O Serpro quer levar as redes sociais para os aplicativos do dia a dia do governo


O Serpro está se preparando para um forte aumento de tráfego em sua rede, que atende exclusivamente ao Governo Federal. E este aumento de consumo será provocado porque a empresa pretende expandir o conceito das redes sociais para os aplicativos do dia a dia, informa seu presidente, Marcos Mazoni. Por exemplo, o novo sistema de gestão de recursos humanos da União passará a ser de comunidades. “Os procuradores da União, os médicos, e essas pessoas vão se comunicar entre si”. A sua intenção é já no segundo semestre ter uma rede de 100 Gbps.

Mazoni: "os fornecedores privados não serão excluídos"
Mazoni: vamos expandir o conceito das redes sociais”

O Serpro está se preparando para um forte aumento de tráfego em sua rede, que atende exclusivamente  ao Governo Federal. E este aumento de consumo será provocado porque, explica, seu presidente Marco Mazoni, a empresa pretende expandir o conceito das redes sociais para os aplicativos do dia a dia. Por exemplo, o novo sistema de gestão de recursos humanos da União passará  a ser de comunidades. “Os procuradores da União, os médicos, e essas pessoas vão se comunicar entre si”, explica o executivo, que vai contratar da Telebras, assim que o Decreto que cria a rede estatal de telecomunicações for regulamentado. A sua intenção é já no segundo semestre ter uma rede de 100 Gbps. A seguir , a entrevista:

 Tele.Síntese–  Presidente, como ficou o orçamento do Serpro para este ano, quais as prioridades?

Marcos Mazoni – Este é o ano de fechamento de vários projetos.  Inauguramos a última sala de comando. Nessas salas, é feita a gestão dos serviços de forma integrada e cruzada. Retomamos nossa sede no Rio de Janeiro, que hoje está em expansão, expandimos todo o centro de dados de Brasília e reformamos o de São Paulo. O nosso foco tecnológico é o  de resistência a falhas. Resistir a falhas não significa de maneira nenhuma imaginar que um único ponto possa não ter falhas. É o contrário: reconhecer que a falha existe e que é possível acontecer e ter uma atitude para que ela não apareça para o nosso usuário final. Isso é o que faz hoje os grandes provedores mundiais. Os sites da Google param, os sites do Facebook param, o que eles têm  a capacidade de evitar  que os  usuários  percebam essa interrupção. O  nosso foco é investir nos três centros de dados, investir em tecnologias compartilhadas – as chamadas virtualizações – tanto de ambientes computacionais como de armazenamento e por isso o Serpro investiu pesado em nuvem. Nosso objetivo é que, para o usuário final a interface independa da infraestrutura.

O nosso objetivo final é o de consolidação da nossa rede de telecomunicações em alta velocidade e a  consolidação da nossa capacidade computacional, usando as tecnologias mais modernas que se tem disponível.

Tele.Síntese – Em termos de valores, quanto é que representam esses investimentos?

Mazoni – Nós temos investido, em média, R$ 180 milhões por ano. O nosso orçamento este ano é de R$ 250 milhões.

Tele.Síntese– Não haverá cortes?

Mazoni – Os cortes não acontecem diretamente nos nossos recursos porque não estamos no Orçamento Geral da União, mas conforme os nossos clientes vão cortando serviços, nós adequamos o orçamento. Nós imaginamos que os investimentos possam ficar  no padrão tradicional de R$ 180 milhões.

 Tele.Síntese – Como está sendo implementado o e-mail seguro do Serpro, o Expresso V3? E como é essa relação de compra?

Mazoni –Nós estamos migrando, nesse momento, toda a Presidência da República. Devemos concluir essa fase até o final deste mês de março. Esse incremento de clientes vai aumentar também a minha capacidade de investimento. Alguns já são clientes e nós vamos fazer a migração, como o Ministério do Planejamento, que começa no dia 17 ( de março), e vai para a plataforma segura, como chamamos o V3.

Evidentemente que, com o Expresso V3 nós temos novos serviços a apresentar, como por exemplo, o Jataí, que é um compartilhamento de arquivo em nuvem, conhecido no mercado como dropbox. O Expresso V3 vai agregar serviços para que eu possa faturar mais, além detrazer  novos clientes.

Tele.Síntese – Você tem uma projeção do  percentual da administração pública que vai aderir ao e-mail seguro?

Mazoni Até o  final de 2014, atingiremos um milhão de contas. Toda a administração direta representa perto de  2,5 milhões de contas. Mas alguns Ministérios vão fazer soluções caseiras, próprias. Os clientes da Dataprev, por exemplo, usam e Expresso V1, vão migrar para o V3, mas usando soluções próprias.

Tele.Síntese – Então nem toda a administração direta é obrigada a migrar para o V3?

Mazoni – Não, todos têm que migrar para uma solução segura e portável dentro da ambiente de rede do governo. Portanto, isso não significa que tenha que ser do Serpro e nem ser o Expresso. Expresso é a solução que o Serpro apresenta.

Tele.Síntese –  Está faltando o decreto que vai definir o que é essa rede segura. Como é esse conceito?

Mazoni- O decreto já passou pelos órgãos técnicos e está aguardando o encaminhamento do Ministério do Planejamento para a Presidência da República. A rede segura é gerida pelos órgãos da administração. Isso não exclui os nossos fornecedores. Os processos de inteligência serão controlados pelos agentes do próprio governo. Então, por exemplo, a rede do Serpro hoje já é uma rede segura, mesmo que eu tenha fornecedores privados no mundo das telecomunicações. Eu não preciso excluir, por exemplo, uma Telefônica, uma Embratel, mas  o roteamento terá que ser feito por nós, como é a nossa rede hoje. Os roteadores e switches já são administrados por nós.  O controle do tráfego  é nosso, mesmo que eu use o meio de transporte não estatal.

Tele.Síntese – E é isso que o decreto vai especificar? O nível de segurança?

Mazoni– É isso. É claro que o governo pretende usar cada vez mais a estrutura da Telebras.

Tele.Síntese– E a Telebras vai ficar com toda infraestrutura das redes públicas atuais, como a do Serpro, Dataprev?

Mazoni – Na medida em que  consiga  atender de forma melhor a minha rede, é claro que vamos fazer a opção de migrar para a rede da Telebras. Mas não há essa obrigação.

Tele.Síntese – Publicado o decreto, a Telebras tem a preferência para apresentar seu projeto para atender as necessidades de vocês. É isso?

Mazoni– Isso. Eu particularmente acredito que o core da rede é um espaço privilegiado para a Telebras. Agora, pelo padrão de capilaridade que nós temos, vamos continuar usando múltiplos fornecedores.

Tele.Síntese – Qual a capilaridade do Serpro?

Mazoni – Em função da Receita Federal a rede chega em todos os postos de fronteiras do país, em todos os aeroportos e portos. É de uma capilaridade muito grande.

Tele.Síntese – O Expresso V3 começa a ser usado no Uruguai. Ele vai para outros países?

Mazoni – Há vários países interessados.  Argentina e Venezuela  estão procurando parcerias para isso. O Uruguai adotou um método diferenciado. Eles têm uma empresa para prover todo o serviço, a Antel, que está contratando  o Serpro para a migração do serviço de inteligência. É um processo mais empresarial, fica mais objetivo. Nos outros países são projetos de operação entre os governos, e isso tem uma velocidade diferenciada.

Tele.Síntese – Qual a diferença do Expresso V3 para os outros serviços de comunicação?

Mazoni – Primeiro,  ele é um produto muito mais completo. Estamos falando  de ferramentas como a da Google, da Microsoft,  que integram um processo de comunicação muito maior. Nós vimos que seria impossível fazer isso sem uma quebra tecnológica. Então fizemos a quebra tecnológica do Expresso V2 para o V3 e com isso, nós agregamos em muito no que diz respeito à segurança. No Expresso V3,  nós já trabalhamos com ele orientado a serviços.

Com o Expresso V3 eu não só tenho o e-mail, mas um conjunto de facilidades de interfaces do e-mail, de maneiras de atuar com o e-mail, de sistemas de filtragens, que são muito diferentes do V2. A mesma coisa vale para a agenda, que ganha o aspecto de múltipla agenda, uma ferramenta importante que o mercado já tinha. O Expresso V3 tem bloco de tarefas integrado, que permite ao usuário estabelecer um conjunto de tarefas, cobrar pessoas, compartilhar com pessoas, tudo na própria ferramenta. E a comunicação agora passa a ser integrada.  Hoje, se as ferramentas de mercado conseguem colocar oito pessoas em videoconferência, nós colocamos 18 pessoas. O projeto original da comunidade Tine na Alemanha, envolve CRM, envolve uma série de outras ferramentas que nós achamos que não era o momento ainda.

Tele.Síntese – Em relação à questão da espionagem, eu imagino que ele não fica imune, fica?

Mazoni– Não. Mas não é a ferramenta sozinha que aumenta a robustez. O que aumenta a robustez é a instalação. Uma mesma ferramenta mal instalada  é frágil em um lugar e, bem instalada, pode ser bastante robusta em outro. A instalação compreende desde onde estão os servidores, como eles foram preparados, quais são os firewalls. Os controles de acesso, a verificação de  backdoors, de tráfego sainte. É a  instalação inteira que dá a segurança, não é uma ferramenta isolada que vai dar a segurança.

Tele.Síntese– A instalação fica por conta do Serpro?

Mazoni – Para os nossos clientes, sim. Para os não clientes, não.

Tele.Síntese – Qual a avaliação do Sr. quanto ao uso do software livre? O Sr. sempre foi um grande indutor

Mazoni – Eu tenho certeza que nós avançamos em muito com a utilização maciça pelo governo. Nós estamos iniciando uma nova pesquisa para verificar a utilização. O Serpro, por exemplo, hoje usa praticamente todas as plataformas de software livre disponíveis. Coisa que há sete anos não acontecia. Nossa nuvem é toda baseada em software livre, o Expresso é uma demonstração disso. Os servidores virtualizados todos usam Linux.  Conseguimos substituir todos os aplicativos da Receita Federal que vão para os usuários finais para Java para ser multiplataforma.

Tele.Síntese – O Brasil ainda tem dificuldades de criar algoritmos para criptografia?

Mazoni – Nós consideramos a nossa uma boa criptografia. Ela é imbatível? Não, porque temos que evoluir ainda muito na matemática, especialmente na matemática quântica. Se nós não investirmos na matemática, nunca seremos um país de ponta na criptografia.

Tele.Síntese– O Expresso V3 usa criptografia brasileira?

Mazoni – Usa uma criptografia nossa desenvolvida junto com a Universidade Federal de Santa Catarina. O V3 é reconhecido na comunidade Tine, que é baseada na Alemanha, como a versão brasileira do Tine e com muitas evoluções.

Tele.Síntese– O Sr.  falou que uma das prioridades do Serpro é de investimento na rede de telecomunicações

Mazoni–  Preciso de outros padrões de velocidade, porque a diferença da nuvem para a internet é que os dados circulam muito mais na rede do que na internet.  A ideia da nuvem é de que eu estou baseado em vários pontos simultâneos, por isso preciso de tubos maiores. Hoje nós temos velocidades de 10 Giga, que atendem completamente as tecnologias de nuvem, mas vamos precisar de mais robustez.

Tele.Síntese – Para quando será necessário esse aumento?

Mazoni – Imaginamos que no segundo semestre deste ano estaremos com a Telebras operando aqui no aumento das novas velocidades. Vamos pular o 40 Giga e vamos direto para os 100 Giga.

Tele.Síntese – Qual o incremento do volume de dados? Como o governo vai aumentar esse consumo?

Mazoni –  Vamos ter que aumentar  porque o conceito das redes sociais vai se expandir para os nossos aplicativos do dia a dia. Por exemplo, nós estamos desenvolvendo um novo sistema de gestão de recursos humanos da União. Um sistema de RH de uma corporação como o governo normalmente trata da relação do empregado, do indivíduo com a organização onde está incluído. Mas nós vamos migrar para que esse sistema passe a ser de comunidades. Os procuradores da União, os médicos, e essas pessoas vão se comunicar entre si.

Essas aplicações, que hoje tem uma relação de um para um,  vão ter utilização de múltiplos para múltiplos, o que vai carregar  a necessidade de redes robustas para aguentar esse tráfego. Por que nós investimos em nuvem? Nós investimos em nuvem porque eu imagino que eu quero fazer a minha declaração de Imposto de Renda, mesmo viajando para fora do país e sem ter o meu computador. Então eu quero entrar em qualquer device e fazer minha declaração. E o meu imposto de renda do ano passado vai estar armazenado aonde? Na nuvem, não preciso ter ele hospedado na minha máquina.

Tele.Síntese– Você imagina quando esse cenário vai acontecer?

Mazoni – Nós estamos tecnologicamente prontos para isso. Mas é uma decisão do cliente.

Tele.Síntese – O Serpro continua com seus serviços para os municípios?

Mazoni- Só por intermédio do Ministério das Comunicações, e o programa de Cidades Digitais.Do ponto de vista empresarial, eu não posso deslocar técnicos que atendem hoje ao Tesouro Nacional, com um contrato de algumas centenas de milhões, para atender uma prefeitura, um estado, que não vai remunerar isso e vai achar que o Serpro tem que fazer isso de forma generosa e não lucrativa. E não é só isso. Se formos centralizando tudo, nós vamos tirar as atividades das empresas municipais, das empresas estaduais e até mesmo do mercado local, que atendem muito melhor um município de 10 mil habitantes do que nós aqui.

Tele.Síntese– O espaço das operadoras privadas pode diminuir com o decreto a ser publicado?

Mazoni – Continuaremos sempre prestando os serviços que forem de função de Estado. Não existe no mundo Estado que não controle seu processo de arrecadação, seu processo de despesas e assim por diante. Então, nós não somos concorrentes da iniciativa privada. Pelo contrário, somos grandes contratadores da iniciativa privada. Têm funções de continuidade do Estado que necessitam sim, para o bem da Nação, ter uma organização que dê essa continuidade. Vocês imaginem a cada quatro anos licitar quem vai prover um sistema de recursos humanos da União, ou de Imposto de Renda. Quando terminasse de implantar, teria que licitar de novo, porque são sistemas tão grandes que não teria tempo.

Quando o Estado contrata um portal, por exemplo, contrata da iniciativa privada. Mas ele tem que botar em operação aonde? Tem que botar em um ambiente que dê a segurança de continuidade que o Serpro dá. E aí muitas vezes nós temos que refazer muitas soluções porque elas não foram feitas pensando na integração de todos os serviços.  Não vemos nenhuma concorrência com a iniciativa privada, não é nosso foco atender municípios e estados. Agora, função de Estado e coisas em que a permanência é muito mais econômica para o país, o Serpro está dentro.  (Co-autor: Miriam Aquino)

 

 

 

 

 

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