Governo inicia revisão de política de semicondutores e retoma projeto de fábrica de displays


O governo iniciou a revisão da Programa Federal de Apoio à Indústria de Semicondutores (Padis) e do CI Brasil, parceria do governo federal e setor acadêmico para desenvolver a indústria de microinformática no Brasil. A avaliação do que avançou, mesmo que pouco, do que não avançou e do que precisa mudar será feita pela Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), contratada pela Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). O estudo, previsto para ser concluído em março, servirá de base às propostas para o programa de política industrial TI Maior, conforme explica Ricardo Gonzaga Martins de Araújo, especialista em projetos da ABDI e que faz parte de um grupo de estudos montado na esfera federal para desenvolvimento da política industrial de eletrônicos.

Por hora, se delineiam dois grandes objetivos como meta para o programa. O primeiro deles é fazer com que as design houses que existem hoje, em grande parte criadas pelos programas, avancem para se tornarem pequenas foundries, ou seja, desenvolvedoras de projetos de semicondutores, mas que detêm a propriedade intelectual e têm aí seu principal ativo – a maior expoente do modelo foundry é a Qualcomm. As foundries poderiam passar a enviar os projetos para os de fabricantes de semicondutores do país, a SIX e a HT Micron, por exemplo. De acordo com Araújo, a mudança do sócio da SIX (sai Eike Batista e entra o capital argentino) deve atrasar o início da produção em quatro meses, o que significa inauguração na metade de 2015. Em outubro do ano passado, a HT Micron recebeu as chaves do prédio, em São Leopoldo (RS), onde será instalada sua fábrica de semicondutores.

O segundo desejo do governo é retomar as prospecções para a construção de uma fábrica de
displays no Brasil. Isso porque o aumento contínuo do consumo de telas planas é um dos importantes fatores para o déficit da balança comercial brasileira de eletrônicos. Em 2011, o governo tentou convencer a Foxconn a fazê-lo, mas recebeu a negativa da chinesa. Agora, diz Araújo, a situação é diferente e o governo deve pedir à gigante de produção OEM o aumento do valor agregado na produção local. “Agora, eles já estão aqui, instalados, então é uma coisa gradativa”, afirmou o especialista em projetos da ABDI.

Segundo ele, o governo já vem trabalhando em um plano para atração de uma multinacional – que envolve investimento do BNDES, Finep ede um investidor nacional -, mas sabe que precisa resolver outras questões para garantir a atratividade. “Precisamos de técnicos capazes, de uma estrutura de capital para atrair o investimento, porque ninguém fará isso sozinho”, afirma Araújo. Ele explica que o CTI de Campinas já tem algum desenvolvimento de displays e alguma mão de obra qualificada: “Não é uma mão de obra disponível para montar uma fábrica, mas já há possibilidade de ter formação teórica inicial para então concluir com uma formação fora do país”, diz.

Desafios
Araújo não deixa de apontar os muitos desafios para o país, caso queira uma indústria em processo de estruturação da cadeia produtiva de eletrônicos. Em primeiro lugar, o Brasil ainda conta com parcos 550 engenheiros projetistas. Só a título de comparação, a Índiatem algo entre 25 mil e 35 mil projetistas de chips. “As pessoas vão criticar o CI Brasil, mas hoje temos alguma coisa. Podemos discutir que a velocidade de formação de pessoas não é a adequada”, reflete. No caso das poucas design houses, muitas são mantidas via bolsa de pesquisa, são organizações sem fins lucrativos, que dificilmente encontram clientes. “Talvez seja o efeito perverso da Lei de Informática. As empresas aqui no Brasil não pedem projetos, compram o kit pronto para montagem na China”, diz Araújo. Um dos grandes desafios é, então, inverter essa lógica.

Já para o desenvolvimento do modelo de foundry, é preciso garantir alto volume de investimentos, o que exige linhas de financiamento. No mundo chamado desenvolvido, projetos de desenvolvimento de chips encontram apoio no venture capital. Aqui, alega Araújo, é preciso ter apoio do BNDES, Createc e etc. Ainda, é preciso fazer alterações no PADIS para criar um mecanismo que permita a migração das design houses para o modelo foundries.

Para a atração de uma fábrica de displays para o Brasil, o governo precisa resolver a questão do financiamento – não foi fácil encontrar um sócio para a planta de semicondutores e a entrada de capital argentino na SIX demonstra que, com o fim do sonho de empresário arrojado que Eike Batista representava, pode não ter restado alternativa nacional.

Além disso, os debates entre os envolvidos em um desenho de proposta de política industrial de eletrônicos não chegaram a uma conclusão sobre qual tecnologia de display se pretende atrair: a de LED, que começa a cair no mundo, ou a de OLED, tendência mundial e que permite a fabricação de telas curvas e flexíveis. “O preço das telas de LED começa a cair, então seria um investimento menor, mas ainda há muito mercado para essa tecnologia. A OLED é o futuro, mas seria um investimento de risco, que requereria investimento muito maior”, aponta Araújo.
 

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