Após guinada, expansão é foco da Nokia para a AL


Dimitri Diliani afirma que as dificuldades enfrentadas pela empresa no começo da década ficaram para trás. Beneficiada pela expansão das redes de banda larga chinesa, empresa quer investir mais para ampliar presença na América Latina. O centro dessa expansão será o Brasil.

A Nokia enfrentou uma séria crise três anos atrás. A operação de redes não apresentava boa performance graças, entre outras coisas, à concorrência de empresas da China e da Europa. A divisão de celulares, mercado que a empresa dominou desde a década de 1990, dava sinais retração com o avanço acelerado dos smartphones. O consumidor demonstrava desinteresse pelo sistema operacional Symbian, e o Windows Phone, adotado pela companhia, tinha um potencial ainda ser de comprovado.

Para se recuperar, a empresa adotou uma estratégia ousada. Vendeu o que parecia, na época, seu principal ativo, a operação de celulares, e decidiu focar os negócios em infraestrutura de banda larga. Dois anos depois, como gosta de frisar o novo vice-presidente para a América Latina da companhia, Dimitri Diliani, a situação é completamente diferente. A Nokia se tornou uma das principais fornecedores para operadoras na China e no Japão. No terceiro trimestre, teve lucro de 750 milhões de euros. Vem crescendo no Oriente Médio e África, onde as operações eram comandadas por Diliani. Agora, transferido para fazer o mesmo na América Latina, o executivo, de origem grega, quer ampliar a importância do Brasil e da região do balanço mundial. Para isso, prevê um cenário positivo, com crescimento exponencial do 4G e expansão também alta das redes 3G.

Tele.Síntese – Quais os desafios da Nokia para a região?
Dimitri Diliani Não vejo desafios. Tudo o que vejo são oportunidades. É uma região fantástica para crescimento. Nós decidimos investir aqui porque vemos muitas oportunidades. A Nokia está muito focada no mercado de banda larga móvel. Nos últimos dois anos fizemos uma guinada de uma empresa de telecom com atuação ampla, em diversos segmentos, para uma empresa de telecom bem focada em banda larga móvel e serviços associados a esta área. Para a América Latina, percebo que a região está ainda migrando para o 3G, e ano passado começamos a colocar o 4G LTE. Oportunidades enormes em 2015 e anos posteriores. Vejo oportunidades em contribuir com a migração do 2G para o 3G e para o LTE.

Tele.Síntese – Quanto a Nokia pode crescer na América Latina em 2015?
Dimitri Diliani – Queremos crescer 100%. Temos um bom negócio 2G aqui, vamos garantir crescimento no fornecimento de redes 3G e também nas 4G. Não temos, necessariamente, uma meta. Buscamos oportunidades, e se as identificarmos, vamos nos esforçar para conquistar os clientes.

Tele.Síntese – Qual a expectativa da Nokia para o crescimento das redes 4G na América Latina?
Dimitri Diliani – Acredito que o 4G possa crescer entre 100% e 130% ao ano, ao longo dos próximos cinco anos. Analisando o crescimento das redes hoje, vemos que o uso do 2G está caindo, não vai chegar a zero, mas vai ter uma queda anual crescente. O 3G cresce cerca de 20% ao ano, e vai continuar a crescer neste ritmo por ao menos mais quatro anos. O LTE vai crescer mais de 100% ao ano, todo ano, pelos próximos cinco anos. O 5G é uma realidade possível apenas depois de 2020, então temos cinco a seis anos para que o LTE se torne a tecnologia dominante.

Tele.Síntese – Testes indicam que o LTE com velocidades de 1 Gbps é possível. Comercialmente, é possível?
Dimitri Diliani – É possível em um ambiente controlado com muita facilidade. Demonstramos como fazer com TDD-LTE. O desafio para as operadoras entregarem comercialmente seria o espectro. É preciso uma quantidade enorme de banda para alcançar o 1 Gbps. Só quando for possível unir as bandas será possível discutir redes LTE de 1 Gbps.

Tele.Síntese – Esse impacto virá da internet das coisas?
Dimitri Diliani – Não. Estou falando do uso tradicional, diário e humano. Por exemplo, uma das minhas últimas tarefas antes de vir para a América Latina foi montar uma das maiores redes 4G dos Estados Unidos. Ativamos a rede em junho de 2013, e em junho deste ano, 20% dos sites LTE já estão congestionados. Ou seja, nestes pontos, exaurimos todo o espectro LTE disponível no intervalo de apenas um ano. E a gente ficou se perguntando, ‘caramba, o que aconteceu?’ Normalmente se constrói capacidade e leva-se um tempo para ocupá-la. Imaginamos que o congestionamento vinha das empresas, que estavam usando mais e mais capacidade. Mas, não. Era causado pelas pessoas, em áreas com população de renda média ou baixa, que buscavam entretenimento, Youtube, Netflix e similares. Criando-se o encanamento, as pessoas darão um jeito de usá-lo ao máximo. Neste momento, é o download de vídeos e músicas o que mais gera tráfego na rede. É uma demanda enorme, mas a banda é pequena.

Imaginamos que em 2017 as pessoas vão consumir 1 Gb de dados por dia. No Brasil, há ainda uma parcela grande de pessoas com 2G, com um consumo de dados próximo de zero. No 3G e 4G, as pessoas aqui consomem, provavelmente, de 2 Gb a 4 Gb de dados ao mês, na média. Imaginamos que em 2017/18 as pessoas vão consumir, aqui, 1 Gb de dados por dia, em média. É uma quantidade enorme de dados e um grande crescimento. Não é nada comparado ao crescimento que vemos hoje.

Tele.Síntese – A demanda pela mobilidade vai acabar com a banda larga fixa?
Dimitri Diliani – A rede fixa orienta a evolução da móvel. O consumidor não para de querer mais. Sua dose de conectividade diária só aumenta. A banda larga fixa resiste porque, por enquanto, ainda é capaz de entregar mais para o consumidor. Atinge 1 Gbps, enquanto nas redes móveis, a velocidade máxima média é de 100 Mbps. Eventualmente a banda larga móvel vai alcançar a fixa. Enxergamos a ameaça da móvel sobre a fixa, que deve continuar a existir, mas com usos específicos. As redes móveis vão precisar de mais e mais espectro, e serão mais usadas em volume transportado do que as redes fixas no futuro.

Tele.Síntese – Ainda não existe solução comercial de redes LTE de 1 Gbps prontas para funcionar?
Dimitri Diliani – Ainda não há viabilidade comercial porque, com a tecnologia que possuímos, precisamos de uma banda de 100 Mhz para isso. E ninguém dispõe de tudo isso. Será um desafio para o futuro como utilizar este espectro, além da necessidade de replanejar a instalação de antenas, pois seriam necessárias muitas mais.

Tele.Síntese – Algum país no mundo já cogitou autorizar o uso de 100 MHz para um LTE mais rápido?
Dimitri Diliani – Não. Os países têm este espectro disponível, mas o que vemos são os pedaços de espectro, 10 MHz para 2G, 20 MHz para o 3G, 10 MHz para LTE. Então, somando-se, há 50, 60, 70 MHz de espectro disponível. Além disso, nenhuma empresa, com razão, vai colocar todos os ovos em uma mesma cesta e explorar somente uma tecnologia com essa banda. Virá com o tempo, conforme mais espectro seja leiloado. E não vai interessar se o espectro estará fatiado, pois teremos tecnologia para fazer a agregação de bandas.

Tele.Síntese – Qual a importância do Brasil para as operações da Nokia na América Latina e no resto do mundo?
Dimitri Diliani – O Brasil é muito importante, um dos países onde temos as maiores ativações na região. Temos grandes clientes, redes gigantescas. Nossos escritórios ficam no país. Nossas fábricas para toda a América Latina também ficam no Brasil, e temos ainda um centro de pesquisa e desenvolvimento aqui. É um local que recebe nossos investimentos para longo prazo.

Tele.Síntese – Quais operadoras adotam soluções da Nokia atualmente, no país?
Dimitri Diliani – Oi, TIM, Claro, Telefônica Vivo, Nextel e Sky. Ainda não atendemos a Algar, Sercomtel. Mas, havendo oportunidades, queremos abordá-las. Vamos procurar todas as empresas que desejam construir uma rede de banda larga móvel. Nos últimos anos, em 2011 e 2012, nós passamos por uma reestruturação. Durante o período não focamos crescimento, focamos em definir melhor nosso portfólio, nossa estratégia e áreas em que poderíamos ter maior sucesso. Sentamos com clientes de produtos descontinuados para sugerir outras empresas que pudessem oferecer o que estávamos retirando da carteira de serviços. Esse processo todo passou. Acabou. Agora, a partir de 2013, nos tornamos uma empresa lucrativa, finalmente entregamos dividendos aos acionistas. Nosso caixa é positivo, o que é importante para mostrar longevidade. Enfim, demos uma guinada. E agora estamos procurando o crescimento. Saímos da fase de reduzir custos. Estamos com o negócio eficiente, e é hora voltar à estratégia de expansão, buscando todos os players. Acho que no futuro, vão escrever livros sobre o turn around que conseguimos fazer na Nokia. Estávamos nos debatendo em 2011, e conseguimos reverter para uma empresa sólida e lucrativa dois anos mais tarde. A área de redes estava atrapalhando a divisão de dispositivos. Nós é que estávamos mal, embora eles também tivessem um enorme desafio. Decidimos, naquela época, focar em empresas. Depois que vendemos a divisão de telefones para a Microsoft, mantivemos a divisão de redes, a HERE e a área de tecnologia e inovação, já que a inovação está em nosso DNA.

Tele.Síntese – Há rumores de consolidação no mercado brasileiro. Isso pode afetar os planos de expansão da Nokia, dadas as sinergias entre as empresas?
Dimitri Diliani – Existem vários tipos de teorias e rumores, de aquisição de gente de fora, de gente de dentro, fusão etc. Todas são histórias muito boas. Em qualquer caso, vejo oportunidades. Neste momento, posso dizer que não compartilho da visão de que empresa A vai comprar empresa B. E que seria uma bobagem definir estratégias para isso agora, já que não há nada confirmado.

Tele.Síntese – Quais os países mais importantes para a Nokia?
Dimitri Diliani – Temos bons negócios no Brasil e na América Latina. A companhia me colocou aqui porque deseja manter o investimento na região, onde esperamos crescer ano que vem e onde temos uma força de trabalho grande, nossas fábricas. Investimos bastante em infraestrutura, não apenas em venda. Minha vinda para cá é uma demonstração de que não estamos aqui transitoriamente. Temos gente que veio para transmitir conhecimento. O Brasil é um país bom para a gente.

A China leiloou sua área de LTE. As operadoras do país têm como principais fornecedores Huawei e ZTE. Mas a primeira estrangeira, e terceira maior empresa a fornecer infraestrutura lá, é a Nokia. Posso dizer que é nossa maior rede no mundo. Também temos redes enormes no Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos. Estou falando de tamanho de rede, que costuma acompanhar o tamanho da receita.

 

 

 

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