BNDES vai apoiar expansão da banda larga


{mosimage}Com desempenho recorde no primeiro semestre deste ano, o BNDES anunciou, logo após os resultados, uma redução na linha de Inovação Tecnológica, com queda na taxa de juros, de 4,5% para 3,5% ao ano, além de medidas de incentivo voltadas à formação de centros de pesquisa e desenvolvimento. Nesta entrevista, Alan Fischler, chefe do departamento de Infraestrutura do BNDES, fala de financiamentos e dos incentivos para a compra de equipamentos da indústria nacional, tanto para o setor de telecomunicações quanto para os radiodifusores. Avalia que o setor de telecom passa ao largo da crise econômica e aponta que o grande desafio, tanto para as operadoras quanto para os formuladores de política pública, é difundir o serviço de banda larga no país.

O desempenho do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) atingiu um recorde no primeiro semestre deste ano, registrando aumento de 40% nas consultas para novos investimentos em relação ao valor obtido entre os meses de janeiro e junho do ano anterior, totalizando R$ 111,7 bilhões, e as aprovações, de R$ 77,2 bilhões, aumentaram 50% na mesma base de comparação. Além do bom desempenho, o BNDES anunciou este mês redução na linha de Inovação Tecnológica de 22%, com queda na taxa de juros, de 4,5% para 3,5% ao ano. A linha apoia projetos de inovação de natureza tecnológica que busquem o desenvolvimento de produtos ou processos novos e que envolvam risco tecnológico e oportunidades de mercado. A política inclui também a linha Capital Inovador, cuja redução de juros chegou a 51%, passando de 9,25% ao ano (incluindo a taxa de risco média de 3%) para 4,5% fixa ao ano. Essa linha apoia empresas no desenvolvimento de capacidade para gerar atividades de inovação, incluindo a formação de centros de pesquisa e desenvolvimento. O benefício de redução de juros nas duas linhas é válido até 31 de dezembro de 2009.

Nesta entrevista, Alan Fischler, chefe do departamento de Infraestrutura do BNDES, fala de financiamentos e dos incentivos do banco para a compra de equipamentos da indústria nacional, tanto para o setor de telecomunicações quanto para os radiodifusores, que iniciam a segunda etapa da Televisão Digital Terrestre, com a expansão dos serviços para as cidades menores, o que abre uma brecha de negócios para a indústria de transmissores e de set top box. Para o executivo, o setor de telecom no Brasil passa ao largo da crise econômica e o grande desafio, tanto para as operadoras quanto para os formuladores de política pública, é difundir o serviço de banda larga no país.

Tele.Síntese –
Numa palestra recente, você defendeu que a difusão da banda larga é um desafio a ser vencido no país, tanto pelas operadoras quanto pelos formuladores de política pública. De que forma o BNDES pode contribuir para que a universalização desse serviço se efetive?
Alan Fischler – O banco financia investimentos de telecomunicações como um todo; assim, onde houver investimento em banda larga ele vai financiar também. Uma vez estabelecido o modelo de negócios, definidas questões relacionadas com frequência, etc., vão surgir projetos que podem ser submetidos ao banco para o financiamento.

Tele.Síntese – Existe a possibilidade de uma linha específica para para financiar projetos de expansão da banda larga nos municípios,a chamada última milha, após a conclusão do backhaul, parte da meta de universalização das concessionárias de telefonia fixa, em 2010?
Alan – O que fazemos aqui é financiar projetos, não tem muita abertura para alguma coisa fora disso. Nós podemos incentivar e até criar condições especiais, mas os projetos têm que existir, sejam eles de prefeituras, de operadoras já existentes ou novos operadores pequenos. Existem vários modelos de negócios, e nós vamos apoiá-los dentro das nossas políticas operacionais. Então temos, primeiro, que saber que tipo de demanda vamos ter em termos de  projetos, se é prefeitura, governo, operadores existentes, novos, para ver o que conseguimos adaptar dentro das nossas condições.

No caso das prefeituras, o banco as financia normalmente e este seria um projeto também apoiado. Na questão do backhaul, ele vai ficar na porta do município. O acesso dentro do município é a grande questão, e o modelo de negócio, de como estender a banda larga dentro do município, tem que ser definido. Eu acredito que muitas prefeituras vão ter essa iniciativa e, se recorrerem ao banco, existem linhas de financiamento para atendê-las.

Tele.Síntese –  As novas tecnologias de acesso da última milha — Wi-Fi, WiMAX e PLC (Power Line Communication) — são uma solução para países em desenvolvimento como o Brasil, apesar de terem velocidades de comunicação relativamente baixa? Ou o ideal já seria um mix de tecnologias, somando-se a essas soluções de fibra óptica, FTTN (fiber to the node), FTTH (fiber to the home) e FFTD (fiber to the desk)?
Alan –  A solução é sempre um mix, principalmente no Brasil, onde temos vários brasis. Você tem o Brasil de primeiro mundo que tem uma demanda por alta velocidade, por confiabilidade maior, segurança, que sem dúvida vai ser atendida com fibra FTTH,  FTTN, seja lá qual for. Esta é uma experiência que a Telefônica já está fazendo em São Paulo e outras operadoras vão fazer nas suas regiões, nas capitais principalmente. Agora, para o Brasil não tão de primeiro mundo que não tem acesso nenhum  — por exemplo, o interior, os municípios que estão sendo contemplados com o backhaul –, não faz sentido pensar em fibra para acesso, que deverá ser em tecnologia sem-fio. E eventualmente será um mix, pode ser 3G, WiMax, Wi-Fi, dependendo da situação você tem a tecnologia que se adapta melhor. No caso do WiMAX, existe uma  pendência regulatória – é preciso definir as regras do leilão das frequências, as condições de participação das operadoras e realizá-lo.

Tele.Síntese – Como você avalia o cenário de telecom no país diante da crise econômica mundial? Há impacto, o volume de financiamentos foi reduzido? O banco desenha um cenário de avanço do movimento de fusões e aquisições?
Alan – Pelo lado operadoras, a crise passa um pouco longe porque primeiro existe até 2010 fortes obrigações regulatórias, principalmente na questão do backhaul e 3G e escolas públicas, essas três vertentes trazem uma necessidade de investimento que independe da situação do país. É um compromisso perante a Anatel que está sendo cumprido. Depois é um setor muito líquido, porque são milhões de assinantes que pagam suas mensalidades, seus planos, e a empresa tem um fluxo constante de recursos muito bom. A crise pode beneficiar essas operadoras no sentido que os equipamentos ficam mais barato. No momento de crise mundial, aumenta a briga entre os fornecedores pelo cliente, o que faz os preços caírem. Ao lado disso, temos uma queda do dólar em relação a um período mais ou menos recente, então, teoricamente, é possível fazer investimentos com menos custos, um cenário positivo para as operadoras. Pelo lado da demanda, dos consumidores, o Brasil foi um dos países menos atingidos pela crise. O brasileiro gosta de falar. Houve uma pequena queda, um pequeno ajuste, mas nada que afete fortemente as operadoras.

Tele.Síntese –
Do lado da indústria você vê algum impacto da crise, algum movimento no sentido de se intensificarem as fusões que já vêm acontecendo?
Alan – Esse movimento de fusão entre as principais fabricantes já vem acontecendo no mundo muito antes da crise, como ocorreu com a Nokia-Siemens, a Alcatel-Lucent, que são gigantes do setor que, por questões de escala e concorrência, já tinham se fundido. Eu acho que isso continua a ocorrer em função da crise, dependendo do mercado do fornecedor, pode ter um impacto maior ou menor. Nós temos, por exemplo, um grande fornecedor canadense (Nortel) que praticamente pediu falência e está sendo vendida em partes. Enfim, restam poucos grandes fornecedores internacionais, o que deve levar a uma diminuição do ritmo das fusões. Com os chineses entrando muito forte nesse mercado, um mercado de margem pequena e volumes ainda grandes, sempre há espaço para alguma consolidação já que a escala continua a ser fator importante.

Tele.Síntese – 
E como é que fica a indústria brasileira neste cenário?
Alan – Em relação às subsidiárias dos grandes fornecedores globais que fabricavam no Brasil,  muitas abandonaram a fabricação nos últimos anos, porque o mercado brasileiro e sulamericano, aparentemente, não era, para eles, grande o suficiente para justificar ter uma fábrica no país. Hoje, o único grande fabricante de sistemas que produz no Brasil é a Ericsson; a Siemens, depois da fusão com a Nokia deixou de fabricar, a Alcatel-Lucent também não fabrica e as chinesas Huawei e ZTE também não. A Huawei ensaia alguma coisa mas nada muito relevante também (ela fabrica modems para comunicação sem-fio). A Motorola fabrica basicamente celulares. O BNDES apoia obviamente as compras dos produtos fabricados no Brasil, mas, como não financiamos equipamentos importados, as alternativas são poucas. No caso dos fabricantes nacionais, que desenvolvem tecnologia do país, conseguimos manter competência e vanguarda tecnológica em poucos nichos de equipamentos. Nós temos algumas indústrias no segmento de comunicação óptica com competência semelhante a  qualquer uma dessas globais, caso da Padtec, Datacom, Asga, Digitel, enfim, umas seis ou sete empresas; na parte de redes de nova geração temos a Trópico; na parte de comunicação via rádio, Asga e Digitel são fortes.

As poucas empresas que restaram de tecnologia nacional são, na verdade, o grande foco do BNDES hoje. Temos condições de financiamento diferenciado para elas, ou seja, quem compra equipamentos nacional tem o financiamento em melhores condições. Na medida do possível procuramos incentivar as operadoras a comprarem esses equipamentos e, por outro lado, apoiamos essas empresas com financiamento para terem capacidade de P&D, de inovação, de fabricação.

Tele.Síntese – Que condições são essas?
Alan – No caso de tecnologia nacional financiamos 100% do valor do equipamento e mais serviços associados. As condições de juros já estão muito baixas, não conseguiremos baixar mais. O normal é TJLP mais 0,9% (ao ano) mais o spread de risco. O volume de compras de tecnologia nacional ele é relativamente pequeno diante do total de investimento das empresas. Se pegarmos o investimento de uma Oi, de R$ 4 bilhões por ano, por exemplo, o que ela vai comprar de tecnologia nacional são R$ 100 milhões. Por isso, perto do investimento total é muito pouco. Então, o efeito prático disso na taxa média de juros da operadora é pequeno.

Tele.Síntese – O BNDES tem alguns programas de financiamento na área de TV Digital terrestre, que englobam software e componentes. Como está a demanda por essas linhas?
Alan –
A demanda é pequena, mas isso já era esperado, porque, no processo de digitalização da televisão, as primeiras cidades atendidas foram as grandes capitais e, aí, já se sabia que a opção dos radiofusores seria por transmissores importados por questão de potência. Os fabricantes nacionais não fabricam transmissores a partir de uma determinada potência, que são os necessários para cobrir as grandes cidades.

A segunda fase agora e terceira fase é de interiorização da TV Digital, quando serão atendidas cidades menores. Esse é o grande mercado para os fabricantes nacionais de transmissores.  São empresas que já forneciam os transmissores analógicos e agora vão fornecer os digitais.

Os principais fabricantes desse segmento são a Linear e a Telavo. Ambas produzem transmissores, com tecnologia nacional, desenvolveram equipamentos dentro do padrão nipo-brasileiro e têm equipamentos que se adequam à necessidade dessas cidades de menor porte.

Tele.Síntese – Quais são as linhas que o BNDES oferece para as emissoras e em que condições?
Alan – Temos um programa básico de financiamento que é o ProTVD, que é dividido em quatro subprogramas, um de apoio às radiodifusoras para aquisição de equipamentos de radiotransmissão; um para os fornecedores para desenvolvimento de P&D, etc.; um para conteúdo; e um para comercialização de set top box na rede de varejo, a exemplo do que já fizemos com o programa Um Computador para Todos. Então, o ProTVD, na verdade, é um conjunto de todos os instrumentos que o BNDES tem disponíveis, agrupados dentro desse pacote. As condições, no caso dos radiodifusores, são as mesmas do setor de telecomunicações, a única diferença é que o acesso à operação direta é menor do que o normal, ou seja, R$ 5 milhões em vez de R$ 10 milhões.

Tele.Síntese – O banco já recebeu demanda para esse programa?
Alan – Sim, temos vários projetos na fase de solicitação, mas não podemos divulgar porque ainda não estão aprovados. São projetos das diversas emissoras e afiliadas. Em relação a conteúdo, a demanda está mais na cabeça de rede, que gera o conteúdo. Para as empresas de software, temos as linhas do banco, o Prosoft, e essas linhas são replicadas dentro do ProTVD.

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