A pandemia nos tornou mais reféns da tecnologia, avalia o filósofo João de Moraes


Doutor pela Unicamp, mestre pela Unesp, Moraes conversou com o Tele.Síntese sobre as transformações que a pandemia trará à relação humana com a tecnologia. Diz que, neste momento, a crise expõe desigualdades informacionais e propõe o acesso gratuito à internet como remédio.

Em meio ao isolamento social ocasionado pela pandemia do Covid-19, o uso das tecnologias se intensificaram. De acordo com a pesquisa Hibou e da plataforma de dados Indico, de 2.400 entrevistados em todo o país, 59,9% dos brasileiros estava trabalhando em home office no mês passado.

O fenômeno trouxe reflexos sobre as redes das operadoras, que passaram a funcionar com tráfego mais intenso, especialmente em áreas residenciais ao longo do dia. Mas tem impacto também sobre o funcionamento da sociedade, nosso estilo de vida e escancara as diferenças, como bem aponta o professor João de Moraes.

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“A pandemia altera a forma como a gente se relaciona com a tecnologia, de modo que acabamos ficando mais reféns dela”, avalia. Moraes é doutor em Ética Informacional pela Unicamp, mestre pela UNESP, coordenador e professor do Departamento de Filosofia da Faculdade João Paulo II (FAJOPA), e falou com o Tele.Síntese de sua casa, numa entrevista feita por telefone.

A pandemia se dá em um momento de transformação digital da sociedade e da chegada da 5G. E já serve para explicitar diferenças que precisam ser reduzidas. “O que a gente tem com a pandemia é uma amplificação das desigualdades sociais em quaisquer estágios que você queira analisar, vemos por exemplo, a diferença da possibilidade de estudo entre as escolas particulares  e as estaduais, nas questões educacionais”, explica.

Segundo ele, a crise sanitária vai catalisar transformações, gerar ansiedade e levará as pessoas a repensarem o uso excessivo que fazem da tecnologia quando a poeira baixar. Será preciso buscar a compreensão de que precisaremos ter momentos de “modo avião”, diz. Leia abaixo a conversa que tivemos com o acadêmico.

Tele.Síntese: De que maneira a pandemia mexe com a forma como nos relacionamos com a tecnologia?

João Moraes: A pandemia altera a forma como a gente se relaciona com a tecnologia, de modo que acabamos ficando mais reféns dela. Com essa política de isolamento que é a sugestão da OMS, sendo o mecanismo mais adequado para lidar com esse tipo de contexto, a tecnologia fica como uma saída para que a gente possa ter um contato com o mundo externo, é a manutenção da nossa dinâmica rotineira. Então, acredito que a tecnologia acaba se amplificando no nosso dia a dia de um modo que, por mais que tenhamos nos acostumado a utilizá-la na circunstância massiva, houve uma intensificação quase que abrupta da quantidade de tempo que a gente passa nesse artefato tecnológico.

Tele.Síntese: Essas mudanças serão permanentes?

Moraes: Podemos ter duas situações possíveis, uma é o aprimoramento da qualidade do uso da internet, as pessoas começarão a melhorar sua capacidade de noção e entendimento de como esse ambiente funciona, e como ele pode servir. Mas, também às vezes podemos entrar numa situação de cansaço e exaustão, por conta do conteúdo massivo e a obrigatoriedade em algumas situações na vida cotidiana do uso da tecnologia para que a gente possa dar conta dos nossos compromissos diários. Pode ser que após a pandemia as pessoas comecem a repensar a quantidade de tempo permanente nesse mundo virtual.

Tele.Síntese: Haverá alguma mudança significativa do uso que fazemos da internet?

Moraes: O significativo, pode ser entendido nesse caso como nesse sentido de sabedoria de utilização, manuseio da internet e conhecimento de novas plataformas. Um exemplo básico são as plataformas de videoconferência, que já estavam aprimoradas antes da pandemia, mas apenas uma pequena parcela da população conhecia esse tipo de tecnologia. É um exemplo simples do avanço significativo da internet. Graças à pandemia, a gente acaba tendo um conhecimento maior dos usos possíveis da internet, de uma forma que extrapole apenas o uso das redes sociais.

Tele.Síntese: A pandemia acontece, por coincidência, em um momento de forte transformação na conectividade. A 5G chegou a muitos países, metade da população mundial acessa a internet, as internet das coisas caminha para ser muitas vezes maior em fluxo de dados do que a “internet humana”, a inteligência artificial já virou exigência nas empresas que queiram continuar existindo. Qual o papel do humano no futuro? A pandemia já dá pistas desse papel?

Moraes: Acredito que o papel do ser humano é justamente fazer uma posição crítica da qualidade e das questões éticas por trás da manipulação da informação. A questão da 5G está sendo discutida e começando a ser incorporada no Brasil, mas ainda há uma discrepância gigantesca em relação ao próprio acesso a internet comum, banda larga ou a 3G. O papel do ser humano nesse contexto da sociedade de informação, no qual as tecnologias dialogam entre si, está nos caminhos que essas tecnologias podem vir a percorrer, e principalmente nas tomadas de decisões. Temos a tecnologia de big data que interage justamente com esses tipos de tecnologias citadas, elas direcionam muito sobre as decisões tomadas no campo do humano, então o papel fundamental do ser humano nessa sociedade que está por vir é ter um posicionamento crítico acerca dos limites da utilização dessa tecnologia.

Tele.Síntese: O uso constante das tecnologias durante o isolamento pode ser considerado mais benéfico ou tende a ser prejudicial? Você já deve ter ouvido reclamações de amigos que estão trabalhando mais em casa do que na empresa…

Moraes: Acho que vem muito da pré-pandemia, de como o uso já era feito, acho que a gente tem um certo tipo de uso de intensificação, no sentido que podemos ter benefícios ao tentar manter a normalidade da nossa vida e pode ser prejudicial nas questões emocionais que surgem na pandemia, como ansiedade, falta de compreensão de o que vai ser do futuro, de quando isso vai acabar… Então a internet acaba contribuindo para uma tentativa de a gente manter nossa rotina, porém ela também acaba carregando problemas que são intrínsecos, como maior consumo de informações de fontes duvidosas, uma enxurrada de informação que ao invés de contribuir para a ansiedade, a prejudica.

Vivemos em bolhas informacionais, ou seja, a gente busca as informações que nos agradam. Acredito que com o maior consumo de internet, vamos estar cada vez mais dentro da nossa bolha, já que não há o contato com pessoas que não estão na nossa bolha, temos menos conflito com as diferenças, e com menos conflitos, temos menos conhecimento efetivo, conhecimentos adequados. Dessa forma, gera-se uma crise de conhecimento complicada.

Tele.Síntese: Como podemos evitar esse sentimento de ansiedade com o uso constante da tecnologia?

Moraes: A ansiedade já é considerada uma doença gerada pelo uso intenso da tecnologia, devido à essa necessidade de ter um acesso e de verificar se tem alguma novidade o tempo todo. Acredito que uma estratégia para a gente conseguir lidar com ansiedade de informação de uso da tecnologia é adequar alguns hábitos e tentar aos poucos viver no modo avião.

Tele.Síntese: Qual parcela da população sofre um maior impacto no decorrer do isolamento? É possível suprir tais impasses com auxílio de serviços de sistemas de comunicações? Há um risco de a pandemia aprofundar diferenças sociais, com base na conectividade?

Moraes: Com certeza a população classe baixa, e por vários motivos. Na questão da educação, por exemplo, a alternativa é de manter a regularidade do sistema à continuação com a tecnologia, mas boa parcela da população não possui uma conexão, e boa parte da população não tem nem espaço que permita o estudo, caso tenha acesso ao computador. O público da classe baixa tem que ter a condição de fazer um bom isolamento social.

Temos uma excelente alternativa com a oferta de internet gratuita, é um primeiro passo muito interessante. Ele é necessário, porque começa a dar oportunidade para as pessoas que não têm poder aquisitivo de acessar a internet. O segundo passo, seria o uso adequado da internet, já que as pessoas iriam começar a tomar consciência de toda a possibilidade que a internet oferece. Acredito que sim, o primeiro passo para contribuir com uma diminuição da desigualdade em relação a conectividade é a disponibilização de planos gratuitos.

Tele.Síntese: Há um risco de a pandemia aprofundar diferenças sociais, com base na conectividade?

Muito! O que a gente tem com a pandemia é uma amplificação das desigualdades sociais em quaisquer estágios que você queira analisar, vemos por exemplo, a diferença da possibilidade de estudo entre as escolas particulares  e as estaduais, nas questões educacionais. Outro tipo de desigualdade social é a de lavar as mãos. Boa parte da população não tem água diariamente, e a recomendação básica é lavar as mãos. Temos um grande problema de acesso a internet também. Muitas pessoas têm acesso gratuito apenas às redes sociais, e o que excede a isso não faz parte do acesso dessas pessoas, então você depende dessas informações que são compartilhadas nas redes sociais, o que cria um abismo entre as pessoas que têm acesso à informação e as que não tem. Isso acaba tendo um impacto social, político e econômico muito grande na sociedade.

Tele.Síntese: Em razão do Coronavírus, várias medidas foram tomadas por grandes empresas do setor, como a criação de uma carteira digital para famílias de baixa renda e acesso gratuito a salas de aula virtuais. A pandemia precipitou transformações que ainda demorariam alguns anos para sedimentar?

Moraes: Acredito que sim.  A pandemia chegou e permitiu que vejamos na prática medidas que já estavam sendo planejadas, ela acelerou diversas decisões possíveis. Em relação a essas medidas, a questão é que agora que já foi implementada, a gente consiga dialogar e verificar de que modo está sendo efetivado e utilizado para que não tenhamos problemas para os cidadãos futuramente.

Tele.Síntese: A privacidade antes da pandemia já era motivo de preocupação, com o uso mais intenso da internet para intermediar relações que antes, os rastros digitais ficam mais longos. Como as pessoas conseguirão manter o controle sobre os dados pessoais que circulam por aí?

Moraes: A questão é se é possível, e acredito que não seja. É muito difícil que as pessoas consigam uma segurança dos seus rastros digitais, especialmente por causa das aprovações feitas de forma imediata e sem debate mais aprimorado. Ainda mais com a questão da LGPD, que foi postergada para o ano que vem. Então, com os mecanismos políticos de controle e segurança de dados jogados para frente, fica difícil haver uma credibilidade, visto que há um histórico de roubo de dados no país. Seria possível se houvesse mecanismos que os indivíduos pudessem utilizar para reivindicar seus direitos de proteção à privacidade.

Tele.Síntese: Na sociedade conectada a informação circula rápido e suas consequências aparecem mais rapidamente. E causa forte reação social – como o aparecimento de grupos extremistas. Há uma vertigem informacional? Isso gera reação, como intolerância, busca por soluções simples para temas complexos? Qual a saída para o que parece ser uma erosão da relação cordial entre as pessoas na internet?

Moraes: Sim, com certeza. Uma das coisas que faltam para a nossa maturidade de manipulação da internet, é justamente uma capacidade de filtrar as informações que a gente tem acesso, porque cada vez são mais informações, a conectividade é cada vez maior e há mais pessoas produzindo informação. Com isso, temos uma enxurrada de informação diária, e acabamos tendo, cada vez mais, um inchaço dessa bolha virtual que culmina grupos extremistas, por exemplo, e gera essa vertigem.

A saída seria a humildade, entendermos que podemos estar errados, e que nem tudo o que achamos, realmente corresponde com a realidade. Temos que conseguir fazer o movimento de confronto de uma maneira educada. Muitas pessoas ainda estão conhecendo o que a internet pode ofertar e essa utilização da tecnologia acaba requerendo uma maturidade de uso. Creio que uma alternativa nesse contexto de isolamento é acelerar o nosso amadurecimento digital, que consigamos desenvolver essa cordialidade no ambiente online também.

 

*Flávia Gonçalves é estagiária no Tele.Síntese

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