Diliani, da Nokia: “Somos especialistas em aquisições”


Dimitri Diliani, vice-presidente da Nokia para a América Latina, conta que a companhia vai continuar a comprar e quer crescer no mercado de internet das coisas. No Brasil, vai inaugurar um laboratório de IoT em parceria com uma operadora. O executivo minimiza os efeitos negativos que a fusão com a Alcatel-Lucent terão na região. “Todo o portfólio é complementar na AL. Haverá sinergias no setor administrativo, mas ainda é muito cedo para dizer quem, quando e quantos serão afetados”, diz.

Dimitri Diliani - vp nokia america latina
Dimitri Diliani, vice-presidente da Nokia para a América Latina, continuará no cargo após a fusão com a Alcatel-Lucent

A Nokia estará pronta para operar já integrada à Alcatel-Lucent tão logo a compra de ações seja concluída, no primeiro trimestre de 2016. A afirmação inclui também a América Latina. Segundo Dimitri Diliani, head da Nokia para a região, já nomeado para comandar os negócios locais após a fusão, conta nesta entrevista que mesmo após a integração a companhia manterá a estratégia de aquisições para crescer em novos mercados.

O foco deverá cair sobre oportunidades em Internet das Coisas (IoT), inclusive aqui no país. E quando não for possível comprar, haverá parcerias. No Brasil, a Nokia vai inaugurar um laboratório para desenvolver produtos IoT, inclusive para indústrias em que tradicionalmente não atua, como saúde e transporte. A estrutura será montada em parceria com uma operadora. Abaixo, leia a entrevista que Diliani concedeu ao Tele.Síntese.

1 – Faz pouco mais de um ano que o sr. assumiu o comando da Nokia na América Latina. O que mudou na empresa e no mercado desde então?
Dimitri Diliani, head para a América Latina da Nokia – Mudou muita coisa. Do ponto de vista de negócios, vimos melhora na nossa operação na região, colocando-se, claro, a situação macroeconômica de lado. Houve uma grande aceleração na migração ou instalação das redes LTE. A modernização das redes vinha se dando há três anos, e agora chegou ao núcleo também.

Do ponto de vista de tecnologias, as discussões sobre nuvem e redes virtuais se aprofundaram, com as operadoras decidindo se vão esperar para migrar para novas tecnologias ou se já começam a virtualizar. Ano passado as discussões estavam focadas no LTE, na migração da rede móvel, estava mais centrada na tecnologia de rádio.

As discussões sobre o 5G ainda estão muito conceituais, já que os padrões não foram definidos. O que alguns dizem que vão testar nos próximos meses será muito diferente do que de fato será a tecnologia em 2018. Provavelmente serão pedaços da tecnologia, mas com certeza não será ela por completo. Na região, as operadoras estão na etapa de decidir como vão abordar a questão.

Em termos de macroeconomia, a América Latina apresenta enormes desafios de ponta a ponta. Começa com a questão do câmbio, uma vez que todas as moedas locais se desvalorizaram frente o dólar. O Brasil sofreu um forte impacto, pois apresentou a maior desvalorização. As operadoras estão gastando o mesmo que planejavam, em reais. Mas, quando se faz a conversão do câmbio, é menos o que podem comprar. O Brasil, claro, não tem o pior cenário. A situação mais complicada é na Venezuela. Mas esperamos uma recuperação da região nos próximos seis meses.

2 – Como será 2016?
Diliani – Será desafiador. Não do ponto de vista de volume, mas em como compartilhar os riscos do fator câmbio, como ajudar as operadoras a planejar alguma coisa para o ano com o mesmo orçamento, e de fato conseguir realizar o projeto. Estamos no último trimestre deste ano, e neste ponto os orçamentos já chegaram ao limite. Temos uma desaceleração dos investimentos e as empresas segurando o dinheiro para decidir no que gastar ano que vem.

A economia está mais devagar, mas o uso das redes não reflete o que acontece na economia. Ao contrário, o uso de dados está nas alturas. Trabalhamos duro para tentar atender o crescimento da demanda. As operadoras e nós estamos buscando implementar mais 4G, ansiosos pela liberação das frequências de 700 MHz. Acho que isso será crítico em regiões rurais, e torcemos para seja possível iniciar a implementação em 2016 em alguns lugares do país.

3 – O crescimento do LTE o Brasil está se dando no ritmo imaginado? Hoje são 18 milhões de acessos…
Diliani – Começou devagar e agora está se acelerando. Estão sendo conectados entre 1 milhão e 3 milhões de pessoas por mês. Agora que há mais dispositivos, as redes são decentes e a cobertura é boa, acho que o LTE vai superar a capacidade do 3G nos próximos 24 meses.

4 – Qual a tecnologia as operadoras mais buscam com a Nokia no momento?
Diliani – Falando apenas de tecnologia, as discussões são para usar voz sobre LTE (VoLTE) e WiFi Calling no Brasil. O VoLTE permite realizar chamadas instantâneas, com som em alta definição. Já a importância do WiFi Calling é usar o sinal WiFi doméstico para a cobertura da operadora onde o sinal móvel não seja bom. Na região metropolitana, ajuda a descongestionar a rede de dados móvel uma vez que a disponibilidade de espectro é limitada.

Ou seja, com o WiFi Calling é possível entregar e usar mais dados, ao mesmo tempo em que a operadora móvel mantém a receita sobre as ligações. Para 2016 e 2017 as operadoras estão se perguntando se devem modernizar o core da rede com novos equipamentos para melhorar a oferta atual de serviços, ou se devem partir já para a virtualização, para a nuvem com o packet core. Acredito que o packet core será a primeira função de núcleo de rede virtualizada.

5 – Quais as tecnologias que vão chegar mais cedo ao Brasil?
Diliani – Do ponto de vista técnico, o 5G ainda é uma incógnita. A Internet das Coisas, porém, será grande. Muitos já nos pedem soluções em IoT. Estamos montando um laboratório de IoT no Brasil onde vamos desenvolver IoT para o mercado local. Decidimos montar este laboratório com uma operadora local. Neste laboratório, queremos explorar novas aplicações em IoT para a América Latina e, em especial, para o Brasil. Ele deve ser inaugurado neste ano ou começo do próximo. O investimento será em equipamentos e recursos humanos para compreender este mercado no país. Mas não posso revelar mais detalhes nem com qual operadora fizemos a parceria.

6 – O que será desenvolvido em IoT?
Diliani – Ainda não decidimos. Queremos ser um grande concorrente em IoT, com foco em redes, entregando plataformas para virtualização compatíveis com LTE, 4G, 5G. Pensamos em atender também outras verticais, indústrias como a de saúde e de transporte. Estes setores precisarão de uma rede para o IoT e dos dispositivos que permitam a conexão.

7 – Como o senhor avalia o desempenho da Nokia na América Latina?
Diliani – Estou na região há quatro trimestres, e ainda estou aqui. Se os resultados fossem ruins no período, não estaríamos conversando. A situação econômica afetou o desempenho. Mas a operação é rentável. Nossa receita ficou estável se retirar o câmbio, estamos aumentando a rentabilidade, o que é fundamental para mantermos investimentos em pesquisa e em outras áreas.

8 – A fusão com a Alcatel-Lucent será difícil na América Latina?
Diliani – Somos uma das três principais fornecedoras na América Latina. Com a aquisição da Alcatel-Lucent, vamos estar no topo globalmente e competindo cabeça a cabeça na região. A Alcatel-Lucent nos trará receitas adicionais significativas e complementares. A Alcatel-Lucent não trabalha no segmento wireless na região, seus principais produtos são em redes fixas e IP. Já a Nokia tem participação zero em IP e redes fixas, e foco em redes móveis. Em outros lugares há alguma sobreposição de negócios, como nos Estados Unidos. Mas na América Latina, e no Brasil especificamente, a complementariedade é fantástica. Os clientes com quem estamos conversando dizem que estão ansiosos para conseguir conversar com uma só pessoa para obter fornecimento ponta a ponta na parte móvel e na rede de transporte. Todos estão querendo convergir e simplificar as redes. Eles querem um fornecedor com essa capacidade, e seremos nós.

9 – Mas como será a reestruturação na região após a incorporação?
Diliani – Não estamos esperando todo o processo se encerrar para já irmos nos organizando. A aquisição segue um processo global que deve terminar no primeiro trimestre de 2016. Estamos agora, em paralelo, desenhando a nova organização e obtendo as aprovações necessárias para a aquisição de 100% das ações da ALU por parte da Nokia.

O primeiro passo já foi dado, que foi a obtenção de todas as aprovações regulatórias requeridas, a nível global: Estados Unidos, França, China, Brasil, México e todos os países em que operamos. O segundo passo foi nomear a liderança da nova Nokia. Rajeev Suri manterá a posição de CEO, seus vice-presidentes já foram nomeados, e agora confirmamos que o atual vice-presidente da Nokia para a America Latina [o próprio Diliani] permanecerá nesta posição uma vez concluída a transação.

Os próximos passos são a aprovação pelos acionistas da Nokia da aquisição e a compra, propriamente dita, das ações da ALU. Este processo deverá estar concluído no primeiro trimestre de 2016, e é somente depois de concluído que efetivamente se podem integrar as operações existentes no mundo. A nova Nokia contará com a Bell Labs como um motor da inovação, tendo investido no ano passado € 4,7 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, e com receitas de € 26 bilhões em 2014.

No próximo mês deveremos anunciar as mudanças na camada abaixo de mim. E uma vez definida a estrutura aí, a nova empresa estará pronta para operar já no dia um. Daí em diante, já integrados, vamos fazendo a reestruturação nas camadas mais abaixo, pois é onde está a maior parte do pessoal.

No mais, continuará a existir a divisão regional de trabalho que temos hoje, com sete regiões, sendo a América Latina uma delas. A AL é única. Seria impossível pensar na região Américas, por exemplo, e juntar AL com América do Norte. Os clientes são diferentes, os países são muito diferentes. Há mais sinergias com a Europa, uma vez que Telefônica opera aqui, Telecom Italia também. O problema é que há uma distância enorme entre as regiões e a diferença em relação a outros países do bloco.

10 – Haverá demissões no Brasil e na América Latina?
Diliani – Muito cedo ainda para afirmar qualquer coisa nesse sentido. Mas não compramos a Alcatel-Lucent para economizar. Na América Latina, em especial, todo o portfólio é complementar. Não posso demitir um especialista em um produto achando que outro, de outra área, irá substituí-lo. Haverá sinergias, claro, no backoffice, no setor administrativo, mas ainda é muito cedo para dizer quem, quando e quantos serão afetados.

11 – A Nokia continua aberta a novas aquisições, especialmente no Brasil?
Nunca nos fechamos a novos negócios. Este ano fizemos seis aquisições. Uma delas foi a divisão de redes da Panasonic, no Japão. Você não verá outra aquisição do tamanho da Alcatel-Lucent, mas nos verá agindo em nichos que possam complementar nosso portfólio em IoT. Em alguns casos, vamos estabelecer parcerias. Somos especialistas em aquisições. No passado compramos a Siemes, a Motorola, agora a ALU. Sabemos o que fazer para dar certo. No Brasil, estamos atentos, temos o interesse em comprar empresas que possam complementar nossas ofertas localmente.

Anterior Vivendi nega ação coordenada com adversário na Telecom Italia
Próximos Leilão das sobras: Anatel não decidiu o que fazer com os lotes que derem no-show.