A Telemig Celular vai oferecer VoIP


{mosimage}Entusiasta do movimento de consolidação, André Mastrobuono, presidente da Telemig Celular, enquanto aguarda que os controladores selem a venda da operadora e de sua parceira – a Amazônia Celular -, vai tocando a construção da rede de terceira geração, com o objetivo de atacar a telefonia fixa.

Tele.Sintese – Você é o novo presidente do Conselho de Administração da Acel – que congrega as operadoras de telefonia móvel. Qual vai ser o papel da entidade este ano?
André Mastrobuono – Este é um ano importante e, na evolução da indústria, a Acel conta com empresas híbridas e “puras”, ou seja, que atuam apenas no mercado de telefonia móvel. Eu, particularmente, acho que essas associações tendem a desaparecer, pois vão ficar três ou quatro players integrados. O futuro leva à integração.  No curto prazo, há um momento único no país de reestruturações e consolidações. É um ano “quente” para eventualmente se mudar o PGO ou se criar uma licença única.

Tele.Síntese – As operadoras móveis carregam, ao mesmo tempo, o sucesso por já terem mais de 100 milhões de brasileiros como clientes, mas também são cada vez mais questionadas, principalmente no Congresso Nacional, por estarem ausentes na maioria dos municípios brasileiros. A Anatel pensa em uma nova modelagem para as licenças de 3G  em que se daria prioridade para a universalização. Como você vê essa questão?
Mastrobuono – Acho que deve ser uma mistura geral.  A  agência reguladora, os congressistas e governo ainda mantêm a lógica de regular a telefonia por tipo de serviço: há uma regra para a telefonia fixa, outra para o celular, ou para a longa distância. Essa lógica valeu  alguns anos atrás. Agora, um bit de voz, de dados ou de imagem é a mesma coisa. O importante é o acesso. No fixo vai passar tudo, na televisão vai passar tudo, no computador, já passa tudo. Deveria se garantir  que a população tivesse disponibilidade de acesso.   A maneira mais fácil é reconhecer que a competição não se dá entre serviços, mas por tipos de acesso e permitir que esses acessos possam agir o mais rapidamente possível. Na medida em houver essa mudança, o mercado se ajusta e irá encontrar a alternativa mais econômica para chegar nessas localidades. É bom  lembrar também que o serviço móvel cobre mais de 80% da população.

Tele.Síntese – Sim, mas mais da metade dos municípios brasileiros, que congregam 20% da população, não têm o serviço.
Mastrobuono – Nos dois primeiros municípios que nós instalamos o serviço, pelo programa do governo estadual, o  “Minas Comunica”, o tráfego foi lá para cima. Ou seja, as pessoas já têm o celular e, quando saem da região, falam normalmente.

Tele.Síntese – Em relação ao “Minas Comunica”, qual é a principal atratividade do programa?
Mastrobuono – O programa abriu uma linha de crédito subsidiada, mais barata que o custo de capital da empresa. A nossa cota é de R$ 55 milhões. Os  juros subsidiados viabilizam o retorno sobre o investimento. Em síntese, o governo de Minas nos concedeu um financiamento barato.  Mas, se o mar balançar demais, tem hora que corremos  riscos.  Só receberemos o dinheiro depois que a fiscalização comprovar a instalação da rede.  Só depois que entregamos a nota fiscal é que o governo repassa o dinheiro.  Na verdade, a empresa adianta os gastos.  

Tele.Síntese – As empresas pediram alguma contrapartida, como uma reserva de mercado?
Mastrobuono – Não. Qualquer empresa que quiser entrar sozinha em qualquer dos municípios que foram licitados, poderá fazê-lo. Nós, por exemplo, independentemente do “Minas Comunica”, iríamos cobrir alguns dos 400 municípios que foram licitados de qualquer maneira. Alcançaremos 520 municípios e ainda deveremos chegar a mais 80 municípios, fora do Minas Comunica.  Chegaremos em 600 muncípios mineiros em um ano. Apesar de o governo ter concedido o prazo de 18 meses, queremos, em um ano, estar presentes em todos os muncípios do Minas Comunica e em mais  80 cidades.

Tele.Síntese – Quantos novos usuários serão incorporados?
Mastrobuono – Imaginamos que iremos incorporar cerca de 400 mil novos usuários em um prazo de cinco anos. Hoje, a Telemig Celular tem 3,5 milhões de clientes e a Amazônia Celular, 1,5 milhão.

Tele.Síntese – A venda da Telemig Celular acontecerá ainda este ano?
Mastrobuono – A intenção de todos é de que aconteça.

Tele.Sintese – Você acha que esse movimento de concentração (reforçado com o recente anúncio da compra da Tim pela Telefónica) é bom para o país e para os consumidores?
Mastrobuono – Sim. Hoje, na  longa distância, onde se tem o maior nível de competição que se possa imaginar, pois ela se dá cada vez que o usuário faz uma chamada, tenho dúvidas se ela foi tão boa assim. Com esse mecanismo, o ganho que a Telemig Celular poderia oferecer ao seu cliente, não existe. Como a Telemig é coligada da Brasil Telecom, nós nem podemos fazer ligações de longa distância. Outro exemplo, a Vivo, se quiser levar uma chamada do Rio Grande do Sul para o Amazonas, de Vivo para a Vivo, não pode. Ela tem que entregar a chamada para Embratel, para Telefônica, ou qualquer outra, e pagar um pedágio.  Nenhuma empresa pode cobrar tarifa local, pois a lógica regulatória é outra. Na hora em que se entender que a regulação precisa mudar, e deixar que se consolidem três grandes empresas, que continuarão a competir entre  si, será melhor para todos e não haverá possibilidade de acordos. É preciso  economia de escala. O Brasil tem 100 milhões de usuários, mas a receita é muito baixa. É um absurdo a gente  ver três ou quatro antenas no mesmo quarteirão. O Brasil não tem dinheiro para isso.

Tele.Síntese – Você acha, então, que uma rede única, compartilhada pelo diferentes players seria melhor para o país?
Mastrobuono –  Acho que, teoricamente, ela faz sentido, mas, na prática, não vejo como. Se a rede fosse nova, perfeito. Mas a rede já existe e haveria o custo de desmontá-la para promover a sua consolidação.

Tele.Síntese – A 3G não é uma rede nova?
Mastrobuono – Não. As empresas vão instalar a nova tecnologia nas mesmas antenas. Talvez precisem só de alguns sites a mais.

Tele.Sintese – Como está o processo de venda da  Telemig/Amazônia Celular?
Mastrobuono – O interesse existe, independentemente de qualquer consolidação. Mas é preciso combinar com os compradores, preço e prazo. O grupo Telemig Celular/ Amazônia Celular dá 5 pontos de market share para qualquer player. E, como a disputa está cabeça a cabeça, ela desperta sempre interesse.  

Tele.Síntese – Como você vê a evolução dos serviços da telefonia móvel? Vocês anunciaram que pretendem fazer 3G na freqüência atual de 850 MHz. Não é muito caro?  A Telemig Celular não corre o risco de ficar como a Vivo, sem opção de expansão, por falta de freqüência?
Mastrobuono – Até o final do ano, espero ter migrado 80% dos meus clientes TDMA, que ocupam a freqüência de 850 MHz, para o GSM (freqüência em 1,8 GHz). Com isso, tenho banda suficiente para instalar a terceira geração em 850 MHz. A capacidade da empresa de avançar na 3G vai ser a velocidade de promover a migração da base atual para o GSM. Como administro uma operadora pequena, que  não pode se dar ao luxo do desperdício, se puder não gastar dinheiro com as novas licenças, prefiro. A licitação das sobras do SMP não nos interessa em nada, no máximo a freqüência de 3G em 2.1 GHz.

Tele.Síntese – Mas esse aparelho celular em 850 MHz não vai ser muito caro, por falta de escala?
Mastrobuono – A Cingular, dos Estados Unidos, está construindo toda a sua rede 3G em 850 MHz. A Cingular não gera escala de equipamentos?  A conta que iremos fazer é a seguinte: o preço da licença vai amortizar o delta do custo de aparelhos ao longo do tempo?

Tele.Síntese – Você já começaram o projeto-piloto?
Mastrobuono – Estamos fazendo um piloto bem ambicioso. Ele vai cobrir toda a região metropolitana de Belo Horizonte. Em 90 dias, estaremos fazendo o up grade da rede. Faremos os testes de produto e de preços no terceiro trimestre e lançaremos comercialmente o serviço no último trimestre deste ano.  

Tele.Síntese – A estratégica de vocês é competir com a banda larga fixa?
Mastrobuono – Sim. O device do serviço é um pen drive que se pluga no lap top, com velocidade muito boa. Para nós, é muito mais importante conquistar o cliente de banda larga do que oferecer vídeo, ou videoconferência móvel ou qualquer outro serviço multimídia.  Nosso objetivo e competir na banda larga e VoIP.   

Tele.Síntese – O que vocês ganham fazendo VoIP?
Mastrobuono – O nosso objetivo é atacar a rede fixa. O cliente, ao invés de comprar o ADSL da Oi, vai entrar na minha rede wireless e fazer Voz sobre IP na casa dele. Ele não precisará ter mais a linha fixa. Ficará só com o meu número VoIP.

Tele.Síntese – E quanto ao conteúdo audiovisual? Por que não está tão entusiasmado?
Mastrobuono – Nenhum modelo de negócios, lá fora, se provou sólido para trazer novas receitas. Na verdade, está-se apenas mudando os gastos do cliente. A voz está ficando mais barata e o cliente passa a gastar mais com dados. Mas, no fundo, a conta mensal continua a mesma.  Lá fora, a 3G não gerou renda agregada adicional. Se se imaginar que é um mecanismo defensivo para se preservar o que se chama de share of wallet ( a fatia no bolso do cliente), ótimo. A voz vai, obrigatoriamente, cair de preço ao longo do tempo.

No nosso caso, seremos um atacante. Posso destruir um pouco de valor, para gerar uma tranferência de renda em um mercado onde estou absolutamente fora. Sei que não estou contribuindo para o bolo geral da indústria de telecomunicações crescer. Sei que irei sangrar alguém para poder crescer. Essa é a guerra comercial. Sinto muito.

Tele.Síntese – Então, vocês abandonaram o vídeo como alternativa de serviço da 3G?
Mastrobuono – Nós vamos explorá-lo e testá-lo. Mas não vamos  pular na piscina de olho fechado.

Tele.Síntese – A estratégia da empresa parte do princípio de que o preço da licença 3G será muito caro (seja pelo valor a ser pago ao governo, seja pela cobertura a ser exigida). Isso significa que  a Telemig Celular  abandonará mesmo a disputa?
Mastrobuono – Estamos fazendo um movimento que nos torna menos dependentes da licença de 3G. Não significa que não iremos ao leilão. Sabemos que o espectro é um bem escasso.  Se fizermos as projeções e constatarmos que a freqüência de 850 MHz não irá comportar os usuários, obviamente, iremos às compras. Mas  estamos fazendo um movimento que nos torna menos dependentes desse espectro. Na hora do leilão, podemos tomar uma decisão mais racional, menos emocional. O acordo com a Ericsson, que é a fornecedora, vai  permitir fazer a migração para a 3G.  

Tele.Síntese – Quanto é o investimento nesse projeto?
Mastrobuono – Ele  faz parte do gasto total que terei com a Ericsson este ano. Em rede, irei investir  R$ 250 milhões. A maior parte deste gasto é da Ericsson. Nesse montante, não estão incluídos os R$ 55 milhões do “Minas Comunica.”

Tele.Síntese – A licitação das sobras de freqüências do SMP prejudicam sensivelmente a Telemig Celular, pois permite que ingresse no mercado mineiro mais um competidor. Como vocês vão agir?
Mastrobuono – Desde que a licitação respeite processualmente todas as questões, for correta, transparente e regular, é a regra do jogo. O que não pode é se querer colocar o carro na frente do boi.  Se há um plano de outorgas que precisa ser mudado, antes de se fazer a licitação, ele terá que ser mexido.

Tele.Síntese – Mas a Anatel já derrubou a liminar da Telemig que impedia o leilão, sem a mudança no plano de outorgas.
Mastrobuono – Ainda não foi decidido o mérito da questão e, se o mérito for a nosso favor, a licitação pode parar de novo.  

Tele.Síntese – Como será este  ano para a Telemig Celular?
Mastrobuono – A Telemig estava marcando passo. Fizemos um teste mercadológico no Natal  para ver se a marca ainda era forte, pois a Telemig estava perdendo market share e queríamos saber se o problema era o desgaste da marca.  A resposta foi superpositiva, o que nos motivou a fazer o nosso PAC – Plano de Aceleração do Crescimento, com 13 frentes, das quais 8 são comerciais. Já mudamos o portfólio dos planos de tarifa pós-pagos, do varejo, corporativo, da recarga. Reprecificamos o serviço de valor adicionado. Reestruturamos os  canais de distribuição. Tudo o que  fizemos na Telemig também fizemos na  Amazônia Celular, que hoje tem 23% de marke share. Ela era incumbent, hoje, não é mais. A Telemig perdia por volta de 7% a 8% de market share por ano, o que dá, 0,6, 0,7 pontos percentuais por mês. Nos, últimos cinco meses, perdemos só meio ponto percentual. Não conseguimos reverter totalmente, mas conseguimos estancar a queda, com rentabilidade.

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