5G terá o fatiamento automático de rede no final de 2019, acredita Ericsson


Para Edvaldo Santos, diretor do Centro de P&DI da Ericsson no Brasil, o maior desafio atual colocado pelo desenvolvimento da tecnologia 5G é a implementação do fatiamento de rede nativo. Ele acredita que até o final de 2019, o desenvolvimento do network slice, onde cada fatia de rede é alocada a uma aplicação com suas demandas específicas, estará pronto.

Envolvida com o desenvolvimento da tecnologia 5G da telefonia móvel desde os primeiros passos, em 2013, a Ericsson, como outras indústrias de infraestrutura celular, vem trabalhando arduamente para atender ao road map das entidades padronizadoras. E nesse trabalho envolveu suas equipes de todos os seus centros de inovação. São muitos os brasileiros envolvidos com os desenvolvimentos da 5G. Hoje, relata Edvaldo Santos, diretor do Centro de P&DI da Ericsson no Brasil, 90% dos recursos de inovação da subsidiária brasileira são aplicados em projetos de 5G desenvolvidos em nível mundial pela matriz ou locais.

Neste momento, o grande desafio colocado pelo desenvolvimento da 5G, diz Santos, é a implementação do fatiamento nativo no core da rede. Como explica nesta entrevista ao Tele.Síntese, o fatiamento de rede, quando cada fatia é alocada a uma aplicação para lhe garantir os recursos de que precisa realmente sem desperdício e gerar maior eficiência geral da rede, já é possível de forma manual. Mas pouco usado. A sua automação requer uso de tecnologias complexas para permitir à rede se autogerenciar e se auto-regular. . “Originalmente, o network slice é para entregar a latência, a robustez, a qualidade e a velocidade que aquele caso de uso requer, não mais e não menos. Mas você faz isso junto com outro pacote de tecnologias que tem relação com eficiência na gestão da rede, e isso só o 5G tem”, explica.

Para Santos, cuja equipe também está envolvida com esta fase de desenvolvimento da 5G, é o network slice que vai permitir à esta tecnologia dar o grande salto e se transformar numa plataforma revolucionária em termos de entregar aplicações à sociedade. Aplicações que vão desde coisas triviais que já existem até em redes 2G, como monitoramento de frota, até aquelas muitos sofisticadas que dependem de altíssimas velocidades e baixa latência, como cirurgias à distância de maior complexidade, carros autônomos, realidade ultravirtual.

O diretor do Centro de P&DI da Ericsson, que tem 600 desenvolvedores (sua rede de inovação envolve pesquisadores de várias universidades brasileiras), acredita que o desenvolvimento do network slice estará pronto no final de 2019. A seguir, sua entrevista:

Tele.Síntese – As redes 5G já começam a ser implementadas em alguns países como EUA, mas o próximo release do 3GPP só deve ser lançado em 2019. Você considera que a tecnologia já está madura?
Edvaldo Santos – Essa pergunta é super importante e eu diria que sim. E porque eu diria que sim? Porque eu acredito no que a gente chama de mapa do caminho 3GPP, ou seja, o que vai estar disponível e em que momento do tempo. A título de exemplo, a indústria, mais especificamente falando da Ericsson, ela teve o cuidado de já implementar e oferecer basebands multipadrão, ou seja, são basebands que já dão suporte ao 5G, o que significa que, na prática, quando as frequências diferentes das atuais forem sendo disponibilizadas pelo regulador, passarão por um novo hardware na antena, no alto da torre e você já pode utilizar o 5G. Agora, por que isso é importante? É importante do ponto de vista tecnológico e funcional, evidentemente, mas porque isso permite que a indústria já experimente alguns “use case” do 5G e, dessa forma vá preparando planos estratégicos. Quando se der a implementação plena do 5G, isso virá com todo o seu potencial de transformação industrial.

Tele.Síntese – Quando você fala “as próximas frequências”, que frequências estão hoje já implementadas?
Santos – A gente pode falar, por exemplo, que o Brasil, quando falamos de 5G, muito provavelmente vai fazer opção pelo 3,5GHz. Então, quando isso for disponibilizado pela Anatel, basta você subir e colocar um pequeno rádio no seu baseband e a estação radiobase, como um todo, já está pronta.

Tele.Síntese – E lá fora quais são as frequências?
Santos – Aí a gente tem uma diversidade, que são as faixas mais baixas, que podem ir desde 450MHz até algo na casa de 6GHz ou um pouco mais adiante, quando a gente quiser fazer uso de casos mais sofisticados; e tem o que o mercado chama de ondas milimétricas, que vão aí de 6GHz até aproximadamente 30GHz. Então são esses dois leques de possibilidades para você fazer uso de diferentes faixas.

Tele.Síntese – Alguns especialistas afirmam que a tecnologia está madura no que se refere á parte de acesso, do rádio, mas não o que diz respeito à parte de redes e todas as suas interfaces, como a do fixo-móvel. Como você responde a este questionamento? Quando esses desenvolvimentos poderão estar disponíveis?
Santos – Se eu entendi bem a pergunta, o 5G tem dois modos ou duas variações. Tem um modo que antecede isso que é o non-stand alone, que faz usos de alguns recursos do 4G. Esse padrão ficou pronto em dezembro do ano passado (2017). Quando a gente pensa no modo stand alone, ele ficou pronto recentemente, em junho de 2018. Focando no modo non-stand alone, ele é capitaneado principalmente pela Verizon, que é bom que se lembre que lançou o “use case” fixo-móvel no mês passado, fazendo uso desse modo 5G. E a intenção da Verizon é massificar o “use case”, ou seja, que você tenha banda larga com altíssimas velocidades. Respondendo à sua pergunta, sim, o 5G é uma realidade porque ele já tem uma rede e não é qualquer rede, estamos falando da rede da Verizon.

Tele.Síntese – Em relação aos terminais do assinante, quando teremos os terminais móveis standard?
Santos – Eles vão sair em meados de 2019, ou seja, lá para julho de 2019 e eu repito, para a faixa de 3.5GHz, que o que tudo indica vai ser a faixa usada no Brasil, isso é bastante interessante. No Brasil, os terminais muito provavelmente estarão disponíveis antes do leilão de frequência. Então, eu não acredito que quando o Brasil fizer a escolha pelo 5G, ele vai ter problema, porque os terminais já terão sido disponibilizados pela indústria.

Tele.Síntese – Ter terminais standard não significa ter escala. Esse processo vai acontecer em que ritmo, na sua visão?
Santos – Eu acho que vai ser um processo muito parecido com os processos das versões anteriores. Agora, é claro que é uma pergunta bastante ampla, quando a gente começar a pensar no 5G como plataforma de inovação industrial, com os news cases mais sofisticados que vão fazer uso de faixas mais altas. Mas isso definitivamente não será o problema para o usuário comum, como eu e você. Então, terminais não serão o problema com o 5G no Brasil.

Tele.Síntese – Dentro do conceito do 5G, uma parte importante é o fatiamento da rede, a capacidade de criar múltiplas fatias, uma para cada serviço. Esse desenvolvimento já está maduro ou não, ou quando isso vai acontecer?
Santos – Se a gente pensar nas redes 2G, 3G e 4G – e quando eu digo 4G isso trás em consequência o 5G no modo non-stand alone -, já é possível fazer uso de network slice de modo manual, de modo que eu chamaria de mecânico, hoje. Não deve haver muitos casos de uso no mundo, mas quando a gente pensa em network slice automatizado, residente por nascimento, ele vai estar disponível em meados ou no final do ano que vem. Essa é a previsão do network slice orquestrado.

Tele.Síntese – E qual a diferença entre ele ser manual ou automatizado, do ponto de vista da função?
Santos – Aí a gente foge um pouco da rede de acesso e vai para o core, na rede de controle. O que você faz é inserir algumas futures para que você disponibilize o network slice de maneira manual, ou seja, uma pessoa ou operador de rede define através de alguns comandos e algumas modificações na rede para que se possa disponibilizar uma fatia da sua rede, por exemplo, para aplicação de Internet das Coisas. Você pode fazer isso hoje. O que o 5G core faz, que é o que eu chamo de network slice orquestrado, ou residente, é fazer uso das melhores técnicas de inteligência artificial e cloud computing, para você ter isso de modo automático. Esse processo carrega consigo algumas funções bastante sofisticadas de inteligência de máquinas, ou seja, para que a máquina pode se auto-orquestrar, se auto-conciliar e auto-entregar funções à disposição dos diferentes modos da rede de forma automática. A diferença é na sofisticação com que você implementa isso, em uma versão tecnológica ou na outra.

Tele.Síntese – No caso da Ericsson, a automação do fatiamento de rede é desenvolvida por vocês ou por terceiros?
Santos – O desenvolvimento é nosso e, curiosamente, a gente tem pessoas do centro de pesquisa de desenvolvimento e inovação da Ericsson no Brasil envolvidas em algumas dessas futures.

Tele.Síntese – Em relação a interoperabilidade, a 5G já é totalmente interoperável ou só em nível dos terminais móveis?
Santos – Ela é sim interoperável. A interoperabilidade não fica apenas nos terminais ou nas estações radiobase. Sua pergunta me inspira a estender um pouco mais e chamar atenção para o fato de que, às vezes, passa despercebido que o 5G, pelo menos na minha definição, pode ser visto como uma espécie de condomínio de coexistência de diferentes tecnologias, ou seja, o 5G tem esse sofisticado sistema de controle que entrega recursos que um determinado caso de uso requeira. O que eu quero dizer com isso? Quero dizer que vão ter alguns casos com altas ou altíssimas velocidades, latência próxima de zero que só o 5G pode entregar, mas ele também abraça as tecnologias anteriores e vai entregar recursos fazendo uso dessas tecnologias, do 4G, 4.5G, 3G e até do 2G, para entregar recursos menos sofisticados. O sistema de controle da 5G vem para trazer eficiência no uso dos recursos da rede e, até por isso, eu posso dizer que sim, ela é interoperável.

Tele.Síntese – Então quer dizer que, por exemplo, se é um terminal fixo eu posso usá-lo em qualquer lugar?
Santos – Você pode usar em qualquer lugar a depender da topologia de rede e do tempo para fazer o rollout da rede 5G. Você tem um caso de uso, como, por exemplo, rastreamento de frota – e eu gosto de usar esse caso para exagerar em um extremo, que é o extremo de baixa banda e com nenhum requisito de latência você poderia fazer uso de tecnologia 2G. Você vai para um caso de realidade virtual, ultravirtual aumentada ou para outro extremo, que é o veiculo autônomo. A rede vai entregar recursos e nova frequências que só o 5G tem, e tudo isso ocorre de maneira transparente tendo o core da rede 5G comandando e orquestrando tudo isso. Por esse ponto de vista, quando a gente pensa em interoperabilidade no sentido mais amplo, o 5G é o caminho e a solução para isso.

Tele.Síntese – A Ericsson vem trabalhando há muito tempo no desenvolvimento dessa tecnologia. Do seu ponto de vista, quais são os avanços mais relevantes que a companhia já obteve na tecnologia do 5G?
Santos – A Ericsson faz um trabalho pesado de padronização que antecede os trabalhos de pesquisa e desenvolvimento e uma vez que a gente trabalha desse jeito, implementar os diferentes jobs do roadmap do 5G, para nós, da Ericsson, não tem sido um desafio. Tem um trabalho muito complexo e sofisticado, mas a gente entrega todos os drafts do roadmap.

Outra coisa muito importante que a gente tem feito é trabalhar com casos de uso voltados para que as transformações industriais, ou seja, como os operadores poderão monetizar o investimento em 5G? Uma vez mais, eu vou deixar de lado meu caso favorito, que é o veiculo autônomo, para focar na manufatura. Muitos paradigmas do fordismo estão presentes até hoje em larga escala, em especial em um país como o nosso, como o Brasil. Como, através do 5G a gente pode conectar basicamente todos os ativos relevantes de uma linha de produção, substituir robôs cabeados, com toda sua limitação e complexidade por robôs que são conectados e que têm a sua inteligência movida para a nuvem e, dessa forma, atingir diferentes propósitos. Você barateia o custo do robô, ao alocar o que é complexo para a nuvem, e passa a ter capacidade de processamento ilimitado. Assim, a gente tem trabalhado nesses cases para mostrar o valor do 5G, o valor de transformação para diferentes indústrias.

Já que a gente está falando de manufatura avançada, vou citar dois casos que são relativamente recentes. Esta semana a Ericsson comunicou que ela tem um acordo com a Deutsche Telecom para iluminar a fábrica da OSRAM, no sul da Alemanha, aquela fábrica de lâmpadas, para que se possa permitir um ambiente de produção mais flexível, que inclua veículos autônomos ao invés das esteiras rolantes para fazer transporte de insumos e na mesma linha. Em agosto deste ano, a Ericsson e a Audi comunicaram uma parceria 5G também voltada para manufatura de automóvel, ou seja, a gente tem feito um trabalho bastante consistente e sério de fazer o uso da tecnologia que a gente tirou do laboratório, para transformar em algo tangível para as empresas e para a sociedade.

Tele.Síntese – Quantos contratos de 5G em operação a Ericsson tem hoje?
Santos – Temos a Verizon, AT&T, e em muito em breve os outros operadores norte-americanos, com os quais temos contratos, vão colocar suas redes para rodar. Estão nessa corrida para entregar a melhor experiência para o usuário.

Tele.Síntese – São para o próximo semestre?
Santos – Eu não ficaria surpreso se surgir talvez alguma coisa no final deste ano, mas o que eu quero dizer é que vai haver essa corrida pela melhor experiência do usuário.

Tele.Síntese – Quais são os próximos passos que você vê para o 5G?
Santos – Definitivamente é você entregar essas parcelas do road map que sai um pouco da questão do rádio, da rede de acesso, e trabalhar no core com essas questões funções de network slice. Eu acho que esse vai ser o próximo golaço da Ericsson, que a indústria tem que fazer até meados do ano que vem, porque é partir disso você começa dar vida a casos de uso que são bem mais sofisticados do que esses sobre os quais estamos falando aqui. O próximo passo é trabalhar nessa área de network slice e de outras funcionalidades do core e entregar toda essa plenitude, todo esse potencial de 5G ser essa plataforma tecnológica sobre a qual essas revoluções e transformações industriais vão ocorrer. É isso que vai permitir o veículo autônomo, a leitura labial, as aplicações avançadas de IoT, as cirurgias remotas ultra sofisticadas, a realidade ultravirtual que vai revolucionar a indústria do entretenimento e uma multiplicidade de outras aplicações que ainda serão inventadas.

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1 Comment

  1. 29 de novembro de 2018
    Responder

    O network slicing automatizado ou “orquestrado” já está disponível e em funcionamento em diversas redes 4G/LTE. A Cloudstreet, empresa spin-off da Nokia, produz o DPC – “Dynamic Profile Controller” e antecipa nas redes 4G o comportamento do 5G, tornando as redes LTE cientes das aplicações.

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