Otero, Jose 4G AmericasUma das características mais ignoradas das redes sem fio é o fato de que o lugar onde não há infraestrutura de cabeamento nas redes tem a ver com a interface aérea, ou seja, o espaço entre a antena e o equipamento com o qual se comunica. Não se fala muito do equipamento além da antena, embora ele seja de suma importância porque é o que faz com que as tecnologias de banda larga entreguem ou não a velocidade prometida. Cada antena está conectada com o backbone de fibra óptica do seu mercado, que transmite o tráfego bidirecional ao destinatário final.

A maioria destas conexões – conhecidas como backhaul – é feita através de redes de cabos de cobre ou fibra óptica. A adoção das tecnologias de banda larga móvel com velocidades acima de 20 Mbps levou obrigatoriamente à evolução das conexões de backhaul das redes sem fio. Antes para serviços 2G uma conexão E1/T1 era suficiente, mas hoje já teríamos que pensar em conexões de fibra ou VDSL2.

Esta nova realidade faz com que, afora a inovação tecnológica que a operadora móvel visa criar com a implantação da LTE, se as conexões de backhaul não podem entregar altas velocidades para tornar a tecnologia viável, temos como resultado uma conexão similar às das tecnologias anteriores. Na Bolívia, por exemplo, as antenas LTE somente oferecem velocidades similares às do 3G por causa da qualidade inferior do backhaul.

Como se constata, é sumamente importante que os governos da região viabilizem a concessão de autorizações para a instalação de redes móveis que incluam a colocação de uma antena e também a instalação das tecnologias de cabo necessárias para que a rede móvel funcione. Como na grande maioria dos mercados da região estas autorizações são concedidas pelos municípios, existe um perigo de que as instalações de banda larga móvel possam se dilatar artificialmente por questões de burocracia ou falta de informações, sobretudo em zonas rurais ou áreas afastadas, que ironicamente mais precisam da implantação de tecnologias como LTE.

Se os órgãos reguladores visam continuar a impulsionar a implantação de novas tecnologias, para que as implantações em seus mercados sejam concomitantes com as adoções em mercados desenvolvidos, é oportuno promover a atualização das redes de cabos em seus mercados.

Hoje, o único mercado na América Latina e o Caribe que reúne todas as condições para ter uma rede LTE-A com cobertura nacional total é Barbados no Caribe oriental. Cabe salientar que mais de 85% dos domicílios nessa ilha têm a possibilidade de acessar serviços de banda larga de 1 Gbps, o que ainda não é o caso em muitos países desenvolvidos. Os demais mercados da região reúnem condições propícias para a implantação no curto prazo de LTE-A em certas áreas restritas dos principais centros urbanos.

Esta realidade parece retratar uma perspectiva sombria para a tão mencionada chegada do 5G, cuja primeira rede comercial é atualmente prevista para depois de 2020. Esta data coincide com o período de cerca de dez anos, o tempo de chegada de uma nova geração sem fio: GSM em 1992 (2G), UMTS em 2001 (3G) e LTE em 2009 (4G). Portanto, 2016 será um ano chave, já que é a data prevista para a definição do padrão daquilo que será conhecido como 5G no médio prazo.

A importância de se dispor de um padrão que atenda as necessidades do mercado levou 4G Americas a publicar, em outubro do ano passado, um documento que recomenda quinze tecnologias para incorporação no padrão que finalmente for aceito como 5G. A associação considera o 5G como um ecossistema completo e não simplesmente um aperfeiçoamento da velocidade de transmissão de dados, como as gerações passadas de tecnologia sem fio.

Quando refletimos sobre o conjunto das recomendações da 4G Americas a respeito do 5G, chegamos à rápida conclusão de que todas as tecnologias sugeridas têm como foco aumentar a eficiência no uso do espectro de RF e buscar maneiras mais eficientes para lidar com o tráfego de transmissão. Este aspecto é determinante, quando se pensa na conexão entre máquinas, conhecida como M2M (“machine-to-machine” em inglês). A consultora Machina Research acredita que em 2023 a América Latina já contará com mais de 160 milhões de conexões através de redes móveis sem interação humana, ou seja, M2M.

O maior número de conexões e a iminência da definição do padrão levou 4G Americas a manter um diálogo com organizações com o foco em outras regiões do mundo, a fim de estabelecer um consenso sobre que tecnologias deveriam fazer parte do ecossistema que será conhecido como 5G.

Este esforço rendeu seus primeiros frutos com a assinatura de um Memorando de Entendimento entre 4G Americas e a Associação de Infraestrutura 5G de Cooperação Público-Privada (5G-PPP), com vistas a um diálogo mais estreito sobre as posições nas Américas a respeito da definição do 5G e a postura dos diferentes mercados europeus. O objetivo é chegar a um consenso que facilite a escolha de um padrão de 5G global e agilize a adoção da tecnologia.

*José Otero é Diretor da 4G Americas para a América Latina e o Caribe.