Uma das discussões mais calorosas que envolve o leilão da faixa de 700 MHz será a questão da interferência entre a transmissão dos sinais de TV e da 4G do celular. Para contribuir com o debate, a associação GSMA (que reúne os fabricantes e operadores de telecomunicações) encomendou um estudo de intereferência, realizado nas cidades de Brasília, Campinas e em São Paulo. Segundo Amadeu Castro e Luciana Camargos, da GSMA, o estudo não é conclusivo, mas demonstra que algumas medidas deverão ser adotadas para mitigar a interferência.

O mais supreendente do estudo é que, enquanto o debate travado até agora apontava para os riscos da interferência do celular nos sinais de TV, os testes apontaram que as maiores interferências ocorrem justamente ao contrário, ou seja, dos sinais de TV para o 4G do celular. “Com esses testes, a nossa principal conclusão é que existem soluções técnicas para mitigar os problemas. O mais importante, contudo, é que tudo deverá ficar definido no edital. Ou seja, os custos e as responsabilidades de cada ator”, afirmou Castro.

Ficou demonstrado que não haverá uma solução única, mas diferentes técnicas de mitigação para diminuir ao máximo a população afetada. “Cada caso terá que ser tratado especificamente”, completa Luciana Camargos, gerente senior para as áreas de governo e questões regulatórias da GSMA.

Os testes

Foram feitos testes de interferências em diferentes direções, a saber: estação radiobase da LTE para a antena da TV ISDB-T; o celular LTE para a antena de TV; a transmissão ISDB para a radiobase do celular; a transmissão da TV para o aparelho de celular; a transmissão da radiobase LTE para a TV analógica; a transmissão do aparelho de celular LTE para a TV analógica e a TV analógica para a radiobase do celular de quarta geração.

Para cada um dos cenários, os testes apuraram dois tipos de possíveis interferências: a interferência fora da banda (quando o sinal não desejado é captado por uma banda adjacente); e a interferência de bloqueio (quando o sinal não desejado impede que o receptor receba o sinal desejado).

E os testes indicaram que os problemas mais sérios estão na interferência dos sinais de TV no celular, tanto no caso do bloqueio como na interferência fora de banda. Nesses dois casos, diz o estudo, estes problemas podem ser minimizados com a adoção de medidas para a sua mitigação. Entre elas, a instalação de filtros tanto nas antenas de TV como nas estações radiobases; ou mesmo melhoria da qualidade dos receptores de TV.

O mais grave, porém, é a interferência dos sinais analógicos de TV na internet móvel, uma parte do levantaemnto que foi incluída na metade do processo por conta da prorrogação do prazo final para o desligamento do sistema analógico. Neste caso, a interferência só pode ser resolvida com a separação entre as bandas, já que filtros não seriam viáveis economicamente, o que eleva o nível de preocupação da entidade com a calendário de migração de todos os canais analógicos e entrega da faixa. Os resultados do estudo apontam para o aumento da pressão sob a Anatel por definições bem claras quanto ao desligamento analógico em todo o país.

A interferência do LTE no ISDB-T é baixa, conforme o estudo, na avaliação de bloqueio de sinal, mesmo sem dispositivos de mitigação. Na avaliação das emissões fora da banda, a interferência seria média, mas cairia para baixa após o uso de técnicas de mitigação. Nesse caso último caso, a população afetada, mesmo sem recursos de mitigação, seria de menos de 50 mil em São Paulo, menos de 10 mil em Brasília e Campinas. Segundo o relatório, utilizando mitigações, o número de pessoas afetadas poderia ser eliminado.

Já a interferência da das antenas de ISDB-T (150m) na estação radiobase LTE é alta tanto no caso de emissões for a da banda, quanto no bloqueio do sinal, no caso de não uso de recursos de mitigação. Mas o estudo aponta que tais técnicas poderiam diminuir o nível de interferência para pequeno. A interferência das antenas de TV digital é pequena em equipamentos dos usuários. O estudo aponta que a distância de separação do ISDB-T e do LTE pode ser reduzida de mais de 10 km para menos de 600 m, desde que usados sistemas de mitigação.

Opções para mitigação de interferência


O estudo considerou diversas técnicas de mitigação de interferências. Entre elas: limite na potência de emissão dos sinais de TV, filtro para base sistema de emissão e recepção na radiobase, filtro no sistemas de emissão de radiodifusão, polarização ortogonal, filtro no receptor deméstico de TV, antena doméstica melhorada e receptores de sinal de TV de boa qualidade. De todos esses, os apontados como mais eficientes são: filtros de emissão e recepção na estação radiobase, filtros de emissão no transmissor de ISDB-T combinado com limite da potência da emissão do sinal de TV nos canais mais altos. No entanto, a implementação de filtros tanto para a emissão quanto para a recepção é a opção mais custosa, mas reduz a probabilidade de interferência. 

No caso da TV analógica e os receptores de LTE, o estudo propõe uma separação de frequência de, pelo menos, 20MHz, durante a migração da TV analógica para digital. 

Eventualmente, será necessária a utilização pontual de mitigação no receptor de TV doméstico, para superar problemas locais de interferência.