A televisão tem que acertar o passo


Lembro-me que, quando estamos num desfile de 7 de setembro e observamos os soldados que passam marchando, sempre tem um que fica sem sincronismo ao restante do grupo.  Na verdade, ele se esforça, dá um sobre passo, até conseguir sincronizar novamente seus movimentos aos de seus companheiros.

No momento atual, a televisão brasileira, momentaneamente perdeu a sincronização com outros meios que utilizam a tecnologia digital para suas aplicações ou serviços.

Houve um período que a televisão no Brasil ditava a evolução para seu serviço.  Por exemplo, o videocassete surgiu após o desenvolvimento do videotape. A transmissão em cores iniciou um processo de revolução nos receptores domésticos e, hoje, ninguém fala mais em receptores em preto e branco. Quando o DVD chegou, a televisão nem sonhava com transmissão digital e as pessoas já desfrutavam em casa a tecnologia digital.

Atualmente, a questão digital que iniciou como um apelo tecnológico para atualização das transmissões de quem investe na tecnologia, está com uma conotação de inclusão social a partir da inclusão digital. Isso dificulta uma decisão, por parte do governo federal, porque tem a preocupação em oferecer à grande parte da sociedade uma possibilidade de ser incluída, principalmente os mais desprovidos, os esquecidos, os abandonados e mostrar ao mundo que pode sim, existe uma maneira de interligar pessoas totalmente isoladas com o resto do mundo.

O mundo conhece e sabe que apenas a radiodifusão alcança todos os níveis de uma sociedade díspar. Por outro lado, quando existe um desnível muito elevado entre os segmentos da sociedade, é bem capaz dessa mesma sociedade necessitar de dados fundamentais como luz elétrica, água encanada, escola pública, segurança, emprego e moradia do que interligar seu universo com o de outra pessoa.

A comunicação sempre dependeu da capacidade do usuário final em entender o que lhe é oferecido.  O ambiente atual e futuro desse usuário final, que nós conhecemos como telespectador, terá à sua disposição um cenário de TV, rádio, PC, set top boxes, CD-ROM,
DVDs, satélites, Internet, sistemas móveis pessoais etc., onde não poderá ser possível carregá-los todos simultaneamente.  Ou será possível?

Alguns que saíram à frente e pensavam tirar grande proveito digitalizando seus sinais, chegando às pessoas ou às suas residências com ousadia de um serviço novo e de alta capacidade.  Hoje, percebem, que não foi a televisão que perdeu o passo, eles é que se adiantaram em relação à televisão e agora necessitam que ela se aproxime.

Novo cenário

Por quê? Porque existe uma legislação a ser cumprida.  A radiodifusão é um veículo de comunicação social assumido pelo Estado brasileiro. A tecnologia digital para a televisão é esse sobre passo que a televisão precisava para alcançar os demais e ao mesmo tempo dar-lhes a satisfação de contar com seu conteúdo.

Imagine com que potencial virá?  O público poder escolher o próximo comercial! Poder contar com interatividade em programações em tempo real, inclusive aquelas de grande audiência. Ao mesmo tempo, por ter plataforma de distribuição comum, você gerenciar sua mídia plenamente de outro ambiente.

Realizar interatividade plena, mesmo que o acesso não seja em tempo real. É um cenário novo que estamos apenas iniciando.  Por que esperar mais tempo para decisão?  A televisão poderá superar essa concorrência extremamente competitiva, com suas transmissões analógicas?

Não acredito, o momento é agora, pois a radiodifusão brasileira é o mais importante veículo de comunicação social e não pode perder mais tempo.  A cultura nacional em todos os seus aspectos, tem sido difundida pela televisão preservando suas características regionais e suas individualidades e precisa continuar sua difusão em nova base, em base de alta definição.

Não à dependência

A informação e o entretenimento tem chegado, de forma gratuita, a todos os lares nesse nosso país.  A sobrevivência desse veículo de comunicação social, o maior veículo existente, não deve ficar dependente da disposição das demais mídias em promover uma plataforma que possa dar passagem a todas.  

Também acredito que não deva ficar à mercê de ações com características de políticas públicas, mesmo não sendo políticas públicas, como desculpa de atraso na busca de superação de problemas sociais por solução tecnológica.

Serão bem-vindas as etapas que contribuirão para definir o melhor caminho da convergência, assim que o padrão digital para a radiodifusão for estabelecido. Para atingir esse propósito de convergência entre radiodifusão e telecomunicação, alguns pontos precisam ser desenvolvidos ao longo do tempo, que podem ter aceitação comum entre os diversos atores e pontos para os quais haverá necessidade de uma intermediação governamental, buscando sempre o interesse social, a preservação dos setores produtivos e a convivência harmoniosa de toda a sociedade.

Acertando o passo

O desfile já começou e os soldados já estão marchando, com atraso tecnológico ou não todos estão desfilando.  Para o público que assiste, os que estão no mesmo passo não despertam o sorriso de curiosidade, nem de gozação.

Para o que perdeu o passo, só resta dar o sobre passo.  A radiodifusão está dando agora o sobre passo.  Se não for agora, o espaço a ser percorrido não poderá ser recuperado tão facilmente. Precisamos estar atentos a isso pois a discussão mundial já mudou.  Hoje, já se discute a nova etapa na Europa, nos Estados Unidos, no Japão e na Coréia.

A questão da convivência multimídia, preocupados que estão no intercâmbio de programas digitais, materiais que precisam de padronização e qualidade compatível com os meios de comunicação que os transportam e distribuem.

Categorias de opções que demandarão intercâmbio de eventos ao vivo, sob demanda e por pay-per-view. A distribuição desse conteúdo seguirá por meios que vão desde o satélite até a telefonia celular, passando pela TV a cabo, a radiodifusão, a telefonia fixa e outras formas de distribuição. O que determinará o avanço nesse sentido é a aglutinação no mesmo receptor de informações oriundas de meios diferentes de distribuição.

Como outras mídias também acreditam, o radiodifusor acredita que o advento da televisão digital criará condições para que sua mídia agregue mais valor ao seu programa, relacionando outras informações com sua programação.

A estratégia para decisão tem que passar pelo reconhecimento da necessidade de migração pelas emissoras.

Outro ponto fundamental é que a digitalização conduz para a alta definição e mobilidade.  Não se pode conceber que um modelo de exploração adotado não contemple pelo menos essas duas possibilidades.

A alta definição é uma nova experiência. Nada supera a qualidade da imagem e do áudio que ela apresenta.  A produção em alta definição tem aceitação internacional e, portanto, ajuda o desenvolvimento do mercado produtor e exportador.  A alta definição tornou-se uma realidade para a nova tecnologia.

A mobilidade, seja ela a capacidade de receber conteúdo de informação diferenciada em receptores tipo hand held ou em receptores que podem ser deslocados a uma grande velocidade sem perder a informação desejada, promoverá a convergência ou integração rápida entre o televisor e o celular.

A interatividade não foi citada porque todos os padrões que são conhecidos permitirão um intercâmbio de informações com o receptor, tornando-o mais amigável.

Estamos participando de um novo mercado, dinâmico e competitivo, que caminha e avança na direção do público em geral.  Esse público pode estar em qualquer lugar do país melhor, em qualquer lugar do planeta.  Ele quer receber sua informação e seu entretenimento com a mesma qualidade, em qualquer lugar.

Temos feito um enorme esforço para continuar competindo, gerando empregos e riquezas para o Brasil.  

Queremos continuar no desfile e sabemos que o país não pode prescindir da nossa presença na sua marcha para o futuro, pois estamos carregando o instrumento mais importante.

O momento da decisão é agora.


*Engenheiro, assessor técnico da Abert, membro do grupo de Estudos de Radiocomunicação da UIT.

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