Falta inovação para aproveitar o celular na baixa renda


No relatório sobre “Oportunidades móveis: Pobreza e Acesso à Telefonia na América Latina e Caribe”, financiado pela IDRC, o Brasil e a Colômbia são os que menos usam serviços de mensagem de texto (SMS) entre os países analisados, que incluem, ainda, Argentina, Jamaica, México, Peru e Trinidad e Tobago. No Brasil, são enviadas oito mensagens …

No relatório sobre “Oportunidades móveis: Pobreza e Acesso à Telefonia na América Latina e Caribe”, financiado pela IDRC, o Brasil e a Colômbia são os que menos usam serviços de mensagem de texto (SMS) entre os países analisados, que incluem, ainda, Argentina, Jamaica, México, Peru e Trinidad e Tobago. No Brasil, são enviadas oito mensagens por semana, em comparação a 33, na Argentina, ou 26, no México. A pesquisa ouviu 8 mil pessoas, em áreas urbanas de baixa renda, para avaliar como a telefonia celular pode contribuir para a qualidade de vida das populações pobres. Ao contrário do Brasil, um caso de sucesso do SMS são as Filipinas, onde 22 milhões de assinantes enviam sete mensagens por dia, ou 49 por semana, segundo a Economist Intelligence Unit, citada em estudo do World Resources Institute. Números que sugerem repensar as políticas públicas.

O levantamento da IDRC verificou que o SMS é o único serviço, além da voz, que registra crescimento na região. “Nos mercados móveis mais desenvolvidos, como Jamaica e Trinidad e Tobago, há algum uso relacionado a download de ringtones e participação em jogos na TV ou no rádio, mas aplicações mais sofisticadas, como bancárias ou governamentais (m-banking e mgov), são praticamente inexistentes.” O que leva os pesquisadores a concluírem que há uma oportunidade significativa para governos e agentes de mercado criarem serviços nessa plataforma, bastante distribuída nas classes pobres.

Para os autores do trabalho, a principal barreira à expansão dos serviços móveis nesse segmento é a sua sustentabilidade, seguida pela falta de familiaridade com a tecnologia (entre outras razões, provocada pela própria falta de uso, num ciclo perverso). Se o baixo poder aquisitivo é problema comum a toda a América Latina, o que demandaria esforços de redução tarifária e novos modelos de negócios, no Brasil, torna-se mais grave, porque aqui cobra-se o maior custo médio por um SMS. Segundo o site Teleco, em janeiro deste ano, era da ordem de US$ 0,15, frente a uma média de US$ 0,04, nos outros países latino-americanos. “Na maioria dos mercados, a estrutura vigente de tarifas cria incentivos para intensificar o uso de SMS como uma estratégia de controle de gastos”, diz o estudo da IDRC. Há quem acredite que as operadoras temem perder, para o SMS, receita de outros serviços, inclusive voz, se baixarem o preço do serviço. Mas os mesmos analistas apostam que, a médio prazo, o aumento de tráfego deve compensar esse movimento.

Segundo o Teleco, a Vivo oferecia um dos SMS mais caros do mercado nacional, até dezembro de 2006, quando cortou 40% no preço, para alinhá-lo com as demais operadoras. Quase um ano depois, no terceiro trimestre de 2007, a participação dos serviços de dados e de valor agregado (SVAs) cresceu 33,8% (para 8,3% da receita total de serviços), em relação ao mesmo período de 2006, e 12,5% sobre o trimestre anterior.

O exemplo filipino

Nas Filipinas, a Smart Communications, operadora GSM, tornou-se líder de mercado ao focar sua operação na baixa renda, registrando, em 2004, 98% de seus 12,5 milhões de assinantes no pré-pago. Criou serviços como o PureTxt – cartões pré-pagos de baixo custo (US$ 1,80) que dão direito apenas a serviços de texto. Também inovaram ao oferecer transferência de valores via SMS, de um smart card para outro (Smart Money), conseguindo atingir mesmo aqueles que não têm conta em banco. A recarga pode ser feita via celular, dispensando o cartão físico, e reduzindo custos. E a oferta de muitas possibilidades de carga, divididas em centavos, encontrou terreno fértil num país em que 51% da população sobrevive com US$ 2 por dia.

O estudo também conclui que, nos países pesquisados, o celular pode ser ferramenta de inclusão. Os usuários de celular teriam pouco acesso a outras alternativas de telecomunicações, e desinteresse na internet por não encontrarem nela, ainda, motivação suficiente. Ao contrário do celular, fundamental para a comunicação com parentes, em primeiro lugar, com amigos, e para fazer negócios.

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