As telcos devem oferecer IPTV


Em três anos, o tráfego de voz pode cair até 40%

O negócio de telecomunicações precisa ser reinventado, pois a “Revolução IP” veio para quebrar os dois grandes paradigmas sobre os quais desenvolveu-se essa indústria durante décadas: (i) o modelo de negócio amplamente baseado em tráfego de voz tarifado de acordo com distância e duração da chamada, e (ii) a barreira competitiva representada pelo controle da infraestrutura de acesso fixo local. O novo cenário possibilita que haja competição onde antes seria impossível, beneficia claramente o usuário com a ampliação da oferta a preços reduzidos e é, portanto, muito bem-vindo. Para as operadoras, entretanto, significa uma ameaça ao modelo de negócio vigente e exige a busca de um novo modelo. Ser capaz de prover serviços de IPTV, assim como diversos outros tipos de conteúdo multimídia voltado a entretenimento, informação, educação e outros, é uma aspiração legítima e um componente central da estratégia que elas precisam executar para responder às novas condições do negócio e assim “sobreviver” ao processo de convergência.

Segundo diversas fontes e estudos realizados pela Accenture, enquanto o volume mundial de tráfego baseado em IP (internet pública e redes privadas) foi multiplicado em cerca de 40 vezes nos últimos 5 anos, o tráfego de voz fixa tarifada vem sofrendo uma erosão que varia de 1 a 3% ao ano, dependendo do país. Essa tendência vem tomando contornos mais nítidos nos últimos meses, e a previsão é de que se acelere ainda mais durante os próximos anos, levando a uma redução de até 40% no volume físico de tráfego no horizonte de 3 anos, inclusive no Brasil. A aplicação de reajustes tarifários e cobrança de taxa de assinatura suavizam o impacto pelo lado da receita, que mesmo assim pode experimentar perdas da ordem de 20%, significando aproximadamente US$100 bilhões no mercado mundial e US$ 200 milhões no mercado brasileiro.

Quanto mais cresce a penetração de celular e banda larga, mais se agrava o processo de substituição e canibalização do tráfego de voz fixa comutada (no Brasil denominado STFC), que continua sendo, de longe, o mais rentável dentre os serviços de telecomunicações. Por mais que os outros serviços surjam como fontes alternativas de receita, a competitividade nesses mercados pressiona preços e margens e o efeito líquido favorece sempre o usuário (viva!) e é amplamente negativo para as empresas. O enfrentamento cada vez mais direto com as operadoras de Pay TV é outra grande área de ameaça, e a situação deve se agravar com a introdução de novos meios de acesso (como Wi-Max, PLC…) e, conseqüentemente, novos competidores nesse mesmo mercado. Em resumo, “o futuro não é mais como era antigamente”.

Paradoxalmente, não faltam argumentos contra entrar num negócio que está tão distante das capacitações tradicionais de uma operadora de telecom, como é o caso da IPTV. Ao introduzir esse serviço em seu portfólio, a operadora estará entrando num verdadeiro pesadelo operacional, com altíssimo grau de exposição e risco em diversas áreas. As empresas precisam investir pesado na expansão e up-grade das redes e dos sistemas de OSS/BSS, e aprender a lidar com novos componentes de plataforma de vídeo (aquisição, processamento e codificação do sinal), novos CPEs, hardware drivers, sistemas operacionais, midleware, aplicações.

Adicionalmente, precisam desenvolver praticamente do zero a operação de conteúdo – negociação, sourcing e gestão. Essa área de conteúdo e programação é o verdadeiro “calcanhar de aquiles” para as telcos, e o fator determinante entre sucesso e fracasso da operação. Existem os conteúdos que são fundamentais e os que são “nice-to-have” – os produtores sabem disso, e o processo de negociação é complexo. Tendo o conteúdo correto, é concenso entre os especialistas que não basta apenas disponibilizá-lo numa grade de programação normal, emulando o modelo das TV’s por assinatura, pois isso limitaria o apelo da oferta. A grande “sacada” da IPTV é justamente oferecer funcionalidades adicionais ao usário, aproveitando as possibilidades da plataforma IP, como programação dos horários de exibição conforme a conveniência, armazenamento, edição e personalização da programação.

Por tudo isso, o business-case de IPTV, por sí só, dificilmente “para em pé” e apresenta alto grau de sensibilidade em relação a custo do conteúdo, receita de serviços e custos de rede, o que aumenta o risco e a incerteza envolvidos com a entrada no negócio. Considerando a magnitude dos investimentos e das despesas operacionais, frente ao que se pode esperar de receita com um produto que será oferecido de maneira “empacotada” com outros serviços, a conta dificilmente fecha, mesmo considerando operações em mercados maiores e mais ricos que o nosso. Conclusão: é preciso ampliar a gama de serviços adicionais e inovadores para aumetar a atratividade do pacote e diluir o custo, ou seja, mais investimento. British Telecom, Telstra e Telecom Italia são exemplos de operadoras que estão investindo alto na migração de suas redes para tecnologia NGN (next generation networks), totalmente baseadas em IP, com altíssima capacidade de transmissão. A British Telecom anunciou investimento de 14 bilhões de dólares no projeto, e com isso espera ganhar uma enorme vantagem competitiva de custos e a flexibilidade necessária para responder às novas demandas no mercado e agregar constantemente novos produtos e serviços à sua oferta. A australiana Telstra vai investir 8 bilhões, e promete integração total de suas redes de telefonia fixa e móvel, sobre protocolo IP e banda larga. Nos EUA, Verizon e SBC estão investindo bilhões de dólares para levar fibra até a residência do usuário (fiber to the home) e assim conseguir entregar o serviço de vídeo com a mesma qualidade da TV a Cabo, além de outras facilidades que serão oferecidas sobre a mesma infraestrutura.

É equivocado, portanto, tratar como simples capricho o atual movimento das teles no sentido de ampliar sua atuação na “cadeia de valor convergente”, imaginando que o mesmo seja movido apenas por oportunismo predatório e que venha contrariar os interesses da sociedade. Trata-se da busca de uma solução de mercado que devolva a sustentabilidade ao negócio de telecom, preservando os pesados investimentos feitos em infraestrutura que, ironicamente, tiveram um papel decisivo no desenvolvimento da atual dinâmica competitiva – visto por esse prisma, um verdadeiro “tiro no pé”. Uma saída mais fácil seria exigir proteção regulatória aos investimentos realizados, contrariando as forças de mercado e, aí sim, os interesses da sociedade.

Se o surgimento de novas formas de competição nos chamados monopólios de voz local é bem vindo, também deve ser nos mercados de radiodifusão, mídia, publicidade, TV por assinatura, e em qualquer outro onde a competência da iniciativa privada possa contribuir para o desenvolvimento sócio-econômico. Se existem desequilíbrios e assimetrias entre os agentes de mercado e necessidade de preservar interesses estratégicos nesse processo, que o Estado se capacite a exercer seu poder regulador para corrigir distorções e garantir condições isonômicas de competição, sempre em benefício do usuário e cuidando de preservar os interesses nacionais. A inacreditável inércia do poder público em relação a essas (e tantas outras) importantes e complexas questões está causando um vácuo de direcionamento e uma insegurança jurídica que inibem investimento e retardam o desenvolvimento das comunicações brasileiras.


* Ricardo Distler – Sócio-diretor em estratégias de comunicações da Accenture

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