Laptop de US$ 100: Impactos positivos


{mosimage}O programa vai permitir uma revolução na educação e o acesso de nossas crianças ao conhecimento compartilhado. Vai estimular a indústria local, a produção do conhecimento e permitir ao país participar de um projeto global.

“O programa One Laptop per Child (OLPC) propõe equipar 1 milhão de crianças e professores brasileiros com laptops de baixíssimo custo, a partir de janeiro de 2006. Os equipamentos serão montados no Brasil, que também funcionará como uma base para exportação de outro milhão de laptops. O projeto-piloto, de 12 meses, terá um tremendo efeito sobre a educação primária e secundária no país. O objetivo de longo prazo do projeto é fazer com que todas as crianças do Brasil tenham um laptop até 2010, um ação pioneira no mundo. Serão laptops completos, de uso geral, criados para crianças e adolescentes, baseados em Linux e com conexão sem fio à Internet.

“O projeto de longo prazo (de 2007 a 2010) prevê duas versões adicionais do aparelho, cada uma com mais capacidade e menor preço (o objetivo final é U$ 30). A presente proposta está focalizada na primeira geração desses laptops. Os planos incluem um segundo lote com um milhão de máquinas, que seriam exportadas para o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos. Todos esses laptops seriam fabricados no Brasil.”

Este é o lide do projeto proposto ao governo brasileiro pelo cientista Nicholas Negroponte e o educador Seymour Papert, no final de junho deste ano. O governo instituiu um Grupo de Trabalho (GT) para consubstanciá-lo de informações para uma tomada de posição de adesão ou não ao projeto. Esta decisão deve ser tomada em final de fevereiro ou início de março, quando os proponentes apresentarão o protótipo funcional do laptop de U$100.

Produção local

A premissa do projeto é que o sistema de educação que, hoje, impera no mundo nasceu e amadureceu em função da economia industrial e é uma emulação da linha de produção – um sistema estanque e compartimentado. Um dos objetivos do projeto é iniciar um processo que fomente a evolução deste sistema para um modelo adequado para a economia da Sociedade da Informação, que tem seus alicerces nas redes de comunicação e, portanto, exige um sistema educacional processual. O laptop, considerando-se este contexto, seria a ferramenta.

Na semana passada, David Cavallo, pesquisador do MIT-Media Lab da área de educação, esteve com Cezar Alvarez, o coordenador do GT, a fim de reforçar a proposta e ressaltar que o hardware pode e deve ser montado aqui.

Neste encontro, como em outros, foi ressaltado que o projeto fomentará investimentos locais em tecnologias de comunicação wireless, na indústria de software e na indústria de conteúdos locais. A proposta, segundo o representante do MIT-Media Lab, é para que o Brasil participe, efetivamente, do desenvolvimento do projeto, produza logo no início os componentes que temos a possibilidade de produzir aqui e se prepare para vir a produzir eventuais componentes que não temos condições hoje.

O Media Lab e a equipe do projeto estão, desde agora, prontos para receber membros do comitê técnico do GT brasileiro para colaborar com a construção efetiva do projeto e contribuir para um eventual plano de atração de uma empresa de tecnologia de display (LCD). Ou seja: se o comitê técnico do GT entender que existe uma possibilidade de, numa linha de tempo, podermos atrair uma empresa com tecnologia de LCD, em função do volume de máquinas do projeto, a oportunidade está aí. Com isso, a balança comercial do Brasil seria positivamente impactada, pois este componente é o único que não é uma commodity nos computadores montados no Brasil.

Novas fronteiras do conhecimento

Faço um paralelo entre o Media Lab e a Escola de Sagres que, no nosso imaginário, tornou possível a expansão da civilização ocidental pelo Atlântico e todos os mares. As novas fronteiras para a expansão do porvir da humanidade estão, hoje, na halografia que a internet sobrepõe sobre a Terra e a economia industrial, permitindo a exponenciação das nossas possibilidades em todos os sentidos.

De certa forma, esta concepção foi sintetizada em dois seminários protagonizados por Walter Bender, diretor do Media Lab, em São Paulo e em Brasília, em junho deste ano, e dos quais transcrevo abaixo alguns trechos livremente.

“O Media Lab, criado no início do anos 80, surgiu da necessidade de buscar novos caminhos de expressão. A comunicação é essencial para a expressão, e a expressão é essencial para a mente. Agora, mais de duas décadas depois, o laboratório já pode avaliar alguns resultados. Como disse o fundador do Media Lab, Norbert Wiesner, ‘nunca acredite em nenhuma idéia com menos de 20 anos’”.

“O princípio do Media Lab é imaginar, substancializar, criticar. Um dos objetivos do Media Lab é forçar os modelos além de seus limites previstos, porque é quebrando esses limites que se enxergam as reais possibilidades de um conceito. Os pontos de vista diferentes nos deixam mais espertos”.

“É importante, hoje, repensar as telecomunicações, já que a base tecnológica das telecomunicações não é mais válida. Na época de Marconi, as telecomunicações eram baseadas em um modelo de banda restrita por número crescente de terminais. Hoje é possível ampliar a capacidade sem reduzir a banda por nó de de conexão. Hoje, as comunicações são virais: escaláveis, de baixo custo, incrementais, adaptáveis, contributivas e robustas. Essas novas comunicações aproveitam-se de conhecimentos locais e decisões locais sobre uma estrutura global”.

“É preciso repensar também as regras de envolvimento. Estudos mostram que estruturas com mais de 150 pessoas sofrem fortes mudanças organizacionais, exigindo maior hierarquização para impedir o caos. Mas, em estruturas muito numerosas, vale a "regra da multidão", rule of many. O fluxo se organiza sem hierarquia, sem organização de cima para baixo, sem editores – baseado na confiança de que cada contribuição é positiva”.

“Exemplos dessas organizações super-numéricas são a enciclopédia online Wikipedia e o organizador de álbuns de fotos online Flickr. Esses sistemas alimentados por milhares de pessoas são exemplos de inovações (líquido) que atingiram a consolidação (sólido)”.

“São organic networks, capazes de reduzir a barreira econômica à inovação. Apresentam arquitetura mais modular, mais flexível e tornam a computação mais acessível para os empreendedores. É errado achar que um computador serve apenas para informação e comunicação. O computador é, antes de tudo, uma ferramenta para criação, expressão, visualização e simulação”.

Educação, algumas experiências

Em torno das considerações genéricas que Walter Bender faz sobre o momento de inovação que vivemos, seu companheiro David Cavallo observa sobre o projeto proposto ao Brasil: “O essencial da ferramenta é que seja um laptop, um equipamento portátil para o aprendizado. Um equipamento que possa ser levado para fora da escola, para a casa do aluno, onde vai produzir impacto sobre o ambiente familiar/doméstico do estudante. Pela liberdade de movimento, o laptop permite a contaminação viral do ambiente familiar, a vizinhança e os amigos do estudante”.

E vai adiante: “A inovação coloca no centro o pensamento das pessoas, no eixo da participação democrática. Se a educação é essencial, os sistemas educacionais estão em xeque. Mesmo os países mais bem cotados em avaliações internacionais de ensino querem alterar profundamente seus sistemas. É crucial promover a criatividade e a invenção na sala de aula. O ambiente criativo torna as crianças mais interessadas. Deve-se abandonar posturas tradicionais no modo de ensinar (separar as crianças por faixa etária, por exemplo, ou desconstruir e fragmentar os conteúdos). Uma idéia provocadora é que uma educação básica de melhor qualidade e menor duração vale mais que muitos anos de uma educação medíocre”.

“A equipe do Media Lab desenvolveu vários projetos com escolas públicas em áreas pobres de vários países. No Brasil, projetos exemplares em Manaus (coleta automatizada de lixo reciclável, com um caminhão equipado com braços coletores robotizados) e em São Paulo ("ônibus inteligente" que se inspira no design de um teclado de computador). Dessas experiências surge a percepção de que as crianças se estimulam a resolver problemas com criatividade – atacam o problema como um todo e buscam aprender cada elemento que possa ajudar na solução total”.

“Através das crianças, problemas da comunidade podem ser abordados de forma criativa e ativa. Na Tailândia, o problema da queimada em certas áreas foi enfrentado pelos alunos que conscientizaram seus pais e vizinhos a respeito da proteção da mata, da necessidade de se criar reservatórios para os períodos de seca, etc. E isso superou as resistências baseadas na tradição, levando ao questionamento de práticas destrutivas”.

O Brasil neste contexto

Para implementar computadores de ensino com preços acessíveis, é preciso mudar uma tendência da indústria, que prefere aumentar a capacidade dos equipamentos em vez de reduzir seu preço. Está aí o ponto crucial do projeto e a justificativa para uma aliança produtiva com o Media Lab – seria possível quebrarmos sozinhos este dogma da indústria?

Segundo a visão de Walter Bender: “O Brasil é especialmente bem posicionado para esse intercâmbio, por razões sensoriais e culturais. Nesses projetos, é importante dar mais ênfase à interação e à formação. O computador é uma ferramenta agregadora, permitindo acesso a informações do mundo todo”.

“Uma revolução que está em afinidade com os bens disponíveis, estimulando o aprendizado coletivo. O Brasil tem uma característica de improvisação que sempre foi desvantajosa em situações clássicas, mas é uma vantagem em situações não clássicas, que devem ser cada vez mais freqüentes nos próximos anos. Professores e meios eletrônicos devem ser os principais difusores de educação”.

“As idéias de Paulo Freire e outros educadores inspiraram muitos desses projetos, especialmente ao se usar o ambiente local e os problemas locais dos alunos como motivação para o aprendizado”.

“O mais importante a se mudar não é o hardware, mas o processo de geração de conhecimento. Há uma histórica resistência a abandonar a hierarquia, a ceder o poder para a base. É preciso usar a tecnologia como contra balanço de forças políticas mais conservadoras”.

Do meu ponto de vista sobre o projeto proposto ao Brasil, entendo que a inovação contida é a instrumentalização de todas as crianças brasileiras em idade escolar do sistema público educacional, até o ano 2010, com o seu próprio laptop, conscientes de que a máquina é uma ferramenta para a expansão das suas formas de se expressar (criação, visualização e simulação) e se comunicar – um caminho de inserção objetiva e positiva na Sociedade da Informação e para um salto qualitativo na formação dos nossos recursos humanos.

Considero, também, que o caminho que eles apontam para as questões de conectividade é potencialmente um processo de inovação. Vêm o futuro da comunicação em wireless e de forma contribuída. Isso é uma ruptura. Por isso, valorizam no modelo de negócios as tecnologias Wi-Fi, WiMAX, 3G e  redes Mesh. É claro que tudo isso, e principalmente a inclusão de mais de 50 milhões de famílias na economia, significaria um forte eixo de desenvolvimento para o nosso país.

Imagino que todos nós e a academia brasileira temos dúvidas sobre a estrutura do projeto. Do meu ponto de vista, um generalista, considero que deveríamos analisar o projeto como o início de um processo de inovação, com tremendos impactos sociais e econômicos. Nesse projeto, com certeza, a academia brasileira e todos os demais agentes locais envolvidos, entre eles a nossa indústria, em rede com os pares globais num mundo cada vez mais conectado, terão um papel determinante na sua evolução, graças à nossa competência e ao nosso conhecimento sobre a estrutura social, cultural e econômica local – conhecimento que é o fator determinante no mundo em rede.


*Rodrigo L Mesquita é jornalista, empreendedor e research affiliate ao MIT-Media Lab.

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