Fragmentação das redes multisserviços: a queda-de-braço do fair value.


{mosimage}Vem aí a TV digital. Com ela, através de uma única infra-estrutura de TVD, tecnologias convergentes permitirão a transmissão simultânea de serviços multimída via internet. Tudo através de um único terminal de acesso. Mas, alerta Luiz Fernando Maluf, diretor da Sun, o custo do licenciamento pode fragmentar os serviços.

 

Falta menos de um ano para a estréia do nosso sistema de TV digital. A data-tentativa é 3 de dezembro, quando as primeiras transmissões com essa tecnologia devem ganhar o ar, e chegar aos lares de um grupo ainda pequeno de privilegiados  cidadãos paulistas.

Nem todos perceberam a dimensão desta nova fase que estamos iniciando. Através de uma única infra-estrutura de TV digital, o uso de tecnologias convergentes permite a transmissão simultânea de serviços de voz (rádio digital, telefonia ou serviços de correio de voz), imagem, comunicação de dados, mensageria e navegação via internet. Esses serviços são ainda acrescidos de um enorme portfólio de aplicações interativas para jogos eletrônicos, atendimento público e sistemas empresariais, geradas pela indústria de software de  conteúdo ou por entidades governamentais. Todas elas serão ofertadas aos cidadãos, através de um único terminal de acesso – um monitor digital, que poderá interagir com todos os demais dispositivos de rede, como computadores, telefones celulares, PDAs e, em última análise, vários tipos de eletrodomésticos.

Pesquisadores e empreendedores em todo o mundo ainda tentam identificar os diferentes modelos de negócios – absolutamente inovadores – que poderão ser implementados nesta complexa infra-estrutura. Tipicamente, um sistema aberto de transmissão de TV digital é, na sua essência, uma rede multisserviços. Todavia, essa espantosa tecnologia, embora conte com menores barreiras culturais decorrentes do legado da televisão analógica, deverá enfrentar barreiras de entrada significativas, relacionadas, principalmente, com os custos do licenciamento de uso (royalties) das tecnologias convergentes que, em última análise, serão transferidos aos usuários.

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A única forma desta rede convergente fornecer toda a diversidade de serviços disponíveis de uma forma contínua, evitando a fragmentação dos serviços, será através da utilização simultânea de um conjunto de padrões de facto, de uso aberto, ou proprietários, que demandam licenciamento de uso pelos seus desenvolvedores. Estamos falando de um conjundo de várias dezenas de padrões, passando por DVD, MPEG4, MP3, Blue Ray,  máquinas virtuais, tecnologias associadas ao ambiente MHP (Multimedia Home Platform), e varias outras plataformas. Muitas vezes, o custo composto de licenciamento dessas tecnologias soma mais de 75% do valor do dispositivo ou serviço que será ofertado ao cidadão.

Alguns países ja se anteciparam a este problema, iniciando uma ampla revisão das políticas de licenciamento utilizadas por empresas ou consórcios. O termo mais ouvido neste sentido é a expressao em inglês fair value, ou valor razoável. A China foi a pioneira nesse processo que, ao se deparar com a quebra de centenas de fornecedores de dispositivos de I/O de computadores baseados no padrão DVD, optou por definir um padrão nacional (EVD), fugindo de royalties que correspondiam a cerca de 65 % do produto manufaturado.

Por mais irônico que possa parecer, a diversidade da rede multisserviços é, ao mesmo tempo, a sua maior inimiga, pois multiplica por várias vezes o custo associado à utilização das tecnologias licenciadas, que convivem e interagem simultaneamente neste complexo ecossistema.

A batalha iniciada pela China logo encontrará novos participantes, dentre eles certamente o Brasil e a Índia, países onde a limitada renda para o consumo poderá afetar significativamente o ganho de escala na implementação desta infra-estrutura. 

Considerando que muitos destes países vêem na TV digital um dos passos mais estratégicos para acelerar a inclusão de populações hoje excluídas da rede, nós podemos esperar um acirramento desta discussão nos próximos seis meses.

Agências reguladoras e órgãos governamentais não devem se eximir desse debate, buscando viabilizar uma rede multisserviços que ofereça aos cidadãos opção de escolha, diversidade de serviços, competitividade entre os provedores, e sobretudo, preços razoáveis.

Removendo as barreiras de acesso e trazendo milhões de usuários para a rede, ganham todos: provedores, desenvolvedores de conteúdo, operadoras de telecomunicações e fornecedores de infra-estrutura. Nao há como fugir à lógica da maximização da escala.


Luiz Fernando Maluf é engenheiro e Diretor da Sun Microsystems do Brasil.

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