3G: O país não pode ficar para trás


{mosimage}Espectro há para a 3G, que permitirá a evolução dos serviços móveis em banda larga, para atender aos que podem pagar pela sofisticação. É hora de regulamentá-la, e oferecer as faixas aos interessados, em caráter oneroso.

Em setembro de 2003, logo após deixar a operação da Vivo, tive a oportunidade de viajar à Europa com o propósito de acompanhar o desenvolvimento da 3ª geração dos celulares nos países da União Européia (WCDMA-UMTS). Vivenciei com profundidade o que acontecia em Portugal e também visitei operadoras e fabricantes na Espanha, Itália, Reino Unido e Suécia.

Retornei ao Brasil no final do ano com a convicção de que a tecnologia ainda estava amadurecendo e a principal limitação era a inexistência de um portfólio competitivo de aparelhos. Os poucos produtos disponíveis eram pesados, com design pouco atraente, limitada autonomia de bateria e muito caros (acima de $350 euros).

A boa notícia era que a tecnologia de rede já era perfeitamente dominada pelos fabricantes e tinha preço atraente. Diante desse quadro, as operadoras, sempre em busca de rentabilidade e geração de caixa, procuravam adiar os investimentos postergando o lançamento do serviço.

A Hutchison era exceção. Aproveitava essa janela para divulgar e posicionar sua marca “3” acelerando a instalação da rede e realizando fortes campanhas publicitárias (“3”- Mobile Vídeo Company) particularmente na Itália e no Reino Unido.

Dificuldades semelhantes enfrentavam as operadoras japonesas e coreanas que foram pioneiras nos lançamentos das duas mais importantes tecnologias de 3ª geração – WCDMA e CDMA 1X EVDO.  O ano 2003 terminou com 7,1 milhões de clientes 3G em todo mundo – 2,8 milhões WCDMA e 4,3  milhões CDMA 1X EVDO.

Novo quadro
Pouco mais de um ano e meio depois, o quadro se apresenta completamente diferente. Os desafios iniciais foram vencidos e até hoje já foram anunciados 186 modelos de aparelhos WCDMA de 26 fabricantes, 70 dos quais lançados nos últimos 6 meses. No CDMA1XEV DO estão disponíveis mais de 120 modelos. Com displays coloridos de alta resolução, possibilitam serviços de videochamada, videoconferência, videoclip, tevê em videostreaming e internet em banda larga.

Os preços caíram e trouxeram novas perspectivas às operadoras. Atualmente existem 82 operações comerciais WCDMA em 37 países, com um incremento de 22 operações em 2005. São 18 as operações CDMA1X EV DO em 12 países, com um incremento de quatro em 2005.

As principais operadoras da União Européia, Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul lançaram o serviço, que também já é oferecido na Austrália, África do Sul, Chile, Croácia, Israel, Hong Kong, Malásia, Nova Zelândia, Taiwan, Cingapura, Venezuela e Brasil.

No final de julho, os números globais evoluíram para 46,8 milhões de clientes – 30,8 milhões WCDMA e 16,0 milhões CDMA1X EVDO. No Japão, a NTTDoCoMo, ícone de inovação no setor, foi a pioneira no lançamento do WCDMA. Lançou o serviço FOMA (Freedom of Mobile Multimedia Access) em 2001. Hoje tem 30% dos seus 50 milhões de clientes nesse serviço e objetiva atingir 50% até março do próximo ano. Em 2004, a receita de dados em pacote (inclusive o i-mode) representou 24,7% do total de receitas de serviço da empresa.Especificamente no serviço FOMA significou 33,8%.

Europa
A Vodafone, maior operadora global, com operações no Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Suécia e mais oito países europeus, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Egito, além de várias outras participações, inclusive na África do Sul, lançou o WCDMA de forma ampla. O Vodafone live! com 3G atingiu 3,2 milhões de clientes em junho e quer ultrapassar 10 milhões em março de 2006. Os serviços não voz da Vodafone representam 16,9% da sua receita total, sendo 12,1 de mensagens e 4,8% de dados. A  operadora disponibiliza atualmente nove aparelhos 3G no seu portfólio de 41 produtos. Os preços variam de $139 a $499 euros. O CEO do Grupo, Arun Sarin, acredita que finalmente este ano será o Natal da 3G.

Na Itália, onde há uma das mais altas concentrações de clientes 3G, a TIM enfrenta a Vodafone, “3” e Wind. Após ter coberto todo o país com EDGE, lançou no ano passado o UMTS nas principais cidades italianas. Até 2007, terá 80% da população coberta com onze mil estações rádio base. Estima que naquele ano mais de 50% dos celulares do país serão de 3ª geração. Planeja o lançamento de aparelhos multi mode GSM/GPRS/EDGE/UMTS/WI-FI. O serviço TIM Turbo UMTS oferece hoje 13 aparelhos com preços entre $249 e $399 euros. Oferece o WI-FI em Hot Spots que é grátis até 31 de outubro.

Na Espanha, a Telefonica Moviles investiu fortemente na rede e já instalou 4.400 estações rádio base UMTS no país, possibilitando cobertura de alta qualidade nas cidades-chave. E foi além, já testou com sucesso em sua rede o WCDMA-HSDPA (High Speed Downlink Packet Access). O HSDPA (até 10 Mbps) permitirá no próximo ano baixar um videoclip de 3Mbytes em 12,3 segundos contra 343 segundos com o GSM/GPRS.

No Reino Unido, os cinco competidores já lançaram o serviço –  Vodafone, Orange, O2, T-Mobile e a "3". A "3" oferece aparelhos com preços muito atraentes: desde $99 euros com $50 euros de minutos inclusos .É pura UMTS e atingiu em suas operações 7,2 milhões de assinantes em março último.

Em Portugal, as três operadoras – TMN, Vodafone e Optimus –  iniciaram suas operações comerciais o ano passado. A TMN oferece numa promoção de verão, oito aparelhos com preços a partir de $139,90 até $519,90 euros (estes com vídeo sharing).

EUA
Nos Estados Unidos, a Cingular após implementar uma rede GSM/GPRS cobrindo todo o país, evoluiu em 2003 para o EDGE e, desde o ano passado, vai gradativamente instalando uma nova rede in band WCDMA (Faixa de 850/1900 MHz) para enfrentar os serviços CDMA20001X EVDO oferecidos pelas concorrentes Verizon e Sprint nas principais áreas metropolitanas americanas. Essas operadoras oferecem complementarmente o serviço Wi-Fi em um número enorme de Hot Spots por todo os EUA. No 3GSM Congresso, este ano em Cannes, a Nokia previu que a tecnologia WCDMA atingirá em dezembro 70 milhões de assinantes.

O Shosteck Group prevê uma queda muito forte nos preços dos aparelhos 3G nos próximos anos. Eles estimam que o WCDMA low tier na faixa 1900/2100 MHz (faixa européia e brasileira) terá um preço de US$145 em 2006 e US$100 em 2007. Na faixa 850/1900 MHZ, os preços deverão se situar US$100 acima.

Não há a menor dúvida de que os serviços de 3ª geração serão oferecidos mundialmente em larga escala nos próximos dois ou três anos. O WI-FI (11 Mbps em Hot Spots-IEEE 802.11)), o WiMAX (15 Mbps com mobilidade em cidades-IEEE 802.16) e o 3G estarão se complementando e dando início ao “wireless broadband boom” que possibilitará a internet portátil com mobilidade global. Atualmente, por exemplo, boa parte dos notebooks já saem de fábrica com o WI-FI embutido.

Até o final do ano existirão mais de 2 bilhões de celulares em todo mundo. Cerca de 72% serão da família GSM/GPRS/WCDMA e 15% CDMA20001X/EVDO. Os clientes 3G representarão por volta de 5% desse total e avançarão acentuadamente nos próximos anos. Entretanto, os produtos GSM e CDMA1X representarão ainda 90% dos 730 milhões de aparelhos que serão comercializados este ano. Os aparelhos de baixo custo (abaixo de US$ 60) são e continuarão sendo fundamentais para o crescimento do mercado, principalmente em países como o Brasil, Índia, China e outros com menor renda. Existe hoje um enorme portfólio de celulares em todo mundo, com custos variando entre US$40 e US$500. Atendem a um grande número de segmentos e são produzidos para todos os bolsos. No mercado brasileiro são consumidos hoje 60% de aparelhos básicos (abaixo de US$100), 10% de aparelhos de alto valor (entre US$ 200 e US$ 300) e 5% de produtos Premium (acima de US$ 300).

Realidade brasileira
O Brasil é a 14ª economia do mundo com um PIB de US$ 605 bilhões (2004). Integra o G20 e o PIB per capita superior a US $3.300 nos coloca na classificação do Banco Mundial no grupo de países com renda intermediária (entre US$826 e US$10.065).
O Brasil não é um país pobre, mas, devido a desigualdade da distribuição de renda, é um país com muitos pobres. São mais de 50 milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza. A redução da pobreza, que consiste na redução da desigualdade,constitui o grande desafio da política social brasileira.

Em contraste, de acordo com o IPEA, no ano de 2002, os 10% mais ricos eram responsáveis por 47% da renda total. Isso significa que temos aqui um segmento com mais de 18 milhões de brasileiros com alto poder de consumo. É um significativo segmento da população brasileira, superior à população da Holanda e equivalente à soma de Portugal com a Suécia, responsável pela aquisição anual de muitos milhares de carros de luxo como Audi, BMW, Mercedes Benz, Jaguar, Ferrari e que consomem marcas como Rolex, Armani, Cartier, Channel, Louis Vuitton, Prada, Gucci e Tiffany.

Recente matéria publicada pelo jornal O Estado de São Paulo aponta a existência no país de 98.000 milionários (habitantes com mais de US $ 1 milhão) e representam um considerável mercado para aviões executivos, helicópteros, lanchas de grande porte e iates. No ano passado, os 66 aeroportos da Infraero registraram o número de 83 milhões de passageiros, 11 milhões dos quais internacionais, mostrando um pujante e crescente movimento.

Num mundo globalizado, o acesso à informação tornou-se um requisito essencial para o aumento da competitividade das nações e  esse segmento de pessoas, o setor empresarial e outros segmentos da sociedade brasileira demandam tecnologia que facilitem suas vidas dando-lhes informação e mobilidade. Existem grandes desafios nos segmentos de menor poder aquisitivo e grandes oportunidades nos segmentos de maior renda.

O Brasil possui 77 milhões de celulares e deverá ultrapassar 100 milhões no próximo ano. A competição é intensa e as três grandes operadoras nacionais – Vivo,TIM e Claro – são controladas por grupos internacionais cujas operações no setor estão entre as maiores do mundo (Telefonica/Portugal Telecom, Telecom Itália e América Móvil). Dentre as operações regionais deve ser destacada a Oi, quarta operadora, muito competitiva na sua região.

O serviço é prestado em 2.948 municípios, cobrindo mais de 160 milhões de habitantes.(87,4% da população brasileira). Para incrementar o crescimento nas camadas com menor poder aquisitivo, as operadoras têm desenvolvido um constante esforço na busca de aparelhos de baixo custo, que resultou numa ampla gama de produtos abaixo de US$ 60, alguns abaixo de US$ 50. O significativo volume de trocas tem aumentado o comércio de usados, ajudando a crescer a penetração nesse segmento.
O impacto dessa concorrência, por vezes com alto subsídio para aquisição de clientes pré pagos com baixíssima receita, tem refletido na rentabilidade das empresas. Mais foco em rentabilidade e menos em market share certamente ajudará a equacionar essa questão.
 
Wireless
O celular é um instrumento de inclusão digital. É objeto de desejo de todas as camadas da população, aqui e em todo mundo, e tem sido muito importante na universalização do serviço de voz no país. Também é de fundamental importância para integrar o país na Sociedade da Informação que se amplie cada vez mais o acesso à internet. Nesse sentido, os serviços wireless em banda larga têm relevante papel e estão em vigoroso crescimento em todo mundo.

A Vivo lançou o serviço Play 3G (CDMA1XEV DO) em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Deve ampliar para outras capitais, mas tem limitações do espectro e de cobertura. As demais operadoras precisam adquirir novas faixas (1900/2100 MHz) para oferecerem o serviço WCDMA-UMTS.

O Brasil dispõe de radiofrequência necessária para equacionar essas demandas e a ANATEL, com visão da evolução dos serviços móveis de banda larga e planejando o uso eficiente do espectro, através da Resolução Nº 312,de 19 de setembro de 2002, destinou 110 MHz nas faixas de 1900/2100 MHz para os sistemas móveis que sigam as especificações do IMT-2000 da União Internacional de Telecomunicações (UIT).

Está mais do que na hora de regulamentá-la e colocar à disposição essas faixas em caráter oneroso às operadoras interessadas. É fundamental que sejam agilizadas as providências para a consulta pública do edital de forma que a licitação possa ocorrer no próximo ano.

Como já realizado em diversos países, poderia ser estabelecida uma data limite para início das operações comerciais. Dezembro de 2008 daria flexibilidade para as mais diversas estratégias de investimento. O Brasil não pode ficar para trás e precisa acompanhar o desenvolvimento tecnológico e industrial mundial.


(*) Gilson Rondinelli Filho, 56, sócio-presidente da GRF Telecom, foi vice presidente executivo de marketing e inovação da Vivo, presidente da Telesp Celular e da Global Telecom.

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