Ceitec vai fabricar chip para o WiMAX nacional


O centro terá capacidade para produzir 100 milhões de chips por ano. É pouco, mas é um começo. Cylon Gonçalves da Silva, um dos raros brasileiros a ostentar o título de Ph.D em Física pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, é presidente da Ceitec SA desde julho deste ano. A empresa, criada pelo governo federal …

O centro terá capacidade para produzir 100 milhões de chips por ano. É pouco,

mas é um começo.


Cylon Gonçalves da Silva, um dos raros brasileiros a ostentar o título de Ph.D em Física pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, é presidente da Ceitec SA desde julho deste ano. A empresa, criada pelo governo federal em 2008, possui um
design center para o desenvolvimento de chips digitais e analógicos e deverá inaugurar a produção de chips no ano que vem, com capacidade para produzir 100 milhões de unidades por ano.

O projeto inspiraria qualquer militante da área. No entanto, o professor Cylon foi obrigado a assumir o cargo num momento delicado, logo após a saída de seu antecessor, o alemão Eduard Weichselbaumer. O gestor anterior demitiu-se à distância, a partir dos Estados Unidos, onde tem residência, alegando estar cansado da burocracia que reina no Brasil, a qual teria sido a responsável pelos atrasos no cronograma para a operação da fábrica de circuitos integrados da Ceitec.

Cylon, conhecedor dos trâmites nacionais, ao contrário, parece não se abalar com o ritmo dos trabalhos. Experiente em projetos de C&T, coordenou a implantação do Laboratório Nacional de Luz Sincontron para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Foi, ainda, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia.

O físico fala com entusiasmo do seu novo desafio de contribuir para ampliar a participação de 1,9% dos eletroeletrônicos no PIB brasileiro, de forma a chegar mais próximo da média dos países desenvolvidos, de 12%. Tem nas mãos uma operação cujo orçamento anual está na casa dos R$ 100 milhões. Em sua agenda consta, ainda, a produção de um circuito integrado para a última milha de transmissão sem-fio, o WiMax.

Tele.Síntese– Qual é hoje o balanço das atividades da Ceitec como um pólo de desenvolvimento de design de chips?
Cylon – A Ceitec é um investimento estratégico do governo brasileiro. Desde o início dos anos 2000, quando ainda era um projeto, tem atraído a atenção para a necessidade do desenvolvimento de uma indústria nacional de semicondutores. Segundo a Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), nos países desenvolvidos a eletrônica responde por 12% do PIB. No Brasil, esse setor representa apenas 1,9%. Tamanha diferença se explica pela falta de uma indústria local forte de semicondutores, que é chave para o crescimento da eletrônica.

O balanço que fazemos da Ceitec é bastante positivo. Temos um design center de altíssimo nível. Temos ainda a única fábrica de chips da América Latina, em fase final de instalação e que estará operacional em 2011. Além disso, a Ceitec tem atuado como pólo de atração de investimentos, como a HT Mícron, que está se chegando em São Leopoldo (RS) para fazer encapsulamento e teste de chips. É, ainda, um focal point da indústria ao atuar em parceria com universidades, institutos de pesquisa e design houses.

Tele.Síntese – Quantos profissionais trabalham no design de chips no Centro? Quantos projetos já foram entregues, quantos estão em desenvolvimento e qual é a perspectiva de novas encomendas?
Cylon
– Temos cerca de 60 projetistas atualmente trabalhando no design center no desenvolvimento do chip para bolsas de plasma para a Hemobras, no chip para identificação veicular, no chip para a última milha da nova geração de WiMax e no demodulador de TV digital. Já desenvolvemos o Chip do Boi – usado na rastreabilidade animal -, o modulador de TV digital e um chip para a empresa gaúcha Altus. Estamos com nosso design center funcionando a pleno vapor.

Tele.Síntese – A produção de chips na fábrica da Ceitec está atrasada. Qual o motivo desse atraso e que impactos ele terá nas metas da empresa este ano?
Cylon –
É preciso esclarecer que uma fábrica de semicondutores está entre as atividades mais complexas da indústria. Aliada ao ineditismo da empreitada e a pouca mão de obra disponível, essa complexidade torna o empreendimento uma verdadeira façanha. Esperamos terminar a instalação de todos os equipamentos em março do ano que vem. Então, daremos início à produção dos primeiros lotes de chips que servirão para certificar a fábrica.

Cabe destacar que entre as principais metas da Ceitec está o desenvolvimento da propriedade intelectual de chips. Neste sentido, o design center está trabalhando em projetos que independem da fábrica estar 100% em operação.

Tele.Síntese – Desde o princípio, a Ceitec tinha como opção desenvolver chips no Brasil e os produzir no exterior, caso a produção física das pastilhas fosse economicamente mais viável. No momento, a Ceitec tem algum projeto seu fabricado no exterior?
Cylon – Toda vez que a Ceitec desenvolver um produto cuja tecnologia seja diferente da especificada para nossa fábrica — ou seja, chips com tamanho máximo de 0.55 nanômetros no circuito integrado e 0,6 mícrons na pastilha, e o uso do processo Complementary Metal Oxide Semiconductor (CMOS)–, a Ceitec irá fabricar seus chips em outras plantas. Nossa fábrica não será um fator de impedimento à criação de produtos. Esse é o chamado modelo fablite. Os três produtos já finalizados pela empresa (Chip do Boi, Modulador TV Digital e Chip da Altus) foram manufaturados fora do Brasil. Desses, o Chip do Boi será o único a ser fabricado em nossa própria estrutura a partir de 2011, bem como outros produtos de tecnologia semelhante, como o Chip das Bolsas de Plasma e o Chip para Carros. Entretanto, a empresa já estuda a expansão de sua capacidade de produção para outras tecnologias mais avançadas. Essas novas etapas terão início assim que a linha de produção de 0,6 mícrons estiver produzindo rotineiramente.

Tele.Síntese – Quais os nichos do mercado de componentes fazem mais sentido para uma atuação da Ceitec e por quê? Há alguma demanda a partir do setor de fabricantes de equipamentos/dispositivos de telecomunicações na pauta?
Cylon – A Ceitec deverá ter um papel fundamental na política de internet de banda larga com o desenvolvimento do chip para a última milha de transmissão WiMax. Esse é um projeto grandioso do governo que pretende levar internet de boa qualidade a todo o País sem depender de transmissão por cabos. Além deste produto, que se encaixa no segmento de mercado de comunicação sem-fio, a Ceitec mira outros dois nichos: Identificação por Radiofrequência (RFID) e Multimídia Digital.

Tele.Síntese – O governo brasileiro poderá ser um cliente importante, garantindo um volume de demanda ao menos para cobrir os custos fixos do Centro?
Cylon
– A exemplo do governo americano em relação à sua indústria de defesa, o governo brasileiro será o primeiro grande cliente da Ceitec para dar as condições iniciais para a empresa crescer. Para empresas e órgãos ligados ao governo, temos projetos importantes em desenvolvimento ou em estudo de viabilidade. O chip para bolsas de plasma tem a Hemobras (empresa federal) como cliente. Já o chip para carros, tem os Detrans e o Denatran como clientes. Por sua vez, a Casa da Moeda tem um contrato firmado com a Ceitec para o desenvolvimento de chip para o passaporte eletrônico.

Tele.Síntese – Que perfil de cliente a Ceitec está buscando no setor privado? Que vantagens oferece a seus clientes?
Cylon – Sem dúvida o fato de a Ceitec ser brasileira é um diferencial para empresas instaladas no País, pois a proximidade, a facilidade de comunicação e a semelhança cultural favorecem os negócios. Mesmo num mundo dito globalizado, essa é uma diferença que percebemos ser valiosa no relacionamento com clientes. Depois da troca no comando da companhia, a estratégia da Ceitec está sendo revista. Estamos buscando o que faz mais sentido à empresa.

Tele.Síntese – Qual é a estratégia da Ceitec em relação à América Latina?
Cylon –  A América Latina está no “radar” e ações mais intensas na região virão em conseqüência dos desenvolvimentos feitos para o mercado nacional.

Tele.Síntese – Quando o Centro alcançará o break even e quando conseguirá se auto-sustentar? Quando terá lucro?
CylonOs planos econômico-financeiros dependem do sucesso no lançamento de produtos no momento certo com o preço adequado. Empresas de alta tecnologia, normalmente, atingem breakeven em um prazo de cinco a dez anos. As condições especiais do Brasil e o pioneirismo da Ceitec recomendam sermos prudentes nessas projeções. Já a expansão da fábrica ou mudança na sua base tecnológica dependerão de novo investimento estatal ou de uma abertura de capital, pois os valores envolvidos são importantes.

Tele.Síntese – Qual o investimento anual necessário para manter a Ceitec competitiva no mercado nacional e internacional? O governo tem disposição e fôlego para manter esse ritmo de investimentos? E a abertura de capital?
Cylon
– A Ceitec é um investimento estratégico do País, sendo peça fundamental na política de ciência e tecnologia e desenvolvimento da indústria de semicondutores e eletrônica. Acreditamos que a empresa, portanto, extrapola a condição de política de governo, já sendo, na verdade, fruto de uma política de Estado.

Quanto à abertura de capital, esse é um tema indefinido. Hoje, a Ceitec é 100% da União, vinculada ao MCT. No curto prazo, não vemos alteração nessa decisão. No entanto, quando chegar o momento de ampliar a fábrica ou adotar outra plataforma tecnológica, o nível de investimento será elevado e, possivelmente, seja recomendável uma parceria com investidores privados.

Tele.Síntese – Há espaço para outros pólos de desenvolvimento de design de chips no Brasil? E para fabricação de chips?
Cylon – Sim, tanto que existem outras design houses no Brasil, em diversos estados, criando e desenvolvendo chips. Essas design houses, em geral, se comparadas à Ceitec, possuem estrutura menor, menos projetistas e trabalham com produtos customizados. Em relação à fabricação de chips, por enquanto, somos a única empresa no Brasil. Porém, é intenção do governo federal provar a investidores estrangeiros, a partir do sucesso da Ceitec, que é possível desenvolver uma forte indústria de semicondutores no País. Uma das atribuições legais da Ceitec é servir de pólo de atração de novos investimentos.

Tele.Síntese – Quais são as metas em termos de contribuição para amenizar a balança comercial desfavorável ao Brasil no setor de componentes?
Cylon – A fábrica da Ceitec tem capacidade para produzir até 100 milhões de chips por ano. Essa é uma quantidade pequena se comparada ao volume de chips consumida no Brasil. Além disso, cobrimos nichos de mercado cujos volumes são importantes, mas pequenos em comparação ao total de chips utilizados no País.

A balança somente será afetada quando tivermos no Brasil a fabricação de chips e memórias para utilização em computadores, automóveis e eletrônicos. São esses três segmentos que mais consomem semicondutores e respondem pelo grosso da importação de componentes.

Tele.Síntese – Quais são hoje os principais desafios da Ceitec?
Cylon – O principal desafio é iniciar a operação da fábrica, pois isso nunca foi feito no Brasil. Vencida essa etapa, para a qual temos contado com o apoio do MCT, nosso desafio será ocupar a capacidade instalada da fábrica. Temos projetos que poderão ser fabricados aqui e sabemos que outras design houses brasileiras estão projetando chips que poderão ser fabricados na nossa planta.

Em relação ao design, acreditamos que já estamos numa posição consolidada, o que não significa que vamos parar de buscar os investimentos necessários para ampliar nossa capacidade de desenvolver projetos. Também pretendemos consolidar alianças estratégicas com universidades, outras design houses e empresas para sermos a referência brasileira em desenvolvimento de chips.

Tele.Síntese – E em relação ao marco legal?
Cylon
O futuro da empresa depende da criação desses marcos legais. No entanto, é muito difícil conciliar as limitações legais existentes com a operacionalidade requerida em um dos setores mais dinâmicos de uma economia moderna. Estamos trabalhando junto ao governo e iniciamos um trabalho junto a empresários para conscientizar o Executivo e o Legislativo da necessidade urgente de criação de marcos legais que, por um lado, preservem o interesse público e, de outro, permitam à Ceitec atuar de forma ágil e agressiva em um mercado tremendamente competitivo.

Tele.Síntese – Concretamente, quais são as principais contribuições da Ceitec ao mercado e ao País no estágio atual?
Cylon – São diversas. Primeiro, ter atraído a atenção do poder público e da sociedade brasileira para a necessidade de desenvolver a indústria de semicondutores nacional. Isso propiciou o surgimento de programas como o CI-Brasil, a criação de mais de uma dúzia de design houses pelo País, a formação de mão de obra especializada, o repatriamento de brasileiros que fizeram mestrado e doutorado na área e que, na Ceitec, encontraram um local propício para desenvolver suas carreiras, sem falar no investimento de cerca de R$ 500 milhões na construção e equipagem da primeira fábrica de chips da América Latina.

A Ceitec é a semente de todo um novo ecossistema. O Brasil tem as condições econômicas, acadêmicas e o apoio político necessário para realizar essa tarefa. No espaço de uma geração, o que na história de um país é como um piscar de olhos, tenho a certeza de que olharemos para trás e veremos que o Brasil alcançou maturidade e um status de economia desenvolvida e baseada numa indústria de alta tecnologia como a de semicondutores e microeletrônica.

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