Após 10 anos, Huawei não terá prejuízo no Brasil, comemora seu CEO.


Há 10 anos no Brasil, e com mais de três mil funcionários, a maior fabricante chinesa de equipamentos para telecomunicações, comemora pela primeira vez não ter fechado o balanço no vermelho, como ocorrerá este ano. Seu presidente, Veni Shone, afirma que a Huawei pretende aumentar a fabricação local, já responsável  por 30% dos equipamentos comercializados, e transformar o Brasil em um polo exportador para os países vizinhos.

 

A Huawei pretende ainda transformar a produção brasileira em um polo exportador para os países vizinhos e escalou uma equipe exclusivamente dedicada a encontrar uma solução de baixo custo para o terminal a ser usado na cobertura LTE da faixa de 450 MHz, o principal gargalo desta tecnologia.

Tele.Síntese – Como a Huawei vê o mercado brasileiro de telecomunicações e quais são suas apostas para 2014?
Veni Shone – A Huawei está no Brasil há 10 anos como fornecedor para os principais produtos das operadoras de telecom.

Tele.Síntese – Em quais segmentos a empresa é mais forte?
Shone – Nós estamos muito bem posicionados nos principais segmentos, principalmente no celular.

Tele.Síntese – Mas vocês perderam contrato de 4G LTE da Oi.
Shone – Sim, a NSN foi muito agressiva na LTE em 2,5 GHz e acabou levando grande parte dos contratos. Mas nós estamos com a LTE em cinco operadoras: com a Vivo, Claro e TIM, com a tecnologia FDD, e com a Sky e On Telecom com a tecnologia TDD.  Estamos presentes também em todas as operadoras com a tecnologia 3G e 2G.

Tele.Síntese – Em relação ao desempenho financeiro?
Shone – Até 2012, nós perdíamos dinheiro aqui no Brasil, apesar de um forte crescimento. As razões para essa perda eram muitas: a moeda, os impostos, a forte competição neste mercado. No ano passado, não apenas nós, mas acredito que todos fecharam no vermelho. Este ano, porém, é diferente. Nós vamos atingir no nosso “breakeven”. E esta não é uma notícia ruim.

Tele.Síntese – Pode falar sobre os números? Quanto é a receita?
Shone – Registraremos este ano receitas de US$ 900 milhões. E vendas de US$1,5 bilhão. Para 2014, nós já podemos falar em lucros e aumento de nossa produção local.

Tele.Síntese –  Como está a produção de vocês?
Shone Nós aumentamos muito a fabricação no Brasil, desde quando a começamos, em 2008. Hoje, 30% de todos os produtos que comercializamos são produzidos localmente. Há  equipamentos como o BTS/NodeB  ( estações rádio- base) para redes 2G e 3G. Além de diferentes equipamentos para a banda larga fixa, como os DSLAM (equipamentos de acesso para a conexão de XDSL, Gepon, etc.). Nós temos duas fábricas no Brasil, mas a de Sorocaba, no interior de São Paulo, é a mais importante.

Tele.Síntese – E os aparelhos celulares? Como está sua fabricação?
Shone Nós já estávamos fabricando os cartões de dados e as CPUS. E este ano começamos a fabricar os dois smartphones, que estão no mercado brasileiro. Os Huawei Ascend G510 and Huawei Ascend G506, fabricados em parceria com a Compal  Electronics, de Jundiaí (SP). Por causa dos impostos, nós estamos mudando, para localizar ainda mais no Brasil os aparelhos globais que produzimos.

Tele.Síntese – Vocês fabricam apenas para o mercado brasileiro?
Shone – Nos últimos dois anos, fabricamos apenas para o mercado interno, mas nós temos uma grande missão agora que é a de exportar para os países vizinhos. É claro que esta decisão não depende só de nós, precisamos conversar com os governos dos demais países para ver se conseguimos nos transformar, através do Brasil, em um fornecedor regional.

Tele.Síntese – Recentemente, vocês anunciaram a mudança da sede da empresa para a Argentina?
Shone –  Nós transferimos a direção da América do Sul para a Argentina porque o Brasil representa 60% deste mercado e já está maduro. Por isto, alguns foram para a Argentina e outros, para o Chile, para também fortalecer os demais mercados, que não estão tão bem como o brasileiro.

Tele.Síntese – A sua empresa pensa em montar outras fábricas na América Latina?
Shone – Nós temos alguma coisa na Argentina, e pensamos talvez e fabricar alguns aparelhos celulares. Mas a nossa estratégia de fabricação é regional e a principal fábrica continua no Brasil.

Tele.Síntese – Estão otimistas para o próximo ano?
Shone – Estamos otimistas com os próximos cinco anos. Embora estejamos prevendo um 2014 bem difícil, o crescimento  nos próximos anos será muito maior.

Tele.Síntese –  E quais são as suas projeções para este futuro? Onde haverá maior demanda?
Shone – São vários os cenários, mas nos próximos anos, será crítica a rede de  banda larga, que está em sua transição para o mundo óptico. Isto porque, a demanda de vídeo vai crescer muito. E o vídeo vem com a alta definição, em todo o mundo. Há também uma estrada crítica na banda larga móvel, no que se refere à transmissão. Também é crítico o espectro. Faixas de frequências mais baixas precisam ser ocupadas pela banda larga. Há o leilão da faixa de 700 MHz, mas também não podemos esquecer das faixas de 800 e 850 MHz que poderão ser usadas também para a banda larga móvel.

Tele.Síntese – Prevê mudanças nos modelos de negócios?
Shone– Acredito que nos próximos anos o triple play vai realmente mudar o modelo de negócios do setor. É uma mudança de cultura. Por exemplo, Claro, Embratel e Net têm atualmente empresas separadas. Em no máximos dois anos essas empresas estarão unidas, convergindo todos os seus serviços para um único pacote. Telefônica e Vivo também caminham nesta direção. Mesmo a Oi, que tem todos os serviços , tenho certeza de que ela também vai partir para a convergência completa das soluções. A convergência do fixo com o móvel será dramática.

Tele.Síntese – Qual sua avaliação sobre o uso da faixa de 450 MHz no Brasil. Você acha que alguma operadora que a comprou vai usá-la?
Shone – Há diferentes visões sobre esta questão, que não está apenas relacionada à faixa. Em primeiro lugar, os estudos de negócios sobre a área rural brasileira não são nada bons. Em termos de tecnologia, o uso desta frequência nas zonas rurais é a melhor alternativa, mas há ainda um alto custo escondido, que é o valor do terminal. A 450 Mhz reduz bastante a necessidade de aquisição de sites, mas os terminais são outra estória. O preço é muito alto, e, sem um forte subsídio, pouquíssimas pessoas poderiam comprá-lo.

Tele.Síntese- Há alguma saída?
Shone – Estamos pensando em diferentes cenários. Há duas formas de conseguir reduzir este preço: ou com forte subsídio ou se encontrarmos uma alternativa tecnológica para isto. Estamos com uma equipe brasileira, trabalhando com a nossa sede na China, voltada para encontrar uma solução técnica para reduzir o preço do terminal. Esperamos encontrá-la.

Tele.Síntese – Mas as quatro operadoras brasileiras, potenciais compradoras desta tecnologia, têm o prazo do edital para dar início ao serviço, que é no primeiro semestre do próximo ano. Não acha que os fabricantes perderão o timing?
Shone Acho que não, pois as regras não são tão restritas assim. Por exemplo: para instalar a LTE, as operadoras tinham que atender um número fixo de cidades. TIM e Oi fizeram o ran sharing e cumpriram também as regras.

Tele.Síntese – Mas os principais executivos das grandes operadoras – pelo menos Vivo, Claro e TIM – já avisaram que não vão usar a frequência de 450 MHz para chegar nas áreas rurais, pelo menos no início. Isto não compromete a tecnologia?
Shone – Vai depender da cobertura e da finalidade desta tecnologia nesta frequência. Será que ela serve só para as áreas rurais? Não. Ela pode ser usada também para as cidades, as grandes cidades. Há uma grande pressão para a ampliação de cobertura em cidades como São Paulo, Rio, Brasília. Por que usar 10 mil sites, se se pode usar muito menos, se se usar frequências mais baixas?

Tele.Síntese – Você acredita, então, na 450 MHz para as grandes cidades?
Shone – Sim. Na China nós começamos nas áreas rurais, mas já usamos intensamente esta frequência para a transmissão nas grandes cidades e também para os serviços públicos, como polícia e atividades de governo.

Tele.Síntese – E quais são as expectativas de vocês para o mercado de Femtocell, depois da desoneração do Fistel?
Shone –  Nós fabricamos femtocell e estações de celular ainda menores. Lançamos as primeiras femtocells há cinco anos. Nosso maior mercado é o Japão, pois ela é muito boa para os locais onde há muita densidade de sites (antena) e para coberturas indoors (dentro das residências). Para o Brasil, nós acreditamos que haverá muita demanda para as small cells, e por isto nós estamos lançando-as no mercado brasileiro no final deste ano. Vivo, Claro e Oi estão pedindo esta solução, que atende mais à cobertura externa, e resolve o problema do tráfego. Quanto às femto, estaremos sempre prontos.

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