A LTE vai levar a IPTV para a casa do assinante, aposta presidente da Ericsson


A aposta da Ericsson para a evolução da tecnologia de celular – a LTE- é ousada. Em menos de 10 anos, a fabricante acredita que esta tecnologia será capaz de substituir a fibra óptica e sustentar a transmissão de vídeo na casa das pessoas. Seu presidente para a América Latina & Caribe, Sergio Quiroga, faz esta previsão mesmo sabendo que em 2020, para cada pacote de voz que estiver nas redes de telecom, haverá nove de dados e 90 de vídeo.

 

Mas até lá, ele acredita que a 3G tem ainda muito para crescer no território brasileiro, pois, em sua avaliação, esta tecnologia só atingiu 40% de suas potencialidades. A 4G, para ele, será muito usada em hot spots. Embora saiba que frequência disponível é fundamental para a telefonia móvel, o executivo defende o adiamento do leilão da faixa de 700 MHz, prevista pelo governo para o próximo ano. Em sua avaliação, as operadoras têm ainda muito que investir nas redes de telecom antes de precisarem comprar novas bandas. E avisa que a Ericsson não irá fabricar a LTE para a faixa de 450 MHz, que será usada no Brasil para a telefonia rural. Segundo ele, não haverá escala, visto que só o Brasil está fazendo esta aposta. Leia a entrevista:

 

Tele.Síntese – Com estas manifestações que ocorrem no Brasil, todas organizadas pela internet, você tem noção do aumento do tráfego de dados neste período?
Sergio Quiroga – São eventos organizados por mídia social expontânea. Se há uma concentração em algum lugar de 100 mil pessoas, são liberados 4 petabytes. Ou 4 vezes 10 a 15 bits por segundo. E as redes não estão dimensionadas para isto. Ou seja, está-se utlizando 15 vezes a capacidade dela. É natural que a rede não aguente.

Tele.Síntese – A Ericsson é uma das poucas empresa europeias que conseguiu resistir à avalanche asiática e ainda liderar em diversos segmentos de telecom. Qual as razões e como você vê o futuro da empresa?

Quiroga– Que bom que podemos ser considerados empresa europeia que sobreviveu. Mesmo com a “invasão asiática’, nosso market share aumentou. Ele era 30% no mercado mundial em redes móveis, e agora estamos com 38% em 10 anos. A Ericsson é líder em redes celulares, líder em sistemas BSS/OSS, líder mundial em IPTV e líder mundial em serviços de telecomunicações. Faturamos no ano passado  US$ 35 bi. Nosso faturamento de serviços está chegando quase à metade, o que nos coloca entre as 10 maiores do mundo.  Quinta maior empresa de software do mundo. Vamos para onde as telecomunicações forem. Investimentos US$ 5 bilhões em P&D, o que é 15% do faturamento. Já passamos por muitas crises. Há 12 anos, esta empresa brasileira saiu de 5 mil para 800 funcionários.

 

Tele.Síntese – E na América Latina?
Quiroga– É uma cópia exata do mundo. Na 4G, temos 60% de market share na região. Também no Brasil. Em 3G, quase 40% e em 2G, quase 30%.

Tele.Síntese – Diferentemente da 3G, quando houve um certo atraso para sua adoção no mercado brasileiro, o 4G foi acelerado. Como você avalia este movimento? Há deslocamento de investimentos causando problemas?
Quiroga– Para nós, tem que ter frequência disponível. Nós incentivamos todo o uso de frequências possível. Com a frequência de 2,5 GHz, houve muito trabalho para ser usada na LTE ( Long Term Evolution) . Mas tem LTE em 850 MHz,  em frequências mais baixas, em 700 MHz, no Brasil em 450 MHz. Como fazer essa comercialização de frequência é que são elas. Telecomunicações não é para paraquedistas. É um setor de capital intensivo. O  GSM surgiu no início dos anos 90 e demorou  oito anos para chegar no Brasil.  A 3G foi lançada em 2001, chegou no Brasil em 2007. E a 4G chegou com 3 anos de uso em comparação aos Estados Unidos, que precisava ir para o LTE por causa do CDMA, que havia acabado.

Não diria que adoção de 4G no Brasil é precipitada. Ela veio a tempo. Mas a 3G ainda está em torno de  40% de sua exploração, do ponto de vista de cobertura, capacidade de rede, da disponibilização do serviço no Brasil.4G é uma tecnologia para o Brasil de Hot Spots.  50% das cidades da Copa Confederações serem cobertas, é muito difícil.


Tele.Síntese – É difícil mas deve ter sido feito, não?
Quiroga– Não fiz os testes, mas li em alguns jornais que estava faltando cobertura. Copa do Mundo terá 4G nos estádios e nos principais centros.Mas a 3G vai continuar crescendo, e muito, é o que diz os nossos estudos mundiais. LTE será 10% da banda larga móvel por alguns anos.

 

Tele.Síntese – A Anatel prevê 4 milhões de LTE este ano. O ministro Paulo Bernardo aposta em números maiores. Quais são as suas projeções?
Quiroga–  Será 10% das conexões de banda larga móvel. No primeiro trimestre, o Brasil teve nove  milhões de adições líquidas. Pelas minhas contas, deste total, 2 milhões foram de banda larga no período. Então, LTE terá 900 mil até o final do ano.

 

Tele.Síntese – A Ericsson vai fabricar a LTE em 450 MHz?
Quiroga – Não faz parte de nossa estratégia fabricar a 4G em 450.

 

Tele.Síntese – Por quê?
Quiroga– Não tem escala. Fizemos um estudo que mostra que, com cinco mil radio-bases, cobre-se o Brasil inteiro com a frequência de 450 MHz.O CDMA era tecnologia fantástica, ela era melhor que o GSM, mas foi o GSM que teve escala. O CDMA acabou. Tecnologia tem que ser boa e ter escala. Não vejo este movimento em nenhum outro país da América Latina.

Tele.Síntese – Mas há países como China e Índia que usam esta opção
Quiroga– O lado Leste, com mais da metade da população, pega escala. Mas o Braasil não tem escala para mudar linha de produção e de desenvolvimento.
 

Tele.Síntese – No caso da 700 MHz, o governo quer vender frequência em 2015 mas fala em muitas obrigações. Os operadores estão olhando com certa cautela.
Quiroga– O governo lançou o leilão de  2,5 GHz, mas a faixa ficou com interferência até o mês de abril deste ano. Não se podia lançar o serviço. Em 700 MHz, quando mesmo a faixa vai ficar limpa?

 

Tele.Síntese – Tem que ser em 2015, se não, o governo não consegue vender nas grandes cidades
Quiroga –  Vai botar LTE? Mas a  3G é a grande tecnologia. Fone com 4G não vai funcionar no LTE 450 MHz. Mas é  importante que esteja disponível a faixa de 700 MHz. Mas o que adianta estar disponível, se meu cliente vai gastar um monte para comprar a frequência e não vai colocar rede? Ouvi valores de venda de R$ 19 a R$ 20 bilhões. Se este número está na cabeça de alguém, não vai sobrar dinheiro para instalar a rede.  Aqui, já está consolidado quem investe.  

 

Tele.Síntese – Acha que o Brasil está conseguindo melhorar a qualidade do celular?
Quiroga – Os operadores estão investindo, mas é preciso ter objetivo estratégico. Dados, ou é zero ou é um.

 

Tele.Síntese – Nos demais países a diferenciação pela qualidade é melhor percebida?
Quiroga – Observamos cuidado muito grande  no México, Chile e Colômbia.

 

Tele.Síntese _ Você acha que deveria adiar o leilão da faixa de 700 MHz?
Quiroga – Na minha opinião, deveria adiar. É preciso deixar amadurecer o plano de interferência; deixar pronta a estratégia do 4G; a preparação do backhaul – dados e sincronização. E toda esta estratégia deve ser baseada em qualidade de rede. E há um problema muito sério no Brasil, que é a dificuldade para instalar sites.

 

Tele.Síntese – Se a lei das antenas não for aprovada, você acha que pode haver um colapso?
Quiroga – Colapso, não. Dá para fazer com as antenas existentes, mas a rede terá muito buraco de cobertura.  O brasileiro é criativo vai achar a solução para tudo. Mas está na hora de liberar essas instalações.

 

Tele.Síntese– O  MCTI lançou a política de software. Qual sua avaliação?
Quiroga Tomara que não seja outra jabuticaba. Tomara que não haja bloqueios. A consulta lançada demonstra uma intenção bastante rígida em relação à produção de software. Temos 500 pessoas desenvolvendo software na capital de São Paulo, sem contar com as instalações de Itaiatuba.  Mas é um pedaço do software que faz parte do pacote mundial. A política é um pacote protecionista. Mas será que é bom para o Brasil? Tomara que as telecomunicações não fiquem mais caras com esta política.

 

Tele.Síntese – Diretamente para o setor de telecom, o que funcionou mesmo foi o edital de venda de frequência da Anatel, que estabeleceu a preferência à tecnologia nacional e produção local. E deve ser a mesma coisa agora para o software.

Quiroga– Nós vamos nos adaptar, com certeza. A Ericsson sempre se adapta.

 

Tele.Síntese – Em relação à fábrica no México
Quiroga– A fábrica no México faz parte do  Tratado do Livre Comércio. Fabricamos  rádio-bases lá para atender aos Estados Unidos. E há um centro de serviços também.  O México apresentou um projeto muito incentivado. Lá, estão sendo formados 115 mil engenheiros ao ano. No Brasil, 35 mil . Estamos com 8 mil funcionários no Brasil. No México,  há  três  mil funcionários. Há dois anos inauguramos aquela fábrica. 50% dos recursos fazem o trabalho para a América Latina e 50% para  EUA. O Brasil sempre foi exportador pela Ericsson, mas caiu um pouco agora pelo custo Brasil.

Tele.Sintese – Estão enfrentando bloqueios com Argentina ou Venezuela?
Quiroga– Nossos princípios de venda “ou recebo dinheiro ou não vendo” têm dado certo.  Na Argentina, tivemos dificuldades e conseguimos alguma coisa pelo Brasil, mas estamos pensando em alguma solução.

 

Tele.Síntese – O mercado da Argentina compensa vocês instalarem alguma coisa por lá?
Quiroga– Compensa. Toda a América Latina compensa. Até o Haiti, estamos vendendo muito lá. Agora, o Brasil, com qualquer PIB, compensa. Vamos continuar a investir em talentos aqui.

Tele.Síntese– Em relação ao IPTV, que vocês agora são únicos no mercado brasileiro. Não acha um movimento muito lento?
Quiroga – No triêno 2018/2020, para cada pacote de voz teremos 9 de dados e 90 de vídeo. Isto vai estar nos celulares. O IPTV estará sendo transportado por uma rede LTE, com certeza.  A fibra estará no backhaul. Para chegar na casa das pessoas, não será preciso levar a fibra. O LTE conseguirá fazer a distribuição e o broadcast.

 

Tele.Síntese – Mas não é este o LTE que temos hoje. Ele precisará avançar.
Quiroga – Com certeza. Não é o que temos hoje, mas ele irá avançar nesta direção. Esta é a nossa aposta. Em 2020 a receita de dados será de 90% da receita das teles. Mesmo no Brasil. Agora mesmo estamos com 65% da receita em voz e 35% dados no mercado brasileiro.

 

Tele.Síntese – Como você vê o movimento OTT
Quiroga – OTT junto com IPTV é um negócio, sim. É uma evolução do IPTV. E cada operador deveria ter seu próprio Over The Top. Estes operadores tem clientes suficiente para ter uma rede social deles, um OTT deles, um vídeo deles. O dono do cliente será aquele com qualidade de rede.

 

Tele.Síntese– Como você vê o cenário para o final do ano
Quiroga – Telecom cresce sempre mais do que o PIB. O celular vai crescer nos aplicativos e na banda larga. O tráfego de dados duplica ano a ano e a receita cresce 2 a 3%. É uma conta injusta, pois o operador tem que investir para suportar a duplicação do tráfego  a receita não duplica. O operador tem que balancear o crescimento do tráfego em 100% ano nos próximos cinco anos.

 

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