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Entrevistas

Motorola Solutions vê na segurança entrada para LTE

Após a separação, no início deste ano, da Motorola em duas empresas, restou a Motorola Solutions, com foco no setor corporativo e em soluções para governo. Na América Latina, a separação foi positiva para esta unidade, que deve encerrar o ano com crescimento entre 15% e 20%, antecipa o presidente, Eduardo Stefano. Em telecomunicações, com a venda da área de redes para a Nokia Siemens, as telcos deixaram de fazer parte do core business da empresa. Para esse segmento, restaram aplicações para operadoras, como as de wireless LAN, e soluções que otimizam o tráfego na rede 3G, uma das apostas da Motorola Solutions para a Copa do Mundo. No serviço móvel, aposta também nas soluções de LTE para a segurança pública, como video on demand, captura de dados e transmissão em alta velocidade, em tempo real.

Tele.Síntese - Com a separação de unidades de negócio no início do ano, e a posterior  venda da Motorola Mobility para a Google, como ficou estruturada a Motorola e como está o desempenho empresa no Brasil?
Eduardo Stefano - A separação da empresa se efetivou após uns dois anos de trabalho interno para separar basicamente as unidades de negócios business to consumer das unidades de negócio business to business. A causa raiz era separar as duas unidades de negócios e criar estratégias para que cada uma delas fosse bem sucedida. Esse processo foi concluído no início do ano, com a Motorola Mobility voltada para o consumo e a Motorola Solutions voltada para o business to business.

Tele.Síntese - Quase um ano após a separação, que resultados foram obtidos?
Stefano - Avalio os resultados como excelentes, acima do que projetavamos de forma otimista. Eu não falo em nome da Mobility, mas olhando a estratégia de forma ampla, eu posso dizer que as as duas empresas foram bem sucedidas, porque a separação permitiu, por exemplo, a Mobility fazer parte de um dos maiores conglomerados de  internet do mundo. A Google oficializou a compra da Mobility e isso só foi possível a partir desse processo de separação. Do lado da Solutions, os resultados foram muito positivos, a empresa tem crescido mundialmente numa taxa acima do crescimento do PIB mundial, entre 8% e 10%.

Tele.Síntese - No Brasil e demais países da região a empresa cresce no mesmo percentual?
Srtefano - Na América Latina, percentualmente, crescemos mais do que a mundial mundial, estamos entre 15% e 20% de crescimento. A região tem uma curva de crescimento quase que o dobro da média mundial e o Brasil, dentro da América Latina, é o principal mercado, tem conseguido agregar um valor e um peso importante para a região.

Tele.Síntese - Que setores estão demandando mais no Brasil, na sua unidade?
Stefano - Na Motorola Solutions temos um portfólio ponta a ponta, desde soluções simples de radiocomunicação até soluções completas de banda larga, com sistemas de segurança, aplicações wireless LAN ou WiFi para instituições financeiras, que  precisam ter a segurança do acesso preservada.

Tele.Síntese - Essas aplicações são todas importadas ou tem algum desenvolvimento no Brasil?
Stefano - Temos desenvolvedores de aplicação, que customizam a solução para o cliente. Temos uma quantidade grande de produtos comercializados na área de mobilidade e os desenvolvedores escrevem as aplicações aqui no Brasil e agregam esse software no dispositivo aqui para o cliente.

Tele.Síntese - Com a venda da área de redes para a Nokia Siemens, vocês ainda tem negócios com as operadoras de telecom?
Stefano - Com o processo de venda da área de redes, concluído no final do segundo trimestre, telecom deixou de ser um core business, mas ainda temos algumas aplicações para operadoras, como as de wireless LAN. Existe uma demanda para  alternativas do 3G, que chamamos de 3G offload, ou seja, uma sobreposição ao 3G. Por exemplo: num grande shopping center circulam 3 mil pessoas, 99% delas têm um celular falando com sua operadora através da rede 3G. Então, as tecnologias permitem que nesse local você pode falar não pelo 3G mas do 3G offload, do wireless LAN. O tráfego de dados, que hoje flui pela rede 3G, em grandes centros comerciais poderia fluir através da rede de dados do wireless LAN. É uma alternativa para reduzir os investimentos em 3G. São pequenas antenas, dentro do shopping center, ou seja, o WiFi vai falar com a rede 3G, através de um protocolo.

Tele.Síntese - É uma solução que pode ser usada nos estádios para os jogos da Copa? Vocês estão negociando com as operadoras?
Stefano - Estamos trabalhando sim, mas nosso projeto para a Copa do Mundo é mais abrangente do que o estádio. No caso do 3G offload, imagina que num estágio terão  70 mil pessoas, uma densidade grande num único ponto, onde possivelmente terá uma única antena cobrindo (...) Fora isso, nossas soluções para a Copa vão desde sistemas de missão crítica de radiocomunicação e centrais de comando e controle para monitoramento até soluções de mobilidade para hotéis, centros de convenção, centros de mídia. Estamos trabalhando com níveis de governo federal e estadual para mostrar essas soluções.

Tele.Síntese - Além do mercado corporativo, a Motorola Solutions ficou com os negócios voltados para o setor público, particularmente na área de segurança pública. Que soluções vocês oferecem para governo (equipamentos e aplicativos)?
Stefano - Segurança pública é um de nossos focos, temos uma participação massiva, com soluções e tecnologias implementadas em 16 dos 27 estados. Nosso principal case é no Estado de São Paulo, o maior projeto da Motorola na América Latina, que envolve a Polícia Militar, a Civil, a Polícia Técnico-Científica, todas utilizam soluções da Motorola, em radiocomunicação, central de despacho, central de videomonitoramento (...).

Tele.Síntese - Vocês estão participando do projeto do governo de São Paulo, que pretende colocar mobilidade nos serviços de governo eletrônico já existentes?
Stefano - Estamos acompanhando. Nós somos hoje o principal fabricante de equipamento LTE voltado para a segurança pública. Temos uma parceria estratégica com a Ericsson, que é o maior fabricante das antenas de LTE, e nós o maior fabricante de aplicação e interconexão com um sistema de LTE voltado para segurança pública. Entre as aplicações que temos nessa área estão vídeo on demand, captura automática de imagens, que é transmitida em tempo real, localização, troca de comunicação de dados em alta velocidade.

Tele.Síntese - Vocês anunciaram no início deste semestre um trial, na faixa de 700MHz, com o Exército Brasileiro para testar a LTE? Como está o andamento do projeto?
Stefano - No final de outubro iniciamos o processo de trial na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Tem uma série de fases, o centro de comando e operações será dentro do Centro de Gerenciamento e Comunicação de Dados do Exército Brasileiro. Esse centro de comando vai permitir o monitoramento de uma série de aplicações como vídeo on demand, captura de vídeo em tempo real através de viaturas em mobilidade, banda larga e troca de dados entre uma patrulha e o centro, em tempo real (...). Nessa primeira etapa estamos fazendo a integração das soluções desenvolvidas nos nossos laboratórios nos Estados Unidos; em novembro vamos instalar os equipamentos em três sites na região. Esses equipamentos de infraestrutura de LTE estarão interconectados com servidores de segurança pública, são, portanto, antenas da quarta geração de comunicação, da parceria Ericsson-Motorola. É um investimento de US$ 2 milhões da Motorola. O Exército é um cliente estratégico, assim como a polícia de São Paulo. Nós estimamos desenvolver esse teste ao longo do primeiro semestre de 2012.

Tele.Síntese - Que resultados são esperados desse piloto?
Stefano - Um resultado que crie uma percepção de valor antes e depois do LTE, ou seja, que realmente eu consiga passar para um agente de segurança, um gestor, que aquela imagem, aquele conteúdo sendo tratado em tempo real, vai fazer a diferença para que ele possa gerir melhor os serviços de segurança pública. Temos vários projetos comercialmente implantados nos Estados Unidos e nosso objetivo é mostrar claramente o antes e o depois.

Tele.Síntese - Como você avalia o mercado de banda larga no Brasil, e qual o futuro das redes sem fio?
Stefano - É um mercado que tem crescido a dois dígitos, o Brasil tem, principalmente quando a gente fala de cidades digitais, buscado muita aplicação, desenvolvimentos para digitalizar os serviços municipais. Eu vejo que é um caminho sem volta e que a mobilidade continua crescendo, seremos cada vez mais móvel, mais plugado independente de onde estamos (...). A fibra é importante e eu acredito que a convergência das duas tecnologias se complementa. A fibra é importante para criar backbone de alta capacidade de tráfego, mas quando fala de última milha a fibra não atende; as soluções sem fio têm hoje uma taxa de dados alta, o que permite vídeo em tempo real e outras aplicações que, há 15 anos, não eram possível.

Tele.Síntese - E o Wimax, ainda tem futuro no Brasil?
Stefano - O Wimax não decolou e, agora, todas as tecnologias estão convergindo para o LTE. A Motorola é uma empresa de vanguarda, que olha cinco, dez anos para a frente, e está focada no LTE. Nos questionam por termos vendido a parte de network. Vendemos porque aquela onda do 3G nós perdemos. Agora estamos trabalhando na onda do 4G.

Tele.Síntese - Em relação às políticas públicas para a indústria, como você está vendo as iniciativas do governo?
Stefano - Temos uma linha tênue entre protegermos a indústria nacional e tornarmos a indústria nacional uma ilha de defasagem tecnológica como ocorreu no passado; acho que as intenções são ótimas, o governo tem uma política industrial, o Brasil não sucateou a sua indústria mas a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Temos que ter uma dose correta. O que eu quero dizer? Com um consumo interno enorme, uma população de quase 200 milhões, o Brasil não pode segregar. Eu não posso comprar um notebook de US$ 500 nos Estados Unidos e pagar aqui R$ 3 mil. Agora, preservar quem fabrica aqui, quem investe aqui, seja uma multinacional ou uma empresa nacional é totalmente correto. Mas não dá para só aumentar alíquota para proteger a indústria nacional e ela oferecer um produto defasado.

Tele.Síntese - Para o setor, o que falta em termos de incentivo para que a indústria produza no país, desenvolva tecnologia aqui e não fique só na customização de produtos?
Stefano - Eu acho que estamos no caminho certo, no que tenho visto nas ações do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia). Nos últimos anos passamos para o mercado que era importante fabricar no Brasil. A Motorola é uma das empresas que investiu muito aqui antes da separação, mesmo agora mantemos fabrica no Brasil. A Mobility continua em Jaguariúna e a Solutions produz através de um vendor, a Sanmina, uma empresa contratada mundialmente pela Motorola e que tem fábrica em Hortolândia.