Para presidente da NET, mercado não pode ser aberto à revelia da lei.


O presidente da NET, José Antonio Felix, está convencido que a abertura de mercado de TV a cabo sugerida pela Anatel – sem licitação ou demarcação de áreas de concessão – é uma proposta para as teles entrarem nesse segmento “à revelia da lei”. E argumenta que a abertura de mercado sem regras pode destruir o negócio de todas as empresas. Assinala que o STFC (telefonia fixa) tem licenças ilimitadas, mas as pequenas empresas não provocaram qualquer estrago no monopólio das grandes concessionárias, o que, no seu entender, demonstra que esta alternativa não estimula efetivamente a competição. Enquanto as novas regras não vem, a operadora prepara-se para ingressar no mundo da mobilidade, com tecnologias que permitirão o cliente a levar a NET para qualquer ponto do país.

Tele.Síntese – O mercado de TV por assinatura no primeiro semestre cresceu 12%. E a Net, cresceu quanto?
José Antônio Felix – Boa pergunta, acho que é por aí.

Tele.Síntese –
Qual a expectativa para o segundo semestre?
Felix – A gente não dá guidance, mas acho que a gente não tem porque não fazer, em números absolutos, o mesmo número do ano passado. No mês de junho, o último do segundo trimestre, já foi mês de venda bem agressivo, julho repetiu este desempenho, foi muito bom em volume de vendas de pay TV, de banda larga e de telefone. Por isso, acredito que vamos repetir o ano em termos absolutos de venda. É preciso entender que manter crescimento de 100%, de 50%, quanto maior a empresa, fica mais difícil repetir percentualmente a mágica.

Tele.Síntese – Como você analisa o desempenho do DTH, que está puxando o crescimento da TV paga?
Felix – Eu acho bacana, porque significa que o negócio tem apelo, não é dependente da tecnologia, prova que DTH é competitivo também, porque se não fosse, as pessoas não comprariam. Incomoda em algum sentido, afinal são vários novos concorrentes – podiam vir um de cada vez e não todos simultaneamente para cima da gente, querendo de algum modo capturar um pedaço do bolo, que é limitado. E a NET está seguindo a vida dela, se posicionando como uma empresa que inova no valor que traz para o assinante. Mas a NET não inova por inovar. Tanto que, quando trouxemos a banda larga de 60 Mbps, eu fui o primeiro a dizer: isso aqui é para a gente brincar, para entender se tem demanda. Passados muitos meses é que a gente colocou na prateleira o portfólio de 20, 50 e 100 Mbps.

Tele.Síntese – No ano passado, você disse que brasileiro não consumia banda acima de 10 Mbps. O que mudou?
Felix – Várias coisas aconteceram. Primeiro, mudou o perfil de consumo, as pessoas estão consumindo muito vídeo e isso mudou o tráfego na rede. O perfil de uso mudou, as pessoas acessam mais vídeo e isso demanda mais tráfego.

Tele.Síntese – E por que você acha que mudou?
Felix– A internet como um todo deu uma melhorada, os portais investiram mais em servidores. Antes, anunciavam “eu vou transmitir os jogos do Brasil na internet” e aí, meia dúzia clicava e caía. Engargalava tudo, ninguém via nada. Acho que todo mundo que fornece conteúdo, pelo menos os mais conhecidos, investiu em infraestrutura de servidor, de aplicativo. Todos estão mais interessados em aumentar a qualidade e aí, o consumo aumenta. O You Tube é um sucesso…

Tele.Síntese – Por que a NET está com tão pouca programação em HD?
Felix – Não está. A Net tem mais de 20 canais…

Tele.Síntese – Em relação ao DTH qual a estratégia da NET para enfrentar a competição, que tem crescido?
Felix – Vejo com alegria, afinal, é um negócio que mostra que a TV por assinatura é desejada e que a tecnologia do cabo não é á única, porque o DTH serve perfeitamente para um país como o nosso, com as dimensões que tem. A gente acredita que o crescimento do DTH tem se dado muito em regiões não atendidas pelo cabo. O crescimento mais expressivo do DTH se dá no Nordeste, no Norte, onde a NET não opera. É obvio que o melhor regime seria o ‘quanto menos, melhor’ não estamos desesperados em função do DTH. Aliás, nós somos líderes em high definition, nós temos mais que o dobro de HD do que o segundo colocado em participação de mercado.

Tele.Síntese – O investimento anunciado pela NET para este ano, de R$ 1,2 bilhão, está confirmado? E onde estão sendo aplicados os recursos?
Felix – Sim, estão confirmados e nós estamos colocando o dinheiro em expansão de rede, em cobertura, estamos bidirecionalizando mais a nossa rede porque ela originalmente foi feita para TV e, quando se coloca banda larga e telefonia tem que bidirecionalizar. Será também usado no lançamento de novos produtos e na aquisição de novos clientes.

Tele.Síntese – Você não cobra pelo pacote de HD?
Felix – Tenho que cobrar, senão eu quebro. É essa minha briga com os programadores. Este diz: ‘Felix eu tenho duas despesas, tenho que criar uma programação diferente’. E eu digo, não quero programação diferente, quero aquela mesma programação em HD. Aí dizem: ‘mas não é assim que funciona, você quer criar no Brasil um modelo de negócio que não existe.’ Bem, com isso eu tentei ao máximo não transferir ônus para o assinante, acho que o programador tem que entrar com a parte dele.

Tele.Síntese – E você está conseguindo negociar?
Felix – Com alguns sim, com outros não. Com os que não consigo, tenho brigado muito e tentamos chegar num consenso – quando vejo que faz sentido a reivindicação, assumo o problema e fazemos uma negociação diferente.

Tele.Síntese – Você acha que a cadeia de valor está mudando? Hoje, no mundo das teles apareceu o aparelho Iphone carregando uma parte da cadeia de valor. Com o lançamento desses aparelhos de TV que permitem a banda larga, o conteúdo, tem gente que acha que os fabricantes de aparelhos de TV é que vão definir quem entra na casa dos telespectardores. Você está preocupado com isso?
Felix – Eu acho que existe uma possibilidade sim, que é a do over the top. Se vai mudar ou não é a grande questão. Ou seja, vai-se usar uma infraestrutura de terceiros pela qual não se pagou, não se fez nada para ter aquela infra e vai competir com quem investiu e disponibilizou aquela infraestrutura.

A grande discussão é essa. O cara diz: ‘ eu também te ajudo na medida em que torno a internet mais desejada, e você vende mais banda larga’ . É o caso do Google, é o cara que bota o You Tube em cima de uma rede que não é dele e disponibiliza na casa de um assinante que não é dele também. Ele não fez absolutamente nada a não ser criar o conteúdo. É a preocupação dos programadores, porque este cara pode destruir um negócio.

Tele.Síntese – Na TV a cabo você acha que esse risco existe?
Felix – Essa é a grande pergunta de todo mundo que faz programação. Eu acho que não, porque é mais ou menos o que a gente discutia: como você remunera quem faz esse conteúdo? Pelo que estou vendo, o assinante não está a fim de pagar, já paga a banda larga, quer receber o resto de graça. Se não tiver um modelo de negócio consistente, como remunerar quem faz o conteúdo? A qualidade tende a baixar e chega a um ponto que destrói tudo, cria uma nova oportunidade, e volta tudo como era antes, volta ao modelo antigo. Por isso, no limite, respondo a sua pergunta, dizendo que eu acho que não acontece. Se o cara disponibiliza na rede aberta da internet o desenho animado que ele cobra de mim e eu, para poder pagar a ele, tenho que cobrar do assinante, e se ele vive do que eu pago a ele, destrói o valor dele mesmo ao disponibilizar o desenho grátis na internet.

Tele.Síntese – Como a NET está se colocando nesse novo mundo, ela vai para fora da residência das pessoas?
Felix – Eu entendo que as pessoas acham isso importante. A NET é uma empresa que, primeiro, tem que ocupar a casa. No instante em que ocupa, tem que disponibilizar mobilidade..

Tele.Síntese – De que forma?
Felix – Wi-Fi. Por que as pessoas gostam, amam.

Tele.Síntese – Você vai entrar no mundo da informática?
Felix – É difícil eu diferenciar esses mundos .. Para eu disponibilizar o filme no seu iPad, que é o que eu quero fazer, e é o que a gente apresentou na ABTA, tudo é informática. Eu tenho que converter o sinal em IP, trafegar para o Wi-Fi porque o iPad funciona em Wi-Fi, tenho que fazer integrações de software com o iPad, tem que ter um aplicativo, tenho que integrar isso com o meu billing, tenho que pagar direitos autorais. O primeiro passo é eu disponibilizar toda essa conectividade dentro de casa, mas o assinante gosta de sair e ter sua banda larga. A gente está analisando esse comportamento e vendo tecnologicamente como atender essa demanda.

Tele.Síntese – Qual é o produto a ser lançado? Vai vender Ipad em comodato?
Felix – Te darei o direito, pela internet, de ter mais do que o computador. Você vai poder levar o celular e acessar o serviço da NET em outras cidades.

Tele.Síntese – Após o movimento da Embratel, com a sua oferta de compra das ações preferenciais em poder do mercado e a possível aprovação do PL 116, você imagina a NET integrada?
Felix – É uma discussão que tem que ser feita com o acionista. Conceitualmente, pode-se perguntar qual valor que agrega, quando uma empresa quer continuar a crescer. As empresas independentes são mais rápidas, investem focadas, priorizam o que tem. O ganho da empresa independente é crescer mais rápido. No outro cenário, se economiza em ativos, no management, no desenvolvimento, no ganho de escala com determinados fornecedores. Na hora que os ganhos forem maiores do que manter a agilidade e a inovação, aí, se consolida. É uma decisão puramente do acionista.

Tele.Síntese – A reação dos players de TV por assinatura à proposta da Anatel de abrir o mercado de TV a cabo não é igual à reação das incumbents de telefonia em outros segmentos?
Felix- Existe a incoerência. Existe uma lei que estabelece de forma muito clara que empresas de telefonia – essas incumbents – não podem fazer TV a cabo. TV por assinatura elas fazem e parecem que estão com bastante sucesso. Há toda uma legislação que tem uma razão de ser. Ninguém é contra a ideia de trazer novos players para o mercado. Também achamos que tem que ter solução para mercados não competitivos. Mas do jeito que está não dá. Os grandes grupos faturam R$ 40 bi cada um e a NET fatura R$ 5 bilhões de receita líquida, com margem muito menor.

Tele.Síntese – A sua empresa não faz parte de um grande grupo de telecom (a Telmex)?
Felix – Esse grupo é controlador, mas não faz parte da empresa. Do jeito que está dá a impressão que a proposta da Anatel é para as teles entrarem à revelia da lei. Se elas entrassem onde não tem TV a cabo, eu teria que eventualmente calar a boca. Mas não, já sabemos onde elas querem entrar. E maior prova disso é a lista das cidades para onde foram feitos os pedidos que estão sendo processados pela Anatel. Tem uma empresa que pediu para prestar o serviço exatamente em todas as cidades onde a NET está. É brincadeira!

Tele.Síntese – Mas a Anatel pretende ampliar a competição no segmento..
Felix –Não pode falar “estou fazendo isso” para haver mais competição, ignorando o fato de que essa iniciativa é só para as teles entrarem. A competição faz bem, mas que competição é essa? Nas áreas da NET ? Quer pegar os 40 bilhõesdas teles e acabar com a única possibilidade de um dia haver competição ao monopólio estabelecido? Esta conversa soa, no mínimo, estranha. Não é uma conversa coerente

Tele.Síntese – Sua posição não é contraditória à aprovação do PL 116, que permite o ingresso das teles neste mercado?
Felix – Ninguém diz que se deve liberar de qualquer jeito. Por isso, o PL, pois defendemos a liberação do mercado com regras. Duvido que as próprias teles queiram entrar sem regras. Elas só querem entrar no filé. Quem vai fazer business plan na medida que tiver 10 empresas compartilhando o mesmo cabo, destruindo aquele negócio. É o que queremos? Destruir o negócio? Qualquer trabalho sério deveria no mínimo fazer uma análise de mercado. Há problema de competição de TV a cabo em São Paulo? Precisa entrar mais meia dúzia de empresas? Não tem nem lugar para colocar mais nada no poste!

Tele.Síntese – Banda larga é outorgada sem obrigação nenhuma. A licença de SCM é assim. Banda larga não é o serviço mais importante? Por que não destroi valor dos que estão no mercado?
Felix – Tá bom, o STFC também é assim. Então, compete com os caras. A realidade de negócios de tamanhos diferentes mostra que a competição se dá em outro nível. Tanto que as pequenas empresas nem arranharam os ganhos dos grandes grupos.

Tele.Síntese – O antigo plano de outorgas de TV por assinatura da Anatel impõe limites ao número de licenças de uma forma bem complicada. Estabelece restrições em São Paulo, mas libera completamente o mercado lá em Cariri. É um contra-senso.
Felix – Vamos discutir isso, então.

Tele.Síntese – Você acha que aprovação do PL resolve a questão?
Felix – Libera o capital estrangeiro, e as teles para fazerem TV a cabo.Estou imaginando que, se a tele está liberada para TV a cabo, tem que haver um edital, uma concorrência, um mínimo de organização. Se não, vai acontecer exatamente o que eles querem – vão entrar no bairro chique, no Leblon.

Tele.Síntese – Competição não é ir onde tem mercado?
Felix – A NET faz isso para estabelecer a competição. Não está indo onde não tem mercado.

Tele.Síntese- A Anatel quer competição..
Felix – Não é este o discurso. Ela está equivocada ao querer abrir para as teles sem regras e sem a nova lei.

Tele.Sintese – Vocês querem pagar mais pelas licenças?
Felix – Nove mil reais são o símbolo da “apologia à qualquer coisa”. É óbvio que queremos investir mais e pagar menos pela licença.

Tele.Síntese – A NET não está estudando modelo de negócios em uma possível abertura de mercado? Como exigir a cobertura mínima?
Felix – Essa é uma das questões que precisarão ser resolvidas no novo modelo.

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