A Nova Lei Áurea


{mosimage} Na década de 80 nasceu uma “lagarta” (circuito integrado) que aos poucos está devorando, com uma avidez imensa, todas as aplicações da eletrônica e poucos se dão conta disso. Ela é a responsável por todas as evoluções “disrruptivas” que estamos assistindo nos últimos 20 – 25 anos. Por José Luiz Frauendorf

O homem sempre procurou difundir sua cultura, deixar registrada suas idéias. Inscrições rupestres, papiros, pergaminhos e, finalmente, a imprensa permitiu a transmissão dessas informações através de símbolos gráficos.

Trovadores, poetas e cantores, artistas plásticos e cênicos, registraram a história, os feitos, as lendas, as verdades e as mentiras através da linguagem oral e a expressão corporal.

Com a introdução do rádio, no início do século XX, e, posteriormente, a televisão, a divulgação ficou mais fácil e tem sido muito bem empregada. Mas….a  internet está agregando todas as formas de expressão.

O homem também teve sempre a necessidade de se comunicar com seus semelhantes. Sua criatividade fez com que usasse tambores, sinais de fumaça, espelhos, mensageiros, cartas, telegrafo, telefone, telex e o fax. Mas ….. a internet está agregando todas as formas de comunicação.

O homem, a despeito da sua raça, cor da pele, convicções sociais e religiosas, buscou o comercio e inventou o dinheiro para facilitar suas transações. Movido pelo desejo de comprar e vender, organizou caravanas, expedições e descobriu continentes. Inventou os mercados, as lojas, shopping centers, criou o marketing, a propaganda, para incentivar a comercialização. Mas … a internet está transformando todas as formas de comercialização e as transações financeiras.

Ao mesmo tempo, o homem aprimorou sua tecnologia. Em menos de 5 décadas, evoluiu da válvula (50), para o transistor (60), para o circuito integrado (70) e a lógica TTL (1) – que, efetivamente,  iniciou o processo de digitalização – até chegar ao microprocessador na década de 80.  Ai a eletrônica iniciou um processo de transformação cujo ciclo está prestes a se encerrar.

Lagarta
Na década de 80 nasceu uma “lagarta” (circuito integrado) que aos poucos está devorando, com uma avidez imensa, todas as aplicações da eletrônica e poucos se dão conta disso. Ela é a responsável por todas as evoluções “disrruptivas” que estamos assistindo nos últimos 20 – 25 anos.

Primeiro devorou os  mainframes. A introdução do PC, das redes de comunicação e da arquitetura “cliente – servidor”, devorou, em apenas uma década, toda a industria dos computadores de “grande porte”. A maioria dos fabricantes, IBM, Unisys, Univac, Data General, Control Data, DEC, encerraram suas atividades, foram absorvidas por fabricantes de PCs ou reformularam seus modelos de negócio.

As telecomunicações, assim como a informática, evoluiram e, também, estão prestes a serem devorada pela “lagarta”. Os celulares, ainda analógicos da década de 90, foram rapidamente substituídos pelos digitais já nos primeiros anos deste século. Os celulares provocaram a primeira mudança de comportamento, pois libertaram o homem de amarras tecnológicas. O celular acabou com o fio de telefone, que insistia a ficar cada vez mais enrolado.

Amarras
Os fonógrafos, os gravadores, os CDs, os DVDs e, em breve os PVRs (Personal Video Recorders), rompem outras amarras, verdadeiros “grilhões” que nos mantém presos a antigas tecnologias.

Tudo isso, graças à eliminação de barreiras tecnológicas que ainda obrigam o espectador, ou ouvinte, a assistir, ou ouvir, à programação que a emissora de rádio ou a TV insiste em levar “ao ar” no momento em que ele, muitas vezes, nem se quer está disponível. A TV por assinatura já havia provocado a segmentação e, com sua digitalização, aumentará, ainda mais, as opções.

Mas a telefonia continua em transformação devendo ser, inexoravelmente, absorvida pela Internet, com a massificação da voz sobre IP (VoIP). Para que essa transformação seja totalmente concluída, falta só uma coisa, a internet, também se livrar “dos fios” e isso está prestes a acontecer, em menos de 12 meses, com a introdução das novas tecnologias wireless denominadas de WiMAX. Essa nova tecnologia, por ser totalmente “microprocessada”, quem mais, se não as maiores indústrias de “chips” do mundo poderiam estar por trás dessa inovação? A primeira incursão foi muito bem sucedida, o Wi-Fi. Nessa nova geração, deficiências e limitações foram corrigidas.  Não há nenhum motivo para que o WiMAX não trilhe o mesmo caminho.

Parafraseando um dos mais respeitados conselheiros da Anatel, “a evolução tecnológica, assim como a Lei da Gravidade, não pode ser revogada”.

Por que isso está acontecendo?
A resposta é simples, porque os microprocessadores se tornaram extremamente rápidos e baratos pois são produzidos em enorme quantidades, assim como os “biscoitos” que estão sempre fresquinhos. Sofisticados processos de modulação e demodulação, que permitem o transporte da informação através de qualquer meio elétrico (fibra óptica, cabos elétricos ou ar), baseados em princípios matemáticos conhecidos dependiam de processamentos muito rápidos para poderem ser empregados. Isso agora é possível. A “lagarta” está prestes a devorar sua nova vítima, as tecnologias “com fio”, e comer de sobremesa sua precursora, a tecnologia celular dedicada a voz.

Assim como a internet mudou nossa vida, sua utilização portátil / móvel irá tornar obsoleta as tecnologias “com fio”, a exemplo do que ocorreu com os “mainframes” há 25 anos atrás. Todo um segmento industrial irá desaparecer.

O homem poderá, se quiser, estar sempre “plugado” em qualquer lugar, a qualquer hora, por meio de um único dispositivo, que lhe -provê o acesso. O acesso lhe permitirá usufruir de diversas aplicações, como, ouvir a sua música, assistir ao seu filme, acessar a sua correspondência, consultar qualquer banco de informações, inclusive bibliotecas, efetuar a sua transação comercial, falar e ver o seu interlocutor ou interlocutores numa comunicação pessoal, através de um único dispositivo.

Nesse “palheiro” de informações, o que mais se necessitará é de um “mecanismo de busca”. Adivinhem qual é a empresa mais valorizada atualmente? Google? Acertou! Por que será?

Rompidas as barreiras tecnológicas que fizeram com que o ser humano precisasse de diversos serviços e dispositivos, passará a necessitar de um único serviço, exatamente o ACESSO. Os antigos serviços, telefonia, fixa / móvel, TV, rádio, etc… deixam de existir e tornam-se aplicações. Quanto tempo vai levar? Creio que pouco, se a indústria asiática absorver essa tecnologia rapidamente, como já demonstram os primeiros indícios. Dentro de, no máximo, 5 anos, com certeza, esses dispositivos serão tão populares como é hoje o celular. Ainda iremos nos surpreender com rapidez dessa evolução que só pode ser definida por um adjetivo: “disrruptiva”.

Tendo como “pano de fundo” esse cenário é preciso definir o novo “serviço”, ou seja, o “acesso”.

Buscando sua definição no Aurélio, pode-se encontrar: ingresso/entrada, trânsito/passagem, alcance de coisa elevada/longínqua, elevação/promoção e, por fim, comunicação.

Acesso
Dentro de pouco tempo, graças ao WiMAX, e se o Brasil souber utilizar bem os recursos que dispõe, a combinação desses fatores poderá ensejar uma nova definição em que o acesso passará a significar: ingresso/entrada para o “Mundo Digital”; trânsito/passagem para uma nova “Fase da História”; alcance de coisa elevada/longínqua como o “Conhecimento, a Educação, o Entretenimento”;  elevação/promoção social comunicação, em qualquer lugar, a qualquer tempo, das mais diversas formas, através de um único dispositivo.

Essa poderá vir a ser a nova “Libertação dos Escravos”, escravos da tecnologia, escravos da falta de oportunidades, educação adequada, escravos da falta de recurso para vencer na vida. A Lei Áurea libertou o indivíduo, mas não lhe deu chance de evoluir. Talvez a tecnologia nos liberte da ignorância.

(1)Lógica TTL:uma tecnologia desenvolvida da década de 70 para viabilizar a produção de sistemas digitais em larga escala. Surgiu com o lançamento, pela Texas Instruments, de uma série de circuitos integrados (foi o início de tudo) com características totalmente padronizadas que emulavam circuitos lógicos discretos, até então só implementados com transistores.


José Luiz Navarro Frauendorf

Formado em Engenharia Eletrônica pela Escola de Engenharia Mauá e em Administração Industrial pela Fundação Vanzolini (USP). Trabalhou por mais de 25 anos dirigindo áreas de desenvolvimento e produção de sistemas de telecomunicações e informática nas empresas Telefunken, Elebra e Digital Equipment Corporation – DEC. Desde 1994, atua na área TV por assinatura, comunicação em banda larga e VoIP, tendo sido, por vários anos, Diretor Geral de Operações da TVA. Em  2001, assumiu o cargo de diretor geral na Neotec – Associação das Operadoras de Sistemas MMDS, onde vem se dedicando ao desenvolvimento de projetos na área de TV Digital e novas tecnologias de transmissão de dados em banda larga.

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