É baixa a penetração da banda larga no país


{mosimage}A baixa penetração da banda larga nos lares brasileiros (6,7%) limita o uso desta facilidade, diz  Juarez Quadros, sócio da Orion Consultoria. O Brasil precisa encontrar soluções para o rico mercado de pobres que tem 34% dos domicílios sem telefone ou 87% das residências sem acesso à internet.

Juarez Quadros do Nascimento*

A tecnologia da voz sobre IP (Internet Protocol) surgiu em 1995, mas foi nos EUA, em 1998, que ocorreram as primeiras aplicações, tanto que nesse ano, segundo a União Internacional de Telecomunicações, cerca de 1% do tráfego internacional de voz foi feito com VoIP. Em 2003, esse índice foi 13%. Em 2004, teriam sido transportados em torno de 150 bilhões de minutos de voz, e mais de 25% desse tráfego feito em redes IP. Há estimativa de que, em 2010, metade do tráfego mundial de voz de longa distância será por IP.

No Brasil, apenas 15% do tráfego gerado passa por redes IP, e são motivos dessa baixa utilização da nova tecnologia, entre outros: confiabilidade, segurança, interoperabilidade e o legado da extensa rede TDM (Time Division Multiplex) existente. Acrescente-se o baixo poder aquisitivo da população que, mesmo com 97,4% dos domicílios tendo iluminação elétrica e 66,1% tendo telefone, apenas 16,6% tem computador e somente 12,4% acessa Internet (IBGE/Pnad-2004).

Considerem-se ainda dados divulgados, no final de 2005, pelo Comitê Gestor da Internet, de que 55% dos brasileiros com idade superior a dez anos nunca utilizaram um computador. Com relação à Internet, a situação é ainda mais delicada: 68% dessas pessoas nunca acessaram a Rede Mundial de Computadores. Talvez alguns possam pagar tal acesso. Outros, os excluídos, certamente não podem pagar.

Utilizando pesquisa de orçamento familiar do IBGE focando o acesso em banda larga, em função da renda e despesas, com famílias que têm renda mensal de R$ 700, R$ 1.200, R$ 2.700 e mais de R$ 6.700 e quanto elas gastam por mês, em termos relativos, nos diversos serviços (…). Uma família de R$ 6.700 gastaria em torno de 1% dessa receita no uso de banda larga, algo em torno de R$ 67 que, alocado para as outras faixas de renda representaria 2,5% de R$ 2.700, quase 4,5% de R$ 1.500 e 9,6% do orçamento familiar de R$ 700.

Evidentemente falta poder aquisitivo. Uma família de renda de R$ 700 se usasse um acesso de banda larga e o pagasse teria que, em tese praticamente impossível, prescindir de alimentação e serviços essenciais, incluindo transporte, energia, água, etc.

Ainda assim, os serviços de VoIP vêm modificando o mercado brasileiro. Entretanto, ocorre mais no âmbito dos clientes corporativos – empresas e governo – e de forma limitada no uso residencial. Assim, o tráfego de longa distância, nacional e internacional, já vem cursando via redes corporativas em conexão com as redes públicas. Tal fato praticamente não ocorre nas ligações locais, onde quase não há concorrência.

Não é à toa que no Brasil mais de 30 empresas oferecem telefonia via Internet para serviços de longa distância, com preços bem inferiores aos cobrados pelas companhias tradicionais. Em virtude do serviço não exigir regulação específica, não há informação oficial sobre a quantidade de usuários de VoIP no pais, onde em 2005, havia mais de 86 milhões de celulares, cerca de 40 milhões de linhas fixas e apenas 3,3 milhões de assinantes de banda larga – clientes em potencial da tecnologia IP.

As operadoras de telefonia fixa e as de TV a cabo vêem nas soluções IP oportunidades de oferecer serviços de maior valor agregado. Tanto que, as concessionárias de telefonia investem em ADSL (Asynchronous Digital Subscriber Line) e as de TV a cabo em cable modem. Os novos entrantes, por terem redes mais novas, são mais ousados na oferta de serviços baseados em IP e usam essa vantagem para conquistar clientes.

Ao final de 2004, o Brasil contava com 2,052 milhões de acessos em banda larga, incluindo ADSL, cable modem e outros. Em setembro de 2005 já foram 3,330 milhões de acesso, crescimento de 62% em relação à dezembro de 2004. Mas ainda assim, a baixa penetração da banda larga nos lares brasileiros, da ordem de 6,7% ao final de 2005, limita bastante o uso da facilidade.

Na telefonia convencional há diferença no provimento dos serviços local e de longa distância, a infra-estrutura é maior para o último e, portanto com maiores custos. Na telefonia IP a rede não é hierárquica e os terminais são inteligentes, quase não havendo diferença entre o custo de provimento de uma ligação local e a de longa distância. Desafiadas pela tecnologia e pelo mercado, as concessionárias de telefonia fixa começam a modernizar suas centrais com NGN (Next Generation Networks) caminhando para um ambiente IP.

De forma que, no serviço local ainda é pouco visível para os usuários o emprego da VoIP. Com a conversão do pulso da telefonia local para minuto, concretizada via renovação dos contratos de concessão de telefonia fixa que vigorarão até 2025, é possível considerar o uso da VoIP para as chamadas locais de longa duração. Para chamadas locais de curta duração talvez não haja ganho significativo na relação custo benefício. Eis um tema relevante a ser discutido.
Enquanto isso, um novo conceito, muito importante para o país, precisa ser explorado. Trata-se do rico mercado dos pobres – sem telefone (34% dos domicílios) e sem acesso à Internet (87,6% dos domicílios). O Brasil precisa de uma agenda digital positiva que gere crescimento e, ao mesmo tempo, contemple a inclusão social.

A oferta de banda larga, requisito básico para o usuário que pode se beneficiar de preços mais baixos na rede IP, é limitada por condições econômicas às pessoas de classes “A” e “B” (2% e 6,3% da população respectivamente). Para chegar às outras classes é preciso que os preços dos computadores e dos serviços de banda larga caiam e que haja efetiva competição na exploração do serviço telefônico fixo comutado e aí, quem sabe não encontramos uma boa forma de utilizar VoIP no serviço local?


*Sócio da Orion Consultores Associados, Engenheiro e ex-ministro das Comunicações.

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