A utilização da rede elétrica na universalização da banda larga, como quer o governo, não é uma tarefa fácil, pelo menos não na urgência que se pretende. As tecnologias existentes e regulamentadas, como o PLC (Power Line Communication), por exemplo, têm fracassado nesse sentido. É o que prova o teste realizado pela Copel (Companhia Paranaense de Energia) por cerca de um ano no município de Santo Antonio da Platina, de levar a banda larga aos domicílios da cidade. A conclusão da empresa é de que o sistema não se aplica imediatamente no Brasil, diante das soluções de conexões existentes no mercado.

Segundo assessor da companhia, Júlio Malhados, a principal dificuldade é a fiação elétrica disponível nas residências, que está em condições precárias, reduzindo substancialmente a qualidade do serviço. “É o mesmo que andar em uma Ferrari numa rua esburacada”, comparou. Mas os problemas não param por ai. Foram observadas interferências no serviço com o uso de outros eletrodomésticos e problemas de transmissão de dados na linha de baixa tensão, que pode ser prejudicada pela simples existência de um transformador no circuito.

O professor Sidney Martini, pesquisador do tema na USP, aponta para outro problema: a segurança dos dados. “Como é uma rede externa, a captura desses dados por terceiros é perfeitamente possível”, sustenta. E há ainda a questão regulatória, que impede a captura de boa parte da receita desse serviço pelas elétricas. “Pela norma atual, 60% do apurado com o serviço de internet têm que ser aplicados na modicidade tarifária da energia, desestimulando investimentos nessa área”, dispara Marco Delgado, diretor da Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica).

Para o presidente da Aptel (Associação Brasileira de Empresas Proprietárias de Infraestrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações), Pedro Jatobá, todas essas questões podem ser superadas. O gargalo no uso do PLC está na norma editada posteriormente pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), que impede o uso concomitante do serviço de transmissão de dados para o público e para consumo interno. Ou seja, ela não pode usar o sistema de telecomunicações para automação da sua rede.
 

“Essa regulamentação surpreendente acabou matando a possibilidade do uso da tecnologia na banda larga e ainda exterminou a indústria de componentes para o sistema, que existia há quatro anos aqui”, ressalta Jatobá. Ele lembra que o Brasil é o único país na América Latina que tem a tecnologia regulamentada e homologada e não usa.
 

Após estudo realizado pela Aptel, junto com a Abradee, e atendendo a chamamento público da própria Aneel, a agência mostra sinais de que pode rever essa norma. “Mas já se passaram três anos e nada foi feito”, lamenta Jatobá.

 

Apesar dos entraves no fornecimento de banda larga ponta a ponta, as elétricas têm investido na modernização de suas redes,  transformando-as em verdadeiros backbones. A Copel, por exemplo, possui rede cobrindo todo o estado do Paraná, por meio de cabos OPGW (para-raios com fibras ópticas), que ela aluga para empresas de telecomunicações. Novamente, a questão regulatória funciona como ponto de desequilíbrio. A receita obtida com o compartilhamento da rede é praticamente repassada na totalidade para a modicidade tarifária. “Apenas 10% desses ganhos podem ser capturados pelas empresas”, diz Delgado.

 

Mas as empresas continuam investindo em redes OPGW porque são necessárias para a smart grid, redes inteligentes de baixa tensão que começam a se proliferar no país como forma de renovação do sistema elétrico. “A principal característica dessa nova rede é a interoperabilidade, que permite a gestão completa de todos os serviços prestados pelas elétricas, desde desligamento, religamento, controle de consumo até a entrada, na rede, da energia acumulada por pessoas que façam captação solar ou eólica, ou, ainda, o abastecimento de carros elétricos, dependendo do grau de automação alcançado”, disse Marco Delgado.

 

O diretor da Abradee informa que essas facilidades já são realidade nas redes de alta tensão e revolucionam a prestação do serviço. Com a smart grid, a automação irá atingir a quase 70 milhões de domicílios que possuem ligações elétricas no país e demandará investimentos da ordem de R$ 50 bilhões a R$ 100 bilhões – a depender do grau de sofisticação da automação que se quer alcançar- nos próximos 15 anos. (Publicado no Tele.Síntese Análise 369).