Games: para se fortalecer, indústria brasileira precisa de linha de financiamento sob medida


 

Crédito: Divulgação Aquiris Games Studio
Crédito: Divulgação Aquiris Games Studio

Para transformar o Brasil num produtor mundial de jogos digitais, que contam com um relevante conteúdo de conhecimento científico e tecnológico, são artefatos culturais com elevado potencial de mobilização social e cognitiva e podem ser uma fonte importante de divisas, o caminho a percorrer é longo e árduo. Embora as empresas nacionais dedicadas à produção de games tenham se multiplicado nos últimos cinco anos, graças especialmente à democratização da infraestrutura de comunicação e à melhoria da conexão, elas ainda padecem das mesmas deficiência verificadas em pesquisa realizada em 2005. São em geral micro e pequenas empresas, com gestão pouco profissional, sem recursos e com dificuldades de acesso às linhas de financiamento disponíveis no mercado, mesmo as do BNDES e Finep.

Para reverter esse quadro e traçar uma política que permita ao Brasil participar, de forma ativa, de um mercado que deve atingir US$ 82 bilhões em nível mundial em 2015, de acordo com as projeções da PricewaterhouseCoopers, o BNDES encomendou uma pesquisa à USP e realizou em seminário, em março, no Rio de Janeiro, que debateu também um capítulo relativo às políticas públicas necessárias para fazer desta indústria nascente e debilitada uma indústria com músculos. O resultado é um rol de recomendações, que passa por políticas de estímulo, de financiamento, de formação de recursos humanos, de profissionalização das empresas. Mas o mais importante, na avaliação de Fernando Chamis, diretor da Abragames, uma das duas entidades de âmbito nacional da indústria do setor, é que nunca tinha sido feito um estudo tão abrangente. “Agora temos dados para ir discutir com os agentes públicos e privados”, afirma ele.

O levantamento realizado junto a 133 desenvolvedores não trouxe grandes novidades, apesar de seu alcance. Trata-se de uma indústria nascente, concentrada em São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, com um polo de expressão no Recife em função da articulação do Porto Digital. São empresas de pequeno porte (74,4%), com faturamento anual de até R$ 240 mil, com menos de cinco anos em sua maioria e com deficiências na gestão empresarial. Só 4% do universo pesquisado registram faturamento superior a R$ 2,4 milhões e inferior a R$ 16 milhões. Embora se dediquem às diferentes modalidades de jogos estudados — pela web e para dispositivos móveis, consoles e PC, distribuição pela internet e jogos educativos, para as áreas de saúde e segurança, entre outros –, a maioria dos produtos que desenvolvem (mais de 40% do portfólio) são jogos educativos, muitos sob encomenda, ou jogos para entretenimento pelo canal web.

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Políticas públicas

Após analisar as políticas dos que dominam os jogos de classe mundial e são donos dos grandes hubs (Estados Unidos, Canadá, Japão e Reino Unido), dos países competidores (Coreia, França, Austrália e países escandinavos) e dos novos entrantes (China, Índia e países do Leste europeu), o grupo de estudos de políticas públicas desenvolveu propostas que foram submetidas a uma avaliação de um conjunto de agentes. Como resultado, foram definidas nove linhas de ação pela ordem de importância, a serem desenvolvidos num prazo de até dois anos e meio.

A política considerada de maior eficácia e de maior importância é o apoio e financiamento de desenvolvimento de protótipos originais até o ponto de comercialização. Em seguida vêm a realização de eventos de match making para aproximação de desenvolvedores e aceleradoras (mesmo incipiente, a indústria de games no país em resultado do apoio de incubadoras, em sua maioria públicas); subvenção, com pequenos aportes, para desenvolvimento de demos, protótipos, etc.; realização de chamadas específicas para jogos digitais no âmbito dos programas existentes de apoio a incubadoras, aceleradoras e parques tecnológicos: criação de programas de atração e retenção de empresas líderes internacionais da indústria; subvenção, com exigência de contrapartidas, para empresas em fase de consolidação; programa de avaliação por especialistas da viabilidade comercial dos protótipos; prêmios e concursos de jogos originais; e empréstimos para contratação de consultorias de suporte em marketing, entre outros.

O elenco é longo e cada ação foi subdividida em várias atividades. Para o economista Paulo Tigre, professor da UFRJ e que integrou o grupo de políticas públicas, este é um segmento de mercado no qual o país poderá dar um salto relevante, embora o cenário atual não recomende otimismo. “Temos grandes condições de avançar. Mas, em primeiro lugar, é preciso que a indústria se organize para exercer legítimo poder de pressão sobre os agentes públicos para o desenvolvimento das políticas recomendadas”, avalia. Para Chamis, da Abragames, o setor enfrenta dificuldades para se organizar até em função da falta de recursos. “Mas já avançamos. O fato de o BNDES ter promovido um seminário desse tipo é um indicador de que começam a dar importância para a indústria de jogos. Ou seja, já há sensibilidade para pressionarmos para uma linha de financiamento fora da indústria de software, por exemplo, que contemple nossas especificidades”, diz. Da mesma forma que avançaram nas conversas com o BNDES, ele diz que também a Ancine, agência reguladora do setor de audiovisual, começa a olhar para a indústria de games. “Precisamos estar dentro de seus editais”, diz ele.

Se o caminho do amadurecimento da indústria nacional de games é longo, ele tem que passar, necessariamente, pelo crescimento do segmento dos chamados serious games, ou seja, os jogos que não são voltados ao entretenimento, mas à educação, ao treinamento, à saúde, à segurança. Na avaliação de Paulo Tigre, é neste segmento que os governos podem gerar demanda, que vão alavancar o desenvolvimento da indústria em outros segmentos, como o de entretenimento. Tigre não acredita que a indústria nacional de games possa se desenvolver na direção dos jogos de classe mundial para consoles e PCs. “Este segmento envolve elevadíssimos investimentos, sistemas proprietários, além disso é uma indústria madura e em estabilização sem espaço para novos entrantes. Vejo que as oportunidades do país estão nos serious games e nos jogos para web e dispositivos móveis”, imagina ele.

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