General Alencastro, não faltou música!
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- Quinta, 01 Dezembro 2011 15:05
- Escrito por Lia Ribeiro Dias
A estória de que mais gosto do general Alencastro, presidente da Telebras de 1974 a 1985, não faz parte da sua extensa biografia de serviços prestados ao setor de telecomunicações, embora tenha a ver com a sua forma de agir na vida profissional. Ele foi, ao lado dos ex-ministros das Comunicações Hygino Corsetti e Euclides Quandt de Oliveira, um dos responsáveis pela construção do sistema brasileiro de telecomunicações, que permitiu ao Brasil se integrar e falar – quando o serviço telefônico de voz era a única possibilidade de comunicação interativa. Não havia serviço de dados e muito menos a internet.
Alencastro, que faleceu anteontem (29) em Brasília, aos 93 anos, foi o maestro que deu corpo à holding Telebras, então escrita com acento agudo, que integrou mais de 800 companhias municipais e estaduais, que prestavam um serviço de baixíssima qualidade, nas 26 chamadas empresas-polo, as companhias estaduais de telecomunicações. Em 1982, dez anos após a criação da Telebras, todas as sedes de municípios brasileiros tinham serviço telefônico. E, em 1985, quando Alencastro deixou a presidência do Sistema Telebras, ele contava com 10 milhões de telefones e era, de acordo com relatório do Banco Mundial do ano anterior, o maior sistema telefônico dos países em desenvolvimento e o décimo do mundo.
Mais: Alencastro, militar nacionalista e com visão de futuro, patrocinou a construção do centro de pesquisas e desenvolvimento da Telebras, hoje Fundação CPqD, e montou uma política industrial que forjou a construção de mais de uma centena de empresas. Em 1984, um ano antes de ele deixar a direção da Telebras, as 130 empresas fornecedoras nacionais do setor produziam, internamente, US$ 14,50 para cada dólar importado. Hoje, a balança comercial do setor registra um déficit de US$ 27,3 bilhões.
Mas estória a que me referi no começo, acontece muito antes de tudo isso, quando o jovem engenheiro de telecomunicações José Antonio de Alencastro e Silva, formado com distinção pela Escola Técnica do Exército, depois Instituto Militar de Engenharia, trabalhava na Central de Rádio, no Rio de Janeiro, seu primeiro emprego depois de formado. A Central de Rádio, responsável pela comunicação do comando com as regiões, era subordinada à diretoria de Comunicações do Ministério da Guerra. O chefe de Alencastro era o general Mário Ferreira Barbosa Pinto, um maranhense purista e dono de um português primoroso. Cada vez que Alencastro lhe entregava um relatório, sem cadência e precisão, Barbosa Pinto lhe dizia: “Alencastro, falta música”.
Foi o bordão “Falta música” que fez Alencastro se aplicar no português e aprender a escrever com clareza e concisão. Com o general Barbosa, Alencastro, contava ele, aprendeu outra lição essencial em sua carreira. Aprendeu a decidir. “Quando havia qualquer decisão a ser tomada, ele (Barbosa Pinto) nos reunia e ouvia a opinião de todos. Depois de muita discussão anunciava: ‘esta é a minha decisão’. Ele nunca deixava uma reunião sem ter uma decisão tomada”. O processo de decisão do general Barbosa seria repetido por Alencastro em toda sua vida profissional nas telecomunicações. Suas reuniões gerenciais viriam a ser famosas nas empresas que dirigiu. E lá procedia exatamente da mesma maneira. Todos falavam. No final, Alencastro anunciava sua decisão.
Ouvi essa estória do próprio general Alencastro, quando tive o privilégio de escrever sua biografia, “Alencastro, o General das Telecomunicações”, publicada em 2003, em parceria com a jornalista Patrícia Cornils. Privilégio porque pude conhecer melhor um homem comum e ao mesmo tempo raro, enérgico e terno. Filho de família pobre, virou militar, não por vocação, mas porque era o caminho para o estudo para um jovem órfão, de pai militar. Com a mãe, aprendeu os valores da ética e da sobriedade; com o Exército, a disciplina. O resultado, graças a uma inteligência brilhante especialmente nas ciências exatas, foi um homem que aprendeu que se ensina pelo exemplo, que nunca se beneficiou da coisa pública, que sabia ouvir mas sabia mandar, e soube conduzir sua equipe em direção aos seus objetivos de construir um sistema nacional de telecomunicações. Por isso, era admirado e querido por seus colaboradores no Sistema Telebras, muitos dos quais continuaram seus amigos após sua aposentadoria. “A formação de uma inteligência nacional na área de telecomunicações foi um dos grandes legados de Alencastro. Outro foi o exemplo raro de honestidade e retidão”, afirmava Jorge Jardim Filho, então vice-presidente da Brasil Telecom (operadora que foi comprada pela Oi), na apresentação da biografia.
Alencastro formou uma legião de engenheiros, que o admirava apesar de sua personalidade forte e, às vezes, autoritária, porque nunca combateu em causa própria, porque não tinha agenda pessoal: todos os seus embates buscavam vitórias para o país. E foi assim, sempre. Alencastro se formou engenheiro, em pleno período Vargas, quando o país discutia a necessidade de construção de uma indústria própria de infraestrutura que lhe garantisse a soberania. Como técnico, Alencastro não se envolveu diretamente na militância política. Mas, getulista confesso, participou da campanha “O petróleo é nosso”, apoiou sempre a ala nacionalista do Clube Militar, votou em Lott e foi contra a tentativa de se impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Não gostou dos rumos que tomou o governo João Goulart, pela falta de respeito à hierarquia nas Forças Armadas, mas não participou do golpe militar. Sempre foi legalista.
Pelos seus princípios democráticos, legalistas e de respeito ao bem público, acabou afastado, em 1964, da vice-presidência do Contel, o Conselho Nacional do Telecomunicações. O Contel foi responsável pela elaboração, em 1962, do primeiro marco regulatório do setor de telecomunicações, que vigorou até meados da década de 1980, quando foi aprovada a Lei Geral de Telecomunicações. Alencastro estava entre os formuladores do então Código Geral de Telecomunicações. O afastamento o levou a se desligar do Exército. Sua trajetória política também impôs veto à sua indicação, pelo ministro Higino Corsetti, para presidir a antiga CTB, então a maior empresa de telecomunicações do país recém estatizada. O veto, imposto pelo Serviço Nacional de Informações, o SNI, se baseava numa falácia: Alencastro foi fichado porque trouxe de Porto Alegre uma encomenda (livros) de um antigo companheiro de colégio militar, Pedro Alvarez, oficial do Exército, tido como comunista, exilado e depois cassado, para seu irmão Carlos Alberto Alvarez, coronel aviador da Aeronáutica, também cassado pelo regime militar.
A intriga durou pouco tempo. Corsetti respeitava Alencastro e sabia que sua contribuição seria importante para organizar as telecomunicações no país. Um ano depois do episódio da CTB, no início de 1972, Alencastro seria chamado para presidir a CTMG, a Companhia Telefônica de Minas Gerais. Quando Alencastro chegou em Minas, metade de seus municípios não tinha serviço telefônico. Em dois anos, construiu uma empresa moderna, enxuta, com adoção de novas tecnologias e espaço para jovens engenheiros. Era o embrião da Telemig que virou referência para as demais empresas do Sistema Telebras, criado em 1972, sob o comando de Euclides Quandt de Oliveira. Com Quandt transferido para o Ministério das Comunicações, Alencastro foi chamado a levar à frente a tarefa de por de pé o Sistema Telebras, o que fez com muita competência.
Assim, ao contrário do que afirmava o bordão do general Barbosa Pinto, da Diretoria de Comunicações do Ministério da Guerra, não faltou música à vida profissional do general Alencastro. Ela foi marcada por cadência, clareza de objetivos e estratégia para a conquista das metas definidas.
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