A TVA e as divergências no mundo convergente


{mosimage}O mundo pode até ser convergente, mas nunca houve tantas divergências entre as empresas competidoras dos mercados digitais. No epicentro de uma dessas disputas estão as TVs por assinatura e as telcos. A executiva Leila Loria, presidente da TVA, não se esquiva da briga. “As empresas de telefonia querem assegurar o monopólio do mercado de voz dando serviços de TV para seus clientes. Aí não pode, é Davi contra Golias”, protesta ela, em entrevista ao Tele.Síntese.

O mundo pode até ser convergente, mas nunca houve tantas divergências entre as empresas competidoras dos diversos mercados digitais. No epicentro de uma dessas disputas estão as Tvs por Assinatura, neófitas no mercado de voz, e as telcos, ávidas por avançar na distribuição de conteúdo. A executiva Leila Loria, presidente da TVA, não se esquiva da briga. “As empresas de telefonia querem assegurar o monopolio do mercado de voz dando serviços de TV para seus clientes. Aí não pode, é Davi contra Golias”, protesta, nessa entrevista ao Tele.Síntese.

Outra polêmica que Leila encara de frente é a briga com a Globosat pelos canais esportivos. Apesar do acordo da empresa da Globo com o Cade, o SporTV ainda não está disponível nas operadoras da associação NeoTV, (entre elas a TVA), por causa de entrave na negociações. “Os canais têm que ser oferecidos em condições isonômicos, do contrário voltaremos ao Cade”, ameaça Leila.

A TVA iniciou suas operações em 1991. Atualmente, conta com 320 mil assinantes em TV por assinatura, distribuídos pelas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Curitiba, Florianópolis, Foz do Iguaçu e Balneário Camboriú.  Distribui seus serviços por meio das tecnologias Cabo (digital e analógico) e MMDS (digital e analógico). Atualmente, tem em seu portifólio os produtos: TVA Digital, TVA DVR, TVA HDTV, Ajato (banda larga, com 60 mil assinantes) e TVA Voz.

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Tele.Síntese – Por que a TVA decidiu investir em produtos de alto padrão, como HDTV (em parceria com a Gradiente, na Copa do Mundo) e o Sling Box (TV por assinatura portável, cujo setop custa R$ 1000) quando o mercado brasileiro parece verde para demandar tais serviços?
Leila – Primeiro, porque possuímos uma infra-estrutura de muita qualidade. Digitalizamos o cabo, mas mantivemos o analógico. Queremos atingir todos os públicos. O analógico pode atender às classes "B-" e "C+" muito bem.

E,  em nosso serviço digital, quisemos apostar numa estratégia diferente do concorrente. Em vez de jogar o preço lá em cima, com pacotes de R$ 149, começamos com preços a partir de R$ 58,90. E, com isso,  desmistificamos a idéia de que o digital é caro. Daí, surgem duas estratégias simultâneas para aproveitar a quantidade de banda e a rede moderna. Nossa estratégia é flexibilizar os pacotes para termos preços acessíveis. Claro, sem esquecer o consumidor de alto padrão, daí, por exemplo, o HDTV.

Já o Sling Box é claramente para alguém que viaja muito e faz questão de ficar conectado aos seus programas favoritos.  Nossa estratégia é ajustar para cada consumidor o que ele pode pagar, dentro do conceito on demand, temos um sistema integrado de quase 40 pacotes, somos a operadora que tem maior flexibilidade. Há várias combinações de canais que a pessoa pode escolher, praticamente um serviços à la carte.

Tele.Síntese – Como uma empresa se torna triple play de um dia para o outro?
Leila – É realmente um enorme desafio. Estamos passando por ele. Muda tudo na emprsa. Antes, vendíamos três pacotes, agora são 40. Os departamentos de venda, marketing, tudo tem que ser diferenciado. Agora temos maior responsabilidade com nosso assinante. Temos que conhecê-lo melhor. Se viaja, muito, se tem filho, se gosta de ficar em casa.

Tele.Síntese – Imagino a confusão nos call centers…
Leila  – Pois é, até os call centers, que antes pareciam ilhas especializadas, agora também têm que ser triple play. Hoje, o atendente recebe uma dúvida e vai roteando, distribuindo para quem vai saber respondê-la. Mas estamos indo muito bem.  

Na verdade, essa mudança de mentalidade atinge toda a empresa. Para tanto, criamos uma espécie de “wikipedia” interna, sobre os assuntos relacionados ao triple play, por meio de nossa intranet. Todo mundo dá sua sugestão, vai adicionando informações disponíveis, que são guardadas em um banco de dados. Isso tudo ajuda na hora que o consumidor tem uma dúvida.    

Tele.Síntese – Que tipo de novas necessidades decorrem dessa mudança?
Leila  – Por exemplo, estamos entrando no varejo – em breve estaremos em lojas como Wall Mart e Fast Shop (ainda em negociação). A experiência de ver e ter contato com o consumidor final é muito especial. Com o HDTV (que foi lançado pouco antes da Copa do Mundo, em parceria com Band Sports e Gradiente) foi a primeira vez que fomos às ruas, ficamos 40 dias no Shopping Iguatemi.  Mas, para dar certo, é aquilo que já disse, temos que requalificar todo mundo. E não é fácil, a TVA tem hoje 650 funcionários, mais 800 técnicos terceirizados, 200 atendentes de call center e 400 vendedores. Todo mundo tem que estar por dentro da nova filosofia da empresa e passar por sucessivos treinamentos. É nossa realidade, o nosso dia-a-dia.

Tele.Síntese – E o TVA Voz? Já dá para dizer que deu certo?
Leila – Estamos há pouco mais de três meses no negócio e vai demorar um tempo ainda para explorarmos o verdadeiro potencial de clientes. Mas, em breve, acreditamos que  30% e 50% dos assinantes terão triple play.  A parceria com a Telemar tem sido boa, não tem grandes segredos, o modelo é o revenue share, precisamos de uma licença de STFC para vender voz e assim por diante…

Tele.Síntese – Quando a TVA terá os canais Globosat?
Leila – Pois é, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) resolveu, fizeram o acordo (com a Globosat). Ganhamos, mas temos que levar. Só que há um problema nisso. Dentro de toda essa disputa, o que importa mesmo é o campeonato brasileiro (no SporTV) – o conteúdo que todo assinante deseja. Só que eles querem nos empurrar todos os outros canais. Teríamos que empacotar e vender tudo – que é interesse da Globo como provedora. Assim não queremos. Tem que ser em condições isonômicas.  

Tele.Síntese – A Globo se aproveitaria de uma situação…
Leila – O GNT e o Multishow são ótimos canais, mas eu passo muito bem sem eles. Se depender da Globosat, novamente, seríamos obrigados a empacotar e vender junto. Mas não dá. Nossos clientes têm o direito de escolher o que querem. Não empurramos nada. Isso é uma distorção, um concessionária pública (Rede Globo) não pode aproveitar e repassar seu privilégio à uma empresa de TV por assinatura. Vamos brigar pelos nossos direitos ou então voltaremos para o Cade. (N. do R: à época da entrevista, Leila acreditava que os canais Globosat poderiam ser disponibilizados já em agosto, mas as negociações continuam em curso).

Tele.Síntese – Com o mundo convergente e mobile, parece que o conteúdo está mudando, não é?
Leila – Isso é uma característica da realidade fragmentada em que vivemos. E, nesse contexto, o mundo aponta para o vídeo, mais do que o texto. O que importa para o consumidor é a sensação de liberdade e mobilidade. Assistir a seus programas na hora que quer, poder interagir com aquilo. Isso requer um tipo de conteúdo diferente, mais rápido e curto. Se é para ver numa tela de celular, é claro que a exigência será menor em relação aos gráficos, à qualidade da imagem. Por outro lado, se é para ver em casa, tem que ser tudo do melhor, um home theatre, o High Definition, por isso a promoção da Copa Mundo. Há sim cada vez mais consumidores com esse tipo de perfil no país.

Tele.Síntese – Isso muda os contratos com os provedores de conteúdo…
Leila – Sim. Há coisa de poucos anos, os contratos eram de cinco anos ou mais. Hoje em dia, são menores, três, dois anos.  Em casa, o consumidor quer ter disponibilidade. Ver os programas no horário que quiser.  Já temos produtos desse tipo, o free view, com o Discovery e outros canais em horários flexíveis, alternativos.  

Tele.Síntese – Estamos acompanhando um movimento agressivo das grandes empresas de telefonia em direção ao mercado de TV por assinatura. A posição da ABTA é contrária a isso, assim como a da sua empresa. O que acha? É possível, em pleno mundo convergente, evitar que isso aconteça?
Leila – Antes de tudo, é bom deixar claro que não temos nada contra a competição. Estamos acostumados com isso, os mercados de TV por assinatura e banda larga são extremamente competitivos. Agora, as operadoras de telefonia estão muitos preocupadas com o VoIP e a erosão das receitas. Nesse contexto, pretendem oferecer serviços de vídeo para garantir o monopólio. Elas (as telcos) podem dar o vídeo para garantir o monopólio da telefonia fixa. Aí não pode. É Davi contra Golias.

Tele.Síntese – No caso, você acredita que a Anatel, com os sucessivos processos de desgaste que vem sofrendo, pode intermediar a questão com propriedade?
Leila – Olha, eu acredito. É fundamental que, neste momento de convergência, tenhamos um órgão regulador forte, técnico, atuante e que garanta a regulação independente. É claro que a Anatel tem tido dificuldades, mas esperamos que a agência tenha as condições para desempenhar seu papel em momento de tamanha importância.

Tele.Síntese – Para finalizar, gostaria que comentasse a entrada da Naspers (empresa sul-africana que comprou 30% da Abril, dona TVA) na empresa?
Leila – Foi muito boa. Diz muito respeito a nós, porque eles tem uma operação forte de pay TV, com mais de 1,5 milhão de assinantes. Ou seja, trazem know how, experiência, foco e novas idéias. Tudo isso será aproveitado. Claro, não são controladores, mas compartilham a mesma visão que nós, o que é ótimo.

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