A Cisco quer tecnologia aplicada ao desenvolvimento


{mosimage}Recentemente, a empresa se reestruturou, o que incluiu a divisão geográfica de mercados. Em benefício dos países emergentes, garante o presidente da subsidiária brasileira, Rafael Steinhauser, em entrevista ao Tele.Sintese. Nesse grupo, por menos que exista eficiência de gestão, diz o executivo, a tecnologia é utilizada como ferramenta de transformação.

Parte do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – se o país e os brasileiros (governo, indústria, operadoras) não tomarem iniciativas para aumentar o uso da banda larga, o Brasil vai simplesmente ficar de fora, olhando o avanço do grupo, avisa Rafael Steinhauser, presidente da Cisco do Brasil. Contudo, mesmo que aqui não exista plano de governo para banda larga, como em outros países, Steinhauser acredita que haverá iniciativas nessa direção, inclusive por parte das operadoras, que poderão rever seus planos de negócios para o segmento, barateando os serviços que, hoje, só chegam às classes de renda A e B.

Do lado do governo, pesa a carga de impostos sobre os serviços de comunicação, mas Steinhauser diz que há uma uma lei segundo a qual, na área de telecomunicações, em matéria de impostos, o governo pode tratar diferentemente as pessoas de distintas classes sociais. “Assim, no acesso á internet em banda larga, seria cobrado imposto mais baixo, ou nenhum imposto, para pessoas das classes C, D e E”, conclui

Tele.Síntese – Recentemente, a Cisco passou por uma reestruturação, a partir da qual a subsidiária brasileira ganhou mais autonomia. Aqui, se começou a falar muito em mercados emergentes, o BRIC (Brasil, Índia e China) em particular. O que diz sobre isso?
Rafael Steinhauser – Há um ano, a Cisco decidiu reestruturar a sua geografia mundial e criar uma região independente das outras. É algo sem precedentes na indústria e que, talvez, venha até a ser emulado no futuro.

Tele.Síntese – O que foi feito?
Steinhauser – A Cisco agrupou mercados emergentes, não só o BRIC, mas outros, porque acredita que eles têm um potencial muito maior do que mercados mais maduros como os dos Estados Unidos, Europa, Japão, Europa Ocidental. Os emergentes, enquanto estrutura comercial, gestão de governo, não estão no mesmo ponto dos mercados maduros, mas têm iniciativas transformacionais baseadas em tecnologia.

Tele.Síntese – Foi esse potencial de transformação que atraiu a empresa?
Steinhauser – Nos emergentes, é fato que há um gap maior de eficiência e de produtividade do que nos países desenvolvidos, mas achamos que nos emergentes dá para fazer coisas diferentes, em particular alavancando o uso de tecnologia, em especial de rede, para dar mais oportunidades não só às empresas, mas ao país como um todo – servidores públicos, o acesso do cidadão à informação, educação, saúde.

Tele.Síntese – Onde entra o Brasil nessa nova geografia?
Steinhauser – Uma das regiões é a América Latina, e nela colocamos um foco especial, que também inclui um investimento diferenciado, talvez proporcionalmente mais alto do que a receita que geramos, pelo fato de que aqui há potencial maior de utilização de tecnologia. Nesse sentido, uma das coisas que fizemos foi criar uma estrutura de desenvolvimento de negócios cuja liderança para a América Latina está com Rodrigo Abreu, no Brasil, e que visa trabalhar de forma diferente, talvez com instituições, com o governo, com universidades, com outras empresas, para criar outros tipos de movimentos.

Tele.Síntese – Qual o balanço de um ano de reorganização?
Steinhauser – O modelo funciona. Tanto é que vale à pena tratar os emergentes de forma específica. A receptividade é boa. Prova disso é que neste ano fiscal (encerrado em fins de julho) conseguimos crescer muito mais do que nos últimos quatro a cinco anos.

Tele.Síntese – Mas que iniciativas destacaria?
Steinhauser – A nossa própria reestruturação interna, que permitiu focar muito mais nas pequenas e médias empresas com uma estrutura própria, bem formatada, com uma série de novos canais. Conseguimos crescer substancialmente no Brasil, sobretudo para ter uma cobertura nacional, que não tínhamos. Outra novidade, ainda incipiente, é a criação de um segmento para atender ao setor público, com o Jorge Coelho à frente, cobrindo as áreas de saúde, educação, governos central e local, defesa. Essa estrutura já conseguiu levar à frente uma série de projetos.

Tele.Síntese – Poderia dar maiores detalhes?
Steinhauser – Na área de saúde, temos vários exemplos no mundo inteiro. O mais próximo de nós está no do Chile, onde o governo do presidente Lagos criou uma rede nacional de banda larga ligando todos os centros de saúde pública, e implementou uma série de processos que revolucionaram o serviço médico, com velocidade e qualidade de atendimento, e preço. No Chile, isso está garantido por lei, o que só foi possível com o uso de tecnologia, utilizada não só na disseminação da informação, na educação, no controle da gestão, mas também na rápida troca de informações sobre casos médicos que não podem ser analisados localmente, mas na capital Santiago, ou em outras cidades. Além de ganhos de velocidade na detecção de doenças.

Tele.Sintese – E no Brasil?
Steinhauser – Aqui temos vários projetos, muitos ainda não concluídos, na área de saúde, educação, serviços governamentais. Temos um assinado pelo governo, o do sistema chamado “Caça-Emprego”, para conseguir trabalho para pessoas de renda muito baixa. Nossa experiência tem mostrado que, mesmo no Brasil, cidadãos de menor renda estão dispostos a pagar por um serviço governamental adequado. Esse projeto, tocado junto com o Bradesco e outras instituições, deu muito certo. Há também projetos de cidades digitais: fizemos dois pilotos até agora, um deles em Belo Horizonte, outro em Tiradentes. A vida nessa cidade, hoje, não é a mesma de cinco meses atrás, mas ela é apenas uma das 5.500 cidades do país. Temos iniciativas, temos idéias.

Tele.Sintese – No último Barômetro Cisco de Banda Larga, falou-se em um Plano Nacional de Banda Larga, anunciado pelo secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna, e que nenhuma das empresas presentes (NET e Telefônica, entre outras) jamais ouvira falar. Afinal, do que se trata?
Steinhauser – De fato, no Brasil, não temos ainda um Plano Nacional de Banda Larga. Existem idéias, pessoas do governo e de empresas interessadas nisso, mas não há um projeto nacional como na China, Coréia, Japão e outros países, de disseminação da banda larga. Tomara que, no futuro, exista aqui uma iniciativa como essa. Há um fato histórico no Brasil que é o de que as leis e a regulamentação foram escritas numa época em que não existia internet em banda larga, mas uma grande preocupação com telefonia básica. Então, os incentivos, os fundos, as regras de hoje, visam muito mais a universalização da telefonia, dos telefones públicos, do que o acesso à internet ou a banda larga, essencial para impulsionar o acesso da sociedade à informação, enfrentar o digital divide, aumentar a competitividade das empresas.

Tele.Síntese – Como medir o impacto do uso da tecnologia nas empresas?
Steinhauser – Temos um estudo com empresas da América Latina que mostra esse impacto. Como, por exemplo, se as organizações não dispuserem de network based solutions, terão cada vez menos competitividade global, eficiência para sobreviver em um mundo cada vez mais globalizado. Essas aplicações baseadas em rede são as que colocam as empresas online com os clientes, fornecedores, parceiros, funcionários, e não funcionam sem banda larga. Ou seja, é uma condição mínima de sobrevivência para uma empresa de certo porte. Há pouco tempo, mapeamos as 3,5 milhões menores empresas do Brasil quanto à disponibilidade, estágio de avanço da comunicação e de aplicações baseadas em rede: zero foi atribuído às que não têm acesso à internet; um, às com acesso à internet; dois, às com acesso à web e aplicações; três, às que tem portal e que têm em telecom a força básica de sua força de vendas.

Tele.Síntese – Qual o panorama encontrado?
Steinhauser – No universo das pequenas e médias, muitíssimas empresas estão na fase zero, poucas na um. Assim, para ser competitivo, o país precisaria estimular um quantum delas a migrar para a fase entre um e dois. Talvez, a Cisco tenha muito a contribuir com isso, seja através de programas de associações ou do governo. Isso também vai ser um divisor de águas para o Brasil: ficar no BRIC, ou fora dele, olhando para o grupo.

Tele.Síntese – Neste último ano fiscal, a Cisco cresceu muito no Brasil, sobretudo no segmento PME. Como andam as ofertas para as empresas de menor porte?
Steinhauser – Alguns fatores nos levaram ao sucesso no mundo PME. O primeiro, é ter uma estrutura própria para atendê-lo, o que não é fácil em setor muito pulverizado e disperso, em um país enorme. Para isso, criamos uma estrutura que tem certa inteligência, segmentamos as empresas por nichos, desde as maiores, que têm atendimento direto Cisco; as médias, que são atendidas por centros de vendas internos; canais os mais variados; e uma estrutura de distribuição inteligente. O segundo segredo é ter canais focados nas PMEs. Como elas são muito dispersas, criamos uma estrutura de canais mais abrangente.

Tele.Síntese – Produtos?
Steinhauser – Temos uma série de produtos novos e a maioria dos que estamos lançando são para PME. Uma máquina só, integrada, que resolve os problemas das empresas menores. Um ISR, por exemplo, é uma máquina só que faz switching, routing, wireless, telefonia, storage, content. Um equipamento só, de baixo custo. O cliente não precisa comprar várias máquinas e se preocupar com integração e manutenção etc. Temos switches de baixo custo. Uma linha bem SoHo, que chega até o nível de personal networking, área da Linksys. Compramos outras empresas que vão nessa direção, como a Scientific Atlanta, que têm produtos de processamento e codificação digital, mas também setop boxes. Temos também o CRC 1, o maior roteador do mundo, que ainda não chegou ao Brasil, mas deve chegar este ano, até o ATA.

Tele.Sintese – Voltando ao tema banda larga…
Steinhauser – Há duas coisas que nos preocupam quando falamos em disseminação de banda larga. Uma, é a dimensão geográfica, outra, a social. A primeira vem do fato de que só ¼ das cidades brasileiras têm banda larga, hoje, e isso, de fato, é uma barreira, uma discriminação, uma segregação, os have, os have not, o digital divide. E numa cidade que não tem, é muito mais difícil para uma empresa sobreviver, mais difícil para o governo prestar serviços ao cidadão, mais difícil para o cidadão acessar o mundo que está ao alcance daqueles que estão em cidades onde há banda larga. E mesmo nessas grandes cidades, há áreas de exclusão.

Tele.Síntese – Qual a outra?
Steinhauser – É social, porque a banda larga atende as pessoas das classes A e B, não necessariamente as da C, D e E, porque o custo da banda larga é alto, por uma série de fatores, uns que dependem das operadoras, outros que não dependem, como impostos, infra-estrutura. Mas há alguns desafios estruturais que poderiam ser resolvidos com boa vontade, sem, necessariamente, implicar custos adicionais. É o velho dilema do ovo e da galinha. Eu não chego lá, se chegasse, nos primeiros seis meses, um ano, teria poucos clientes, o que não justificaria o investimento, então não vou. Mas, se não vou, não estimulo a economia da localidade. Então, é preciso quebrar esse círculo vicioso e criar estrutura de apoio, incentivos, fomento, para romper essas barreiras e facilitar a inclusão. Isso não só vai ajudar as pessoas e as empresas dos locais excluídos, mas o país como um todo. Esse é o nosso grande pleito, para a permanência do país no BRIC.

Tele.Síntese – Tudo bem, mas o fato é que só há 4 milhões de acessos em banda larga no Brasil, e o crescimento da banda larga no país, hoje, é menor do que no passado recente, como se já fosse um mercado maduro…
Steinhauser – Isso nos preocupa, e há duas explicações possíveis para a desaceleração. Uma é temporal, sazonal. Poderíamos assumir que o primeiro trimestre sempre é menos forte do que os demais. Mas, pessoalmente, não acho essa explicação suficiente. Acredito que há um ponto de pré-saturação porque o modelo de negócios atual atende uma população que já está bem servida. Se não inventarmos outro modelo, não vamos muito além dos 4 milhões. Vamos chegar aos 5 ou 6, mas não vamos atingir nosso objetivo de 10 milhões.

Tele.Síntese – Quem tomará a iniciativa de mudar o modelo de negócios?
Steinhauser – Eu arriscaria a dizer que todos os atores têm interesse em mudá-lo. No caso das operadoras, desde que se mostre a elas que há retorno do investimento, elas estão dispostar a investir. Mas há outros meios de estimular a disseminação da banda larga. Do lado do acesso, por exemplo, há um programa como o do PC conectado – que eu chamaria de desconectado, porque se possibilita ao cidadão comprar um PC, mas o acesso à internet não está garantido.

Tele.Síntese – Então, onde está a saída?
Steinhauser – De toda forma, já vimos que simplesmente mexer em algum elo da cadeia, nesse caso, impostos, tem-se um tremendo impacto. Lembremos, ainda, que aqueles que não têm PC podem acessar a internet via telecentros, porque é essa a sua função. E do lado do backbone, levar o sinal de banda larga até as localidades desconectadas, ainda há muito a ser feito, porque o custo, no Brasil, é muito alto. Há que considerar uma série de elementos. Não só o acesso que, com o wireless, é simplificado, mas os aplicativos, porque conectividade só não adianta, é preciso fazer uso dessa tecnologia. É uma cadeia de coisas que têm de acontecer. Vão acontecer no Brasil, sim, mas que precisam de carinho, de foco, por parte de todos os agentes, em particular do governo.

Tele.Síntese – Por aqui, esbarra-se quase sempre em impostos, que elevam custos. Por que seria diferente para banda larga?
Steinhauser – Temos uma lei segundo a qual, na área de telecomunicações, em matéria de impostos, o governo pode tratar diferentemente as pessoas de distintas classes sociais. Assim, no acesso á internet em banda larga, seria cobrado imposto mais baixo, ou nenhum imposto, para pessoas das classes C, D e E. Essa é uma idéia, há outras sendo avaliadas dentro do governo.

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