Frequência e backhaul, dois desafios da LTE.


A LTE traz vantagens, mas também grandes desafios para as operadoras, diz Ken Wirth, presidente de Redes 4G/LTE da Alcatel-Lucent,  que aponta como desafios a necessidade de muita banda e de espectro, muitos investimentos em backhaul e, principalmente, mudança de atitude, de maneira a também poderem ganhar receitas com os serviços “over the top”.

 

 

 

A quarta geração da telefonia móvel, a LTE, começa a ser implantada paulatinamente pelas grandes operadoras globais, entre elas a norte-americana Verizon. Para Ken Wirth, presidente de Redes 4G/LTE da Alcatel-Lucent, esta nova tecnologia tem como vantagem frente às versões anteriores ser, mesmo toda IP, e conseguir unificar os padrões de mercado existentes (UMTS, CDMA, etc.). Mas, alerta o executivo, ela traz também grandes desafios para as operadoras: necessidade de muita banda e de espectro, muitos investimentos em backhaul e, principalmente, mudança de atitude, de maneira a também poderem ganhar receitas com os serviços “over the top”.

Conforme suas projeções, com o desenvolvimento do mercado máquina a máquina (M2M), que vai ocorrer quando os smartphones estiverem bem mais baratos, cada usuário deverá ter pelo menos cinco a seis diferentes aparelhos de celular.

Tele.SínteseQuais são os desafios da LTE (Long Term Evolution), a quarta geração do celular?
Ken Wirth – Temos observado que está sendo muito tranquila a implementação desta nova tecnologia, seja de rádio, seja LTE fim-a fim. Mas há alguns desafios para os quais as operadoras precisam se preparar.

Tele.SínteseQuais seriam eles?
Wirth
– O primeiro, a necessidade por espectro. As operadoras precisam ter suas frequências para deixar a LTE usar toda as suas habilidades.


Tele.Síntese
Qual é o mínimo de banda indispensável para a LTE?
Wirth – O mínimo seria 5 MHz de espectro. Mas, para otimizar toda a tecnologia, o ótimo é de pelo menos 20 MHz (10 MHz para o uplink e 10 MHz para o downlink). Espectro é realmente imprescindível para que as operadoras consigam oferecer bons serviços a seus clientes. A outra coisa muito importante é como se consegue este espectro.


Tele.Síntese
Por que?
Wirth As alternativas de hoje são conseguir o espectro do governo, o que, geralmente, significa que o governo terá que liberar frequências atualmente ocupadas, o que custa dinheiro. A segunda alternativa é o “refarming”. E como se faz esta reutilização de espectro? Fizemos anúncios recentes nesta direção, de maneira a ajudar a melhorar a atuação das operadoras. Um outro quesito importante para a prestadora não está relacionado com a tecnologia, mas refere-se ao planejamento da rede.


Tele.Síntese
Como assim?
Wirth – Encontrei muitas operadoras que estão “estranguladas”pelo backhaul. E backhaul deve ser a segunda fonte de preocupação, pois há um crescimento enorme nas redes de transmissão e, com a LTE, esta demanda vai aumentar. Ter backhaul que sustente o ingresso da LTE é também uma das chaves. A terceira recomendação é para as operadoras olharem as redes de maneira diferente. Tradicionalmente, as operadoras têm expertises em radio, transmissão, em switching, e se organizam desta forma. Agora, com a LTE, que é realmente uma rede toda IP, há uma mudança completa na dinâmica. É preciso ver a performance por toda a rede, além de se organizar em volta das redes.


Tele.Síntese
As soluções que os países estão encontrando para receber a LTE em suas frequências estão sendo diferentes mundo afora. Não acha este um problema para a concretização desta tecnologia?
Wirth – Esta é mesmo uma complexidade. Posso dizer que nos últimos 18 meses tivemos que receber mais frequências em nossas soluções LTE do que a 2G e 3G receberam em oito anos.


Tele.Síntese
No final, por causa de tanta diversidade, os equipamentos não ficarão mais caros?
Wirth – Nos custa uma grande quantidade de dinheiro para incluirmos tantas bandas diferentes em nossos equipamentos. Mas o outro lado da moeda também é verdadeiro, quando se olha para o sistema como um todo. Agora, pela primeira vez em todo o globo há um único padrão, baseado na LTE. Pode haver versões diferentes, mas um único padrão. A LTE congrega os mercados de GSM, de UMTS, e o mercado do CDMA, que estão todos consolidados. Isso também permitirá que os fabricantes de aparelhos  tenham mais flexibilidade para aportar as diferentes faixas.


Tele.Síntese
Ouvimos falar da LTE há cerca de cinco anos. Havia um problema sério, pois  a rede 3G não conseguia “falar”com a LTE. Isto já foi resolvido? Como?
Wirth –  A primeira premissa de nossos clientes é: “vocês têm que fazer com que a tecnologia fique interoperável com as minhas redes de 3G e 2G existentes”. E a razão para isso é que, mesmo uma grande carrier, como a Verizon, que atua em todo os Estados Unidos, não pode implantar a LTE tão rapidamente. A Verizon instalou a quarta geração em 38 mercados no primeiro ano e irá implantar a tecnologia em  140 novos mercados este ano. Só se consegue a cobertura de todo o país em um prazo mínimo de três anos pois há limitações físicas.
Assim, por exemplo, na cidade de Nova Iorque, a LTE está implementada, mas quando nos aproximamos da borda da célula, precisamos voltar para as tecnologias 3G para que a experiência do usuário – seja voz, seja acesso à internet- seja mantida. Assim, a interoperabilidade entre a LTE, CDMA e HSPA é crítica. Fazemos um trabalho interno nas redes das operadoras que lançam a LTE para que haja a interoperabilidade com as outras tecnologias.


Tele.Síntese – Qual a sua expectativa para a LTE na América Latina? Estão sendo realizados alguns trials, não?

Wirth  – Sim, nós estamos participando de alguns testes na América Latina, por exemplo, no México. Sei que está havendo muita discussão sob o ponto de vista da política pública sobre se o espectro a ser reservado deve ser de 700, 800 MHz, e estão sendo debatidas recomendações para este uso.


Tele.Síntese
Qual a sua avaliação sobre a faixa de 2,5 GHz? Ela também foi destinada para o celular pela UIT, e deverá ser leiloada este ano no Brasil pela Anatel.
Wirth – Toda a vez que se sobe no espectro de frequência, a cobertura e principalmente a cobertura interna, não é tão boa. Nós já suportamos a banda de 2,6 GHz, o que significa que poderemos suportar também a de 2,5 GHz.  Quando descemos nas frequências-  para 700, 800 ou 900 MHz- podemos dobrar as capacidades.


Tele.Síntese – No Brasil, o espectro de 700 MHz está ocupado pela TV aberta. Embora o governo tenha estabelecido a data de 2016 para a devolução de parte dessa faixa, não acredito que isto ocorrerá, pelo menos neste prazo.

Wirth  – Nos Estados Unidos, a faixa de 700 MHz também estava ocupada pelas TVs analógicas, mas o governo conseguiu as bandas de volta e as vendeu muito bem. A Europa está fazendo algo parecido, na faixa de 800 MHz, que era a destinada para as TVs, no “plano do dividendo digital europeu”, em alguns países. Mas a chave para esta questão é que, se for a faixa de 700 MHz ou a de 2,6 GHz pode-se fazer funcionar a LTE. Nós podemos fazer com que a performance seja muito boa. Mas o Capex das operadoras em faixas mais baixas é menor.

Tele.Síntese – As operadoras em todo o mundo reagem ao fato de que têm que aumentar investimentos para os serviços “over the top” ganharem as receitas. Como imagina que elas devem administrar esta questão?
Wirth – As operadoras estão agora discutindo sobre como elas vão controlar seus próprios destinos versus serem as “vítimas”de tempos atrás. Estão se conscientizando que, se se transformarem em vítimas não conseguirão resolver seus negócios. Assim, as operadoras estão se mobilizando para saber como participam dos dólares gerados nessa nova cadeia de valor.

Tele.Síntese – Acredita que as operadoras estão mesmo encontrando novos caminhos?
Wirth  – Sim. Dois terços dos provedores de aplicações constroem serviços sobre as plataformas dos clientes, e nós consigamos mapear um modelo de negócios relacionado a esses desenvolvimentos. Toda a vez que uma aplicação entra em uma rede de telecom para uma localização de GPS, por exemplo, pode haver um preço para isto. É um valor muito pequeno, mas a questão é que ele acontece inúmeras vezes, sem parar. Acreditamos que uma das respostas  está na publicidade. Para nós, a publicidade móvel vai criar uma nova fonte de receita a qual as operadoras poderão participar.

Tele.Síntese – Você acha que o usuário do celular vai querer receber anúncio em seu aparelho?
Wirth – Isso pode ser feito em fatias. Por exemplo, nos serviços mais básicos pode-se inserir os anúncios, mas se o consumidor não quiser receber os anúncios, ele poderá ir para um outro nível de serviço, e assim por diante. A terceira área onde vejo movimentação é que as operadoras de celular não querem ser os provedores de internet (como as operadoras fixas acabaram se transformando), mas querem criar valor nos servidores que os usuários usam em sua rede móvel. Se olharmos no site da Verizon, ela oferece para a LTE três tipos de planos de serviço para a comunicação de dados, por um preço “X’, oferta essa baseada na capacidade. Exemplo, acho que 5 Gbps correspondem a US$ 50 por mês e acima disto ela cobra por consumo de gigabits. A operadora, com isso, está mudando o comportamento do cliente, pois não oferece uma acesso ilimitado à comunicação de dados.

Tele.Síntese – Você acredita que a estratégia de controlar o consumo funciona?
Wirth – Se tomarmos como exemplo a Verizon, parece que sim. No primeiro dia do lançamento da LTE, conquistou 19 mil clientes com esses planos. Mas o mais importante é saber onde as operadoras querem estar. E elas querem oferecer um conjunto de serviços que signifiquem valor para os consumidores, a ponto de quererem pagar por isso. Se eu estiver em um jogo de futebol com o meu filho e há outro jogo também interessante ocorrendo no mesmo horário, eu posso receber, pelo meu smartphone, um vídeo stream ao vivo deste outro jogo. Isto é algo que o cliente vai querer pagar e é conhecido como “modelo por clique”, e  haverá uma taxa associada. Em entretenimento e  vídeos e filmes em alta definição, acho que este modelo irá funcionar muito bem.

Tele.Síntese – Na feira de Barcelona deste ano, que reúne as principais tendências do mundo móvel, ouvimos muito pouco sobre as soluções M2M (maquina a máquina). A indústria está abandonando  esta linha de mercado?
Wirth – Não. M2M é uma área chave e para a qual nós estamos nos focando bastante. Nós temos algumas pesquisas nessa direção, como a cloud computing. Acreditamos que os PCs vão embora e terão cada vez menos memórias. Outra área que apostamos muito na M2M é a área de saúde. Neste segmento não vemos uma relação entre a operadora e o paciente, mas entre a operadora e o centro de saúde. Serviços de máquina a máquina ganharão mais corpo quando os aparelhos de celular e os seus chips forem muito mais baratos. Aí eles passarão a ser usados em casa, para a segurança; para cuidar da luz ou para mandar sinais para os aparelhos elétricos. M2M trará uma variedade de opções.
Conforme estimativas, haverá de cinco a seis aparelhos de celular para cada indivíduo. Hoje, muitas pessoas já têm o smartphone, um lap top, um tablet, e haverá outros aparelhos para o carro, casa, etc.

Tele.Síntese – Socorro…
Wirth – Se forem cinco aparelhos diferentes com os quais teremos que nos preocupar, realmente não será nada bom. Mas não é essa a aposta da LTE.

Anterior Alcatel-Lucent patrocina programa de inclusão digital com fundo de US$ 6 milhões
Próximos Copel amplia capacidade de transmissão de sua rede para atender a demanda