Com metas atrasadas, Telebrás se prepara para ajustes.


A Telebrás completa um ano de sua reativação nesta quinta-feira, data de edição do Decreto 5.175/2010 que instituiu o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e atribuiu à estatal a tarefa de sua consecução muito longe de atingir as metas estipuladas. Pelo projeto inicial, a rede pública de telecomunicações deveria chegar a 100 cidades até …

A Telebrás completa um ano de sua reativação nesta quinta-feira, data de edição do Decreto 5.175/2010 que instituiu o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e atribuiu à estatal a tarefa de sua consecução muito longe de atingir as metas estipuladas. Pelo projeto inicial, a rede pública de telecomunicações deveria chegar a 100 cidades até dezembro do ano passado e a mais 1.063 este ano. Ao invés disso, a estatal se prepara para ligar as primeiras seis cidades até o final deste mês ou início de junho, além de ter começado a instalação em outras 17 cidades.

Além disso, o governo já anunciou que pretende ajustar as metas da estatal, em função dos cortes no orçamento e da necessidade de antecipar o atendimento da região Norte, onde a situação do acesso à internet é mais precária. Outra decisão da presidente Dilma Rousseff, de aumentar a velocidade mínima de 512 Kbps para 1 Mbps, apesar de não atrapalhar tecnicamente a Telebrás, poderá criar problemas para o acesso, já que os pequenos provedores, principais parceiros nas cidades onde a exploração do serviço não atrai as grandes operadoras, poderão ter dificuldades de atender a essa demanda.

Em entrevista ao Tele.Síntese, o presidente da estatal, Rogério Santanna, aponta as principais causas do atraso no cumprimento das metas, o que já foi feito até agora e o que poderá ser concluído nos quatro anos desse governo.

Tele.Síntese -A atuação da Telebrás vai começar nas seis cidades no trecho Brasília-Itumbiara, com as fibras de Furnas. E as demais, quando vão ser ligadas à rede?

Rogério Santanna – Nós já começamos em outras 17 cidades, inclusive uma rota para Fortaleza, com fibras da Chesf e Eletronorte. Dependemos ainda do contrato com a Petrobras, que devo assinar hoje ou amanhã, com o mesmo preço das elétricas. Isso vai nos permitir construir outra rota, a de São Paulo.

Tele.Síntese -O que atrasou o cumprimento das metas? Foi a falta de recursos?

Santanna – Não, porque ainda não precisamos desembolsar nada. O que atrasou foram os contratos com a Petrobras e a Eletrobras. Aquilo que era preciso fazer em dezembro, já estamos em maio e não vamos fazer aquilo que estava previsto, porque ainda não podemos entrar na Petrobras para separar as fibras e instalar os equipamentos.

No último domingo, com autorização da Justiça, foram desmembradas as fibras da Eletronet e os cinco pares destinados à Telebrás já estão ligados à rede em Brasília.

Tele.Síntese – A Aneel já liberou o uso das fibras das elétricas?

Santanna – Precisa ainda liberar, mas sei que a Aneel mandou os contratos para apreciação da Anatel e a última notícia que tive era de que estavam na procuradoria.

Tele.Síntese -Então as metas estão todas atrasadas?

Santanna – Vamos fazer os 4.283 municípios até 2014. Mas as 1.163 cidades previstas para este ano não será possível, primeiro porque a indústria só tem capacidade técnica para instalar 800 em 2011 e, até para atender esse número de cidades, dependemos da liberação de mais recursos, porque o que temos até agora não dá.

Tele.Síntese – O secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Cezar Alvarez, disse que a Telebrás está fazendo novos estudos de rede para ajustar as metas.

Santanna – Um dos pedidos que estamos estudando é a antecipação do Anel Norte da rede, em função das reivindicações dos governadores dos estados dessa região, especialmente o do Amapá, por causa da precariedade do atendimento lá. Estamos tentando entender as necessidades ndsses estados. Estamos estudando o uso do gasoduto da Petrobras entre Manaus e Coari, fechando acordo com o governo do Pará para compartilhar a rede do programa NavegaPará, estamos estudando todas as possibilidades para acelerar nossa presença na região.

Tele.Síntese – Há também a exigência da Fifa de ter redundância de rede nas cidades sedes da Copa de 2014…

Santanna – No Amazonas já há a fibra da Oi, mas não tem alternativa. E levar rede para lá não é uma tarefa fácil, tem que cruzar o rio Amazonas.

Tele.Síntese – Já tem uma previsão de quando a rede chegará à região Norte?

Santanna – Não temos, porque ainda estamos fechando o estudo.

Tele.Síntese – Com a mudança da velocidade mínima para 1Mbps determinada pela presidente Dilma Rousseff, o backhaul terá que ser feito todo por meio de fibra óptica? Essa mudança terá impacto nos custos ou no desenho da rede?

Santanna – As cidades maiores merecem ser cobertas por fibra, mas nas cidades menores temos que ver o que é mais vantajoso. É uma análise de natureza econômica, o que é mais rápido, tem que se estudar caso a caso. Pode-se começar com rádio, que é mais rápido, e depois substituir por fibra. Às vezes o uso de fibra sai mais barato, por exemplo, quando a banda é maior. Com um par de fibras é possível colocar de 10 Gigabits a 400 Gigabits, em tese. E depois da fibra instalada, o preço do Megabit começa a cair. Além disso, nos permite crescer.

Tele.Síntese – E os testes com as diferentes tecnologias, já surtiram algum resultado?

Santanna – Nós estamos testando em várias cidades o uso de soluções diferentes, que servirão para apontar as vantagens e as desvantagens. Se o sinal é forte, qual distância pega. No final, vamos fazer um ajuste fino no projeto.

Tele.Síntese – O aumento da velocidade de 512 Kbps para 1 Mbps traz algum contratempo?

Santanna – Não atrapalha em nada. A limitação de velocidade não está na Telebrás, mas sim no provedor. A capacidade de transporte da rede da Telebrás ficará em torno de 2 Terabits, superior portanto ao tráfego da internet brasileira, hoje na casa de 1.7 terabit. O problema está na tecnologia usada pelo provedor na última milha. O contratempo será na ponta.

Tele.Síntese – A Telebrás não vai receber R$ 366 milhões, da medida provisória e do orçamento?

Santanna – Vai, mas isso já estava previsto. Ainda falta. Mas acreditamos que poderemos fazer a subscrição de ações para aumento da capital agora em junho.

Tele.Síntese – O grupamento das ações da estatal acabou derrubando o preço dos papéis. Isso não é um prejuízo? Houve queda de até 50% no valor dos papéis…

Santanna – A desvalorização atinge basicamente as ações preferenciais, o que não é ruim porque desestimula a especulação. Agora, as ações ordinárias têm pouca variação. E, no futuro, esperamos ficar só com as ações ordinárias.

Tele.Síntese – Quando a Telebrás poderá ter renda?

Santanna – Agora depende dos ajustes que a estatal deve passar. A previsão que tínhamos antes era de quatro a cinco anos. O próprio Cezar [Alvarez] anunciou a readequação de metas, com a antecipação do Anel Norte e o contingenciamento do orçamento. Essa previsão terá que ser refeita. Mas parece que o quadro está mais favorável. Segundo o ministro [Paulo Bernardo] anunciou, a Telebrás poderá até ter R$ 1 bilhão por ano, mais do que esperávamos. Mas certamente teremos metas maiores.

Tele.Síntese – E o valor do link de R$ 230 por Megabit, há possibilidade de redução?

Santanna – Essa tem que ser uma decisão de governo. Se a gente mexe no preço, demora mais tempo para o retorno. É preciso mudar o modelo de negócio.

Tele.Síntese – Com a mudança aprovada para os Correios, que agora dependerão de rede para novos serviços, é possível uma associação dele com a Telebrás, no sentido da ECT investir na construção de backhaul, por exemplo?

Santanna – Nós conversamos com os Correios quando a empresa queria fazer uma rede para ligar suas unidades em todo o país, mas na época não tínhamos condições de entrar na licitação. Até a BT Telecom ganhou a licitação. Mas esperamos retomar as conversas.

Tele.Síntese – Qual a sua sensação desse primeiro ano à frente da Telebrás?

Santanna – Nós conseguimos organizar a empresa, com a volta dos servidores cedidos à Anatel e a contratação de engenheiros no mercado. Hoje, temos um quadro ainda pequeno, mas muito capacitado. A questão crítica era promover os pregões sem virar uma pendenga jurídica interminável, sem perder nenhuma batalha jurídica. Já temos R$ 207 milhões de equipamentos contratados. O que atrasou não dependeu da gente, como os contratos (com as elétricas e a Petrobras) para uso da fibra e os cortes de orçamento.

Tele.Síntese – O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, disse que adiou para dezembro deste ano o fim do retorno dos servidores cedidos à Anatel. Isso também atrasa os planos da empresa?

Santanna – Faltam poucos. Mas em função disso, deveremos reabrir o prazo para opção ao Pisp [Programa de Indenização por Serviços Prestados], que havia sido encerrado em dezembro. Isso é importante porque precisamos fazer o provisionamento dos recursos. A reabertura do prazo deve acontecer agora em julho.

Tele.Síntese – Quantos funcionários optaram pelo Pisp?

Santanna – Um pouco mais de 60.

Tele.Síntese -Você está otimista com o futuro da empresa?

Santanna – Eu sou otimista. Se não fosse, não comprava uma briga dessas. Porque os interesses contrariados têm um lobby forte e muito bem pago.

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