A morte lenta dos orelhões


    Jornalista há mais de 30 anos, é diretora da Momento Editorial e responsável pela sucursal de Brasília. Especializou-se nas áreas de telecomunicações e de Tecnologia da Informação, e tem ampla experiência no acompanhamento de políticas públicas e dos assuntos regulatórios. Com a forte expansão da telefonia celular, os nossos orelhões estão sofrendo um …

 

 

Jornalista há mais de 30 anos, é diretora da Momento Editorial e responsável pela sucursal de Brasília. Especializou-se nas áreas de telecomunicações e de Tecnologia da Informação, e tem ampla experiência no acompanhamento de políticas públicas e dos assuntos regulatórios.


Com a forte expansão da telefonia celular, os nossos orelhões estão sofrendo um rápido desuso, como ocorre também na maioria das grandes cidades do mundo. Mas, se em Londres, por exemplo, as cabines telefônicas vermelhas eram o símbolo de uma sociedade cosmopolita, os nossos orelhões carregam um simbolismo maior, pois representam a conquista da universalização das telecomunicações no país . Eles estão presentes em mais de 30 mil vilarejos, perdidos também na floresta amazônica, no sertão nordestino, nos pampas gaúchos.

 

É inexplicável por que as concessionárias deixaram de dar a devida manutenção, a substituir as peças, a consertar o quebrado. É inexplicável também que a Anatel, com sua sanha em aplicar multas milionárias, permitiu que esses telefones chegassem ao grau de maus-tratos a que se verificou tardiamente. Mas, antes tarde do que nunca.O programa de revitalização dos orelhões, recentemente acordado entre agência e operadoras, teve o fato positivo de reverter este cenário de abandono. E até que os orelhões sejam revigorados, as ligações ficarão gratuitas, uma saída importante porque atende justamente aqueles que mais precisam falar e têm pouca voz junto aos órgãos de defesa do consumidor.

 

Mas o fato é que, apesar de sua capilaridade e importância social, o orelhão está definhando em morte lenta. Mesmo que o usuário saiba que a tarifa do celular é muito, mas muito mais cara do que um minuto de conversa pelo TUP (telefone de uso público) o  brasileiro também prefere a comodidade do telefone pessoal, que está sempre em seu bolso (ou bolsa)  do que o preço barato do orelhão. Com o celular, os  usuários podem também mandar torpedos, fazer  ligações gratuitas on-net. Eles  experimentam uma grande quantidade de diferentes opções de comunicação.

 

Os números da Anatel são ilustrativos deste movimento. Em quatro anos, as receitas geradas pelos orelhões em todo o país caíram quase 300%. Enquanto em 2006 os TUPS produziram R$ 2,3 bilhões de receitas para as concessionárias, em 2010 não somaram mais do que R$ 600 milhões.

 

A quantidade de cartões indutivos adquiridos também cai significativamente ano a ano. Em 2006 foram comercializados 600 milhões de cartões. Em 2011, apenas 100 milhões.

 

Hoje, as chamadas a cobrar dos orelhões geram mais créditos do que as ligações faturadas nos próprios TUPs. Em fevereiro de 2012 eram 200 créditos faturados por TUP por mês, enquanto as chamadas a cobrar somavam 400 créditos. Ou, o orelhão só está sendo usado pelo usuário que nem dinheiro para pagar uma ligação tão barata tem.

 

E por isto os orelhões  não podem desaparecer, pois eles são mesmo a única referência de comunicações para uma parcela da população brasileira.

 

A proposta da Anatel é de “rejuvenecê-los”. Algumas sugestões submetidas à consulta pública parecem inócuas, como aquela que prevê a utilização de outros tipos de cartão (que não a tecnologia indutiva) nos orelhões. Se essa medida pode baratear para as empresas a aquisição dos cartões (hoje, elas ficam dependentes de dois únicos fornecedores da tecnologia indutiva) poderá demorar muito para ser implementada, pois, conforme a proposta da agência, os meios de pagamentos alternativos terão que ser instalados em toda a base de mais de um milhão de orelhões.

 

Outras medidas podem gerar, porém, mais conforto para os usuários. Entre elas, a que permite que o orelhão também carregue antenas de Wi-Fi, e, assim, se torne um posto de acesso à internet. Neste caso, há toda a questão sobre a reversibilidade deste bem, no final da concessão. Mas aí é uma outra discussão. 

 

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