Ericsson planeja levar m-health para Amazônia


O barco Abaré navega pelo rio Tapajós, no coração da Amazônia, para provar que em áreas de difícil acesso, a política pública de saúde deve ser a de ir até o cidadão, em vez de exigir que a população se desloque aos centros urbanos em busca de atendimento. Parte do Projeto Saúde e Alegria, criado em 1985, o Abaré é atualmente uma Unidade Móvel de Saúde que atende 73 localidades das duas margens do rio Tapajós, onde residem aproximadamente 2,8 mil famílias ou 15 mil beneficiários e que tem a inovação em seu cerne.

A própria construção do barco exigiu um projeto específico para permitir que, apesar de seu tamanho, chegasse à beira dos rios para realização dos atendimentos. Pelos seus três andares estão distribuídos todos os equipamentos necessários para levar adequadamente os programas da atenção básica de saúde como pré-natal, prevenção a câncer de útero (PCCU), planejamento familiar, imunizações, saúde oral, saúde da criança, atendimentos médicos, pequenas cirurgias, atendimentos ambulatoriais e realizações de exames de rotina por meio de laboratório computadorizado.

A equipe do Abaré, com toda essa infraestrutura, consegue resolver 93% dos problemas de saúde da população. A média de complicações em cirurgias é baixíssima, 4%, abaixo da média nacional. Alguns casos, no entanto, surpreenderam os médicos do projeto, assim como acontece em qualquer ponto de atendimento de saúde.

“Uma vez encontrei um caso de intoxicação por pinhão-branco. Eu não tinha experiência no assunto, mas sabia que em Belém há um centro especializado em toxicologia. Sabia que o melhor era poder ligar para lá e conversar com eles”, relata o médico paulistano Eugênio Scannavino Netto, idealizador do projeto.

A partir deste tipo de experiência passou a ficar mais evidente a necessidade do Abaré estar conectado ao resto do mundo. O problema é que a infraestrutura de telecomunicações na região da Amazônia Legal é bastante restrita. A solução foi buscar parcerias para construí-la na região rural do município de Santarém (PA). A solução veio de uma parceria com a Telefônica/Vivo e com a Ericsson, que instalaram, em 2010, a primeira antena de transmissão de sinal 3G, que permite tráfego de voz e de dados sem fio por meio de aparelhos de celular. Com a conectividade, a equipe de do Abaré pode buscar uma segunda opinião de médicos em qualquer outra parte do mundo, enviar foto dos casos e obter resposta imediata.

Para Netto, a conectividade ainda deve resolver outro problema do Projeto Saúde e Alegria: a capacidade de atrair mão de obra qualificada para a região e disso ele entende. Em 1985, o médico que fez residência no Rio de Janeiro se mudou para Santarém e começou a tratar das comunidades ribeirinhas do Tapajós com apenas uma maleta de médico e um pequeno barco. Sozinho. “Sem outra forma de comunicação, a pessoa sente solidão. No começo eu me perguntava o que estava fazendo ali”.

A expectativa de Netto é que a conexão à internet e sinal de celular tragam maior conforto e segurança aos profissionais que escolherem se dedicar à saúde da população amazônica, algo essencial para mudar a realidade regional: atualmente, 150 médicos da região atendem uma população de 1,5 milhão de pessoas, equivalente um médico para cada dez mil habitantes.

O próprio Abaré funcionará como barco-escola para médicos do mundo inteiro, uma parceria que o Projeto Saúde e Alegria está firmando com universidades brasileiras e estrangeiras.

O novo passo do projeto decorre da conclusão do ciclo anterior. Após quatro anos de atividades do Abaré, em 2010 o Ministério da Saúde (MS) baixou a Portaria “Estratégia de Saúde da Família Fluvial”, uma política pública nacional para apoiar os municípios de toda Amazônia Legal e Pantanal na implementação de barcos-hospitais, com o objetivo de atenuar o quadro de exclusão dos ribeirinhos de áreas mais isoladas no acesso aos serviços de saúde básica, tendo como referência o Abaré. Ao todo, 100 barcos serão construídos para municípios interessados, sendo que 32 já tiveram projeto aprovado para liberação de verbas.

Em 2011, o Abaré passou a operar via Sistema Único de Saúde (SUS) e uma nova ideia começa ganhar corpo. Utilizar dispositivos móveis para coletar as informações das famílias atingidas, de forma a poder georreferencia-las e usar o mapa para definição de políticas públicas.

O projeto ganhou o entusiasmo da diretora de sustentabilidade da Ericsson, Carla Belitardo, que trouxe um dos coordenadores do projeto e responsável pela política de saúde da localidade, Fabio Tozzi, para conhecer uma iniciativa de m-health, em São Paulo. O projeto foi desenvolvido pelo Laboratório de Arquitetura e Redes de Computadores (LARC) da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor). Com o apoio da Ericsson, será implementado no barco, em 2013, e dará subsídios em tempo real para os gestores da saúde da região.

Originalmente publicado em Wireless Mundi
 

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