A Voz do Brasil tem que ser a voz do povo


{mosimage}Convencido de que as emissoras de radiodifusão públicas ou estatais têm obrigação de prestar serviços à população sem proselitismo partidário ou ideológico, trabalhando para universalizar o acesso à informação, que é um direito fundamental para o exercício da cidadania, o presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, implantou uma nova linha editorial nas emissoras do grupo. A mudança é mais visível nos 20 minutos diários da Voz do Brasil, sob a responsabilidade do Poder Executivo, quando temas que antes nunca eram abordados – como a manifestação social durante a reforma da Previdência, por exemplo – passaram a ser noticiados.

Publicada na revista ARede nº 4 (julho/2005)

Convencido de que as emissoras de radiodifusão públicas ou estatais têm obrigação de prestar serviços à população sem proselitismo partidário ou ideológico, trabalhando para universalizar o acesso à informação, que é um direito fundamental para o exercício da cidadania, o presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, implantou uma nova linha editorial nas emissoras do grupo. A mudança é mais visível nos 20 minutos diários da Voz do Brasil, sob a responsabilidade do Poder Executivo, quando temas que antes nunca eram abordados – como a manifestação social durante a reforma da Previdência, por exemplo – passaram a ser noticiados.

Se Bucci tem claro qual é o papel de uma rede pública/estatal numa sociedade democrática, também sabe que a comunicação pode ser um importante instrumento de união entre os povos. E é por isso que participa da construção da TV Brasil, a emissora internacional que inicia sua transmissão, este ano, para os países da América do Sul. A TV Brasil, explica, é o resultado de um acordo inédito entre os três poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário – e se propõe a unificar os laços culturais dos países. Mas ressalta: “Não pretendemos ser os protagonistas desse processo.”

Como você analisa o papel de uma empresa de comunicação de Estado. Qual a diferença para uma empresa pública e como a Radiobrás se insere nesse contexto?
Eugênio Bucci
A Radiobrás é uma empresa pública, uma sociedade anônima em que todas as ações pertencem ao Tesouro Nacional. A questão que se coloca não é bem o fato de a Radiobrás ser uma estatal, mas o tipo de comunicação que ela faz. E a questão é saber se uma empresa do Estado pode promover uma comunicação que não seja propaganda partidária do governo. Eu digo que não apenas pode, como deve. É obrigação da Radiobrás e de qualquer empresa pública prestar serviços ao cidadãos conforme os seus direitos.

E como a Radiobrás, editorialmente, reforça essa abordagem?
Eugênio Bucci –
A Radiobrás é encarregada de administrar e explorar os serviços de radiodifusão das emissoras do Poder Executivo: as duas de televisão – a NBR e a TV Nacional – e as quatro de rádio – a Nacional do Rio de Janeiro, as duas de Brasília – FM e AM – e a Rádio Nacional de ondas curtas, que vai para a Amazônia. Ora, ela jamais poderia praticar uma informação tendenciosa. Seria uma forma de desrespeitar os direitos do cidadão e, às vezes, de desrespeitar a própria legislação. Essa rede tem condições de difundir, em larga escala, informações que ajudem o cidadão a conhecer e a fazer valer os seus direitos. Em vários momentos do dia, a Radiobrás coordena redes voluntárias de dezenas, às vezes centenas de emissoras de rádio. Isso tudo ajuda na difusão da informação. Cabe-nos, para melhor exercer esse trabalho, apurar, editar e veicular textos jornalísticos que sejam verdadeiramente objetivos, que não sejam propagandísticos, tanto de governo como de partidos.

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Mas ela é vista como uma representante do governo, e não da sociedade.
Eugênio Bucci –
A tradição das emissoras de radiodifusão vinculadas a governos – sejam estaduais ou federais – é de uma comunicação contaminada por proselitismo político. E, muitas vezes, contaminada por uma função absurda, que é a de promoção de pessoas que ocupam cargos nos governos. Isso é uma usurpação do serviço público. Não é o que a Radiobrás faz hoje que deveria espantar as pessoas. O que deveria espantar é o passado da comunicação pública no Brasil, não só na Radiobrás, mas em vários outros veículos.

Como marcar essa diferença?
Eugênio Bucci –
Vou dar um exemplo bem radical: se uma manifestação pública acontece em Brasília, protestando contra a  reforma da Previdência, por exemplo, e isso tem impacto sobre as decisões que o governo está tomando, é um fato que, obrigatoriamente, precisa ser noticiado na Voz do Brasil. O espantoso é notícias como essa serem omitidas, como se fosse um fato que nunca ocorreu. Quando se omite um fato relevante desse tipo, o ouvinte, que só se informa pela Voz do Brasil, terá sido agredido no seu direito à informação.

Não é difícil essa relação, já que a empresa depende financeiramente do Tesouro Nacional?
Eugênio Bucci –
Ela depende financeiramente do dinheiro público. O dinheiro não é do governo. O brasileiro precisa de informação de qualidade sobre governo, Estado e vida nacional. Muitas áreas do Brasil dependem, exclusivamente, da informação produzida pela Radiobrás.

A Radiobrás tem uma política para distribuição de seus conteúdos para TVs e rádios comunitárias? Qual sua contribuição no fomento a essas mídias comunitárias?
Eugênio Bucci –
Tudo aquilo que produzimos é, por definição, um conteúdo público. Está disponível a todos, para reaproveitamento gratuito. Os nossos sinais de áudio e vídeo estão disponíveis em satélite, e podem ser captados por outras emissoras sem a necessidade de decodificadores. As emissoras comunitárias, que estejam em conformidade com a lei, podem utilizar livremente esse conteúdo.

Como a Radiobrás se encaixa no projeto de criação de uma TV latino-americana?
Eugênio Bucci –
A Radiobrás, ao lado dos Poderes Executivo,  Legislativo e Judiciário, integra o comitê gestor, criado no ano passado, para prestar serviço de televisão para o exterior. A TV Brasil vai falar para o exterior, começando pela América do Sul. Já realizou duas transmissões experimentais. Uma no Fórum Social Mundial, em janeiro, e outra na Cúpula América do Sul-Países Árabes, em maio. Emitimos o sinal para toda a América do Sul e várias emissoras, de vários países, aproveitaram esse sinal nos seus noticiários ou mesmo para transmitir ao vivo. A nossa intenção é entrar no ar, em definitivo, ainda este ano.

Qual é o objetivo dessa TV?
Eugênio Bucci –
O objetivo oficial, declarado e escrito, é fortalecer o processo de integração entre os países da América do Sul. Não tem, como objetivo, fazer propaganda do Estado brasileiro, ou das autoridades do Brasil, mas de cumprir a missão estratégica de fortalecer o processo de integração, utilizando, no conteúdo da programação, produções dos países vizinhos da América do Sul, mediante convênios.

Qual freqüência ela vai ocupar. É a mesma de hoje?
Eugênio Bucci –
Não. Vamos ter que licitar um outro espaço em satélite, e esse satélite é que irá jogar o sinal para toda a América do Sul. As operadoras de cabo locais precisarão baixar o sinal e incluí-lo em sua programação.

Quanto vai custar essa TV?
Eugênio Bucci –
Temos um orçamento de R$ 8 milhões para 2005. Mas não realizamos nada desse dinheiro, ainda. Conseguimos dar os primeiros passos com as estruturas de comunicação e técnicas existentes nas empresas envolvidas – Radiobrás e comunicação do Senado, da Câmara e do Supremo. E, nas duas transmissões experimentais, conseguimos o sinal de satélite praticamente de graça.

Qual é a importância, para o Brasil e para o brasileiro, de uma emissora de TV desse tipo?
Eugênio Bucci –
Há uma grande oportunidade e uma grande importância estratégica. A oportunidade é que a implantação desse serviço praticamente não vai onerar os cofres públicos. As nossas estruturas permitem, com muito pouco investimento e com custeio muito pequeno, que se realize esse tipo de ação, pelo menos para sua implantação. Já temos os custos fixos praticamente resolvidos. No ano passado, fizemos um grande investimento na aquisição de material que capacita toda a Radiobrás. Para o Brasil, assim como para os demais países da América do Sul, trabalhar a integração, nos planos da comunicação e da cultura, é fundamental tanto para o nosso envolvimento e desenvolvimento dentro da América do Sul, quanto para as relações com outros blocos comerciais. Uma TV internacional poderá contribuir, como uma iniciativa entre várias, para que esse processo se acelere e seja mais saudável.

E a digitalização dos sinais de rádio e TV?
Eugênio Bucci –
No caso do rádio, estamos participando de um grupo de estudos que está fazendo testes. A digitalização virá, mas será um processo lento. No caso da TV, a sobrevivência das emissoras públicas não depende da tecnologia, mas de decisões políticas. É preciso saber se as democracias e o poder público querem ou não um sistema público de comunicação.

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