Cloudflare bloqueia até 15 bilhões de requisições maliciosas por dia no Brasil
Novo VP para a América Latina afirma que IA encurtou o tempo de exploração de vulnerabilidades e elevou pressão sobre sistemas de segurança

O Brasil é o quinto país mais conectado digitalmente e o quarto mais atacado no mundo. Os dados foram apresentados por Norberto “Bert” Milan, recém nomeado Vice-Presidente da Cloudflare para a América Latina, em entrevista ao Tele.Síntese em São Paulo, durante evento da empresa voltado a parceiros e clientes corporativos. Milan assumiu o cargo anteriormente ocupado por Carlos Torales, que passa a liderar a área de Parcerias da Cloudflare para a região (LATAM Partnerships).
A Cloudflare afirma bloquear entre 12 bilhões e 15 bilhões de requisições maliciosas por dia no Brasil, dentro de um universo de cerca de 300 bilhões de requisições diárias processadas em sua rede no país. Segundo o executivo, esse volume equivale a algo próximo de 4% do tráfego que a empresa vê localmente.
Milan disse que a empresa opera atualmente cerca de 33 data centers no Brasil e que essa presença permite manter latência inferior a 50 milissegundos para usuários no país. Na entrevista, ele associou esse alcance à capacidade de observação da companhia sobre padrões de tráfego e tentativas de abuso em ambiente digital.
IA reduz a janela de reação
A IA está acelerando tanto a capacidade ofensiva quanto a defensiva na dinâmica da cibersegurança. Milan citou o surgimento recente de modelos de IA capazes de identificar vulnerabilidades em sistemas operacionais, dispositivos e softwares de proteção e explorá-las em questão de minutos. “A urgência de detectar qualquer intenção maliciosa em quase tempo real está se tornando crítica porque, se não detectar em tempo real, em minutos, já será tarde demais”, disse.
Ele ainda observou que grandes empresas operam com uma pilha extensa de ferramentas de segurança. Segundo o executivo, a média global gira em torno de 37 soluções diferentes, o que amplia a complexidade de proteção e dificulta identificar rapidamente onde uma falha foi explorada.
Bots vão superar humanos na internet até 2027
A projeção foi feita por Matthew Prince, CEO da Cloudflare, durante o SXSW, em março de 2026, em Austin (EUA), e reforçada por Milan. Prince afirmou que, com o crescimento da IA generativa, o volume de tráfego de bots na internet deve superar o de humanos até 2027. Antes da era da IA generativa, o tráfego de bots representava cerca de 20% do total da internet.
A razão é que agentes de IA realizam, para uma mesma tarefa, visitas a um número muito superior de páginas em relação a um usuário humano. “Se um humano fosse fazer uma tarefa — digamos, pesquisar uma câmera digital — ele talvez visite cinco sites. O agente ou bot que faz isso costuma visitar mil vezes mais sites”, disse Prince.
Para Milan, essa velocidade é mais intensa do que a observada nas adoções anteriores de tecnologia. “A IA vai chegar a um bilhão de usuários em três ou quatro anos, o crescimento é exponencial. Não temos mais tempo para nos preparar como antes”, afirmou.
Esse movimento pressiona infraestrutura, aplicações e sistemas de defesa ao mesmo tempo em que amplia o uso legítimo de automação.
Visibilidade como ponto de partida
Segundo Milan, a abordagem da Cloudflare para proteção corporativa começa pelo mapeamento do tráfego antes de qualquer intervenção. A partir da análise, a empresa identifica tráfego inesperado, aplicações não autorizadas e pontos de exposição. Na etapa seguinte, passa a sugerir controles, restrições e políticas de segmentação, com a aplicação de controles e a implementação de arquiteturas como zero trust, modelo que exige verificação contínua de cada requisição entre aplicações e usuários. Milan resumiu a lógica da abordagem de uma forma muito direta: “não confie em nada; verifique cada requisição”.
O executivo afirmou que a Cloudflare atua com agências governamentais em diferentes níveis — federal, estadual e municipal — em países ao redor do mundo, incluindo o Brasil. O executivo disse que a empresa aplica às entidades públicas a mesma tecnologia utilizada no setor privado e que cumpre integralmente a legislação brasileira de proteção de dados. “Trabalhamos com governos para entender o que eles estão tentando proteger e os ajudamos a proteger essas coisas”, afirmou.
Responsabilidade sobre 20% da internet
Milan ressaltou que a escala da Cloudflare implica responsabilidade direta sobre a disponibilidade de serviços críticos. “Sabemos a responsabilidade que temos de entregar 20% da internet para o mundo”, afirmou. Diante de qualquer sinal de instabilidade, a resposta da empresa é imediata e envolve rastreamento da origem do problema em sua rede global, presente em mais de 330 cidades em 125 países. A empresa adota postura de transparência pública em incidentes, publicando relatórios com causas e medidas adotadas. A Cloudflare bloqueou, em média, 230 bilhões de ameaças diárias globalmente ao longo de 2025, um aumento de 21% em relação ao ano anterior.




