ao país.

Tele.Síntese – O Brasil é o país mais importante para a Motorola Solutions hoje na América Latina?
PaCu -Na América Latina, o Brasil é o país com maior peso em investimentos, com resultado esperado bastante adequado aos montantes aplicados. Não revelamos valores, mas posso dizer que é o único país com investimento em fabricação local associada a P&D e responsabilidade social. Ter esse tripé, e 60% a 65% dos nossos funcionários sendo engenheiros, demonstram a preocupação da empresa em manter o longo histórico no país. E é um investimento que é feito para a frente, para futuros negócios. Nunca tivemos uma operação negativa na história da Motorola Solutions no Brasil.

Tele.Síntese – As políticas de conteúdo nacional em telecomunicações impactaram os negócios da empresa no país?
PaCu -Nossa carga de conteúdo local sempre foi crescente. Foi só uma questão de alinhamento. Faltava uma legislação que pudesse alavancar as empresas que fizessem investimento local. Portanto, fazemos parte das empresas beneficiadas. Nossa estratégia permanece no sentido de maximizar a produção local – naquilo que faz sentido, obviamente.

Tele.Síntese – Empresas e governos brasileiros têm adotado a tecnologia estado da arte em missão crítica?
PaCu -Esse mundo nosso, de radiocomunicação, suporta três protocolos de comunicação. E o Brasil tem os três protocolos implementados. Todos os produtos que fabricamos ou integramos são estado da arte. Este mercado, é importante dizer, não tem um modelo de fabricação tão ágil como o de celulares, por exemplo, uma vez que trata de comunicações de missão crítica, que têm que fornecer um certo nível de confiabilidade e eficiência. O ciclo é muito mais lento, o que ajuda a manter o país up to date.

Tele.Síntese – Os testes com LTE para operações críticas deu resultado?
PaCu -Conseguimos, em parceria com o Exército, trazer a banda larga móvel para o ambiente mais completo das comunicações críticas. Considero três missões muito importantes em que testamos à prova a tecnologia: os protestos de 2013, em Brasília, a Copa das Confederações, e a Copa do Mundo. Foram três casos de uso do LTE aplicado à segurança pública, e que foram um sucesso. O Brasil realizou as primeiras Copa das Confederações e Copa do Mundo com LTE usado por uma agência oficial. Isso nos coloca na vanguarda.

Tele.Síntese – Todas as cidades-sede foram cobertas?
PaCu -Só Brasília. Testamos a viabilidade do uso de imagem na segurança pública. Por ser uma rede privada em LTE, ela não teve as falhas convencionais de uma rede pública. Ao mesmo tempo, as medidas de segurança foram beneficiadas pelo fato de as forças de segurança terem imagem em tempo real. É uma doutrina que deverá ser amplamente posicionada no país. É uma tecnologia altamente disponível, e o Brasil tem todas as condições, dentro das possibilidades de uso de espectro definidas pela Anatel, de fazer a entrega ao longo dos próximos anos. Quando você olha para as áreas de operação e missão críticas, o uso de dados está vindo com bastante intensidade. Se você olha voz crítica, dados em banda larga, essas tecnologias estão convergindo na área também.

Tele.Síntese – Essa rede LTE para operação crítica ficou como legado para Brasília?
PaCu -Está agora no Rio de Janeiro, sendo usada nas operações táticas de defesa.

Tele.Síntese – Vai ter ampliação para as Olimpíadas?
PaCu -Temos planos de um uso mais intensivo com o Exército e outras agências.

Tele.Síntese – A regulação da Anatel para as agências de segurança usarem o LTE é suficiente?
PaCu -Em meados de 2013 a Anatel regulamentou o uso dos 700 MHz, separando uma banda para uso exclusivo em segurança pública, defesa e infraestrutura crítica. E não leiloou esta faixa, deixou exclusiva. Não se cobra, é usada pelas entidades autorizadas. O Brasil segue uma tendência no mundo de se ter uma dedicação dos espectros de LTE para missão crítica, dentro do contexto de segurança, defesa e infraestrutura. E tem a liderança nisso na América Latina.

Tele.Síntese – O cronograma do leilão de 700 MHz impacta de que maneira, então, a adoção do LTE na segurança pública?
PaCu -A Anatel publicou uma lista de limpeza das faixas para que as operadoras comerciais possam oferecer o LTE. Automaticamente, a limpeza vai liberar as faixas dedicadas à segurança, defesa e infraestrutura crítica. Estamos caminhando em paralelo, de forma positiva.

Tele.Síntese – A venda da divisão de Enterprise da Motorola Solutions à Zebra Technologies, realizada ano passado, já foi 100% concluída?
PaCu -A integração das entidades legais foi concluída. A integração da Zebra com os novos funcionários e linhas de produtos foi iniciada. No Brasil, a gente tinha as forças comerciais de engenharia de suporte. Dificilmente tínhamos profissionais com os dois portfólios [Solutions e Enterprise] para comercialização. Do ponto de vista operacional, nossas administrações já eram separadas.

Tele.Síntese – E como a venda repercute hoje?
PaCu -Essa capitalização injetou recursos. Permitiu a rentabilização para os investidores, mas também que fizéssemos aquisições. Estamos anunciando compras de empresas de componentes tecnológicos que incrementam nosso portfólio em LTE, na área de banda larga, para segurança pública e setor privado. É o caminho correto, a integração total dos sistemas de rádio com a banda larga. Lançamos no final do terceiro trimestre do ano passado, por exemplo, terminais com integração do 4G com rádio funcionando em ambiente seguro, desenvolvido para não ter intrusão.

Tele.Síntese – Alguma empresa brasileira no radar?
PaCu -Procuramos por aqui, desenvolvedores de aplicações e software que possam complementar nosso portfólio. Há uma empresa aqui que é concorrente da Motorola Solutions Venture Capital, que é parte de nossos interesses.

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